O império contra-ataca

Não podemos dizer que fomos apanhados de surpresa. Podemos dizer que estivemos distraídos, e isso é legítimo. Mas os sinais estavam todos lá, há muitos anos, e Paulo Núncio fez questão de nos avivar a memória, dias antes da eleição de 10 de Março, quando afirmou, sem rodeios, que:

Em 2015, o governo do PSD e do CDS foi dos primeiros governos do mundo a tomar medidas no sentido de dificultar o acesso ao aborto.

Nuno Melo chamou-lhe “uma afirmação de grande respeito democrático”, mas aquilo as palavras de Núncio puseram a nu foi um ataque deliberado à democracia.

A lei do aborto, aprovada na sequência do referendo de 2007, em que o “sim” venceu com 59,25%, foi subvertida pelo preconceito ideológico do governo liderado por Pedro Passos Coelho. E não era apenas o direito ao aborto, sufragado da forma mais directa possível pelos cidadãos, que estava sob ataque. Era o Estado de Direito e o princípio da separação de poderes. Não compete ao governo, titular do poder executivo, minar o normal funcionamento do poder legislativo, cuja sede é Parlamento.

O próprio Luís Montenegro, que se tem mantido em silêncio sobre a polémica, liderava a bancada parlamentar do PSD quando, em 2016, moveu um processo disciplinar contra Paula Teixeira da Cruz, castigando, assim, a sua dissidência ao furar a disciplina de voto imposta pelo partido a propósito da votação às alterações da lei da IVG.

A recente entrada em cena de Passos Coelho, sempre meticuloso na escolha dos eventos em que participa e das causas que apadrinha, não é inocente. Representa uma forma de pressão sobre Montenegro, a quem a direita onde agora se insere exige entendimentos com o CH, e posiciona-o para um futuro muito diferente daquele que propunha em 2011.

Não é só às mãos dos movimentos populistas da extrema-direita que a direita liberal e moderada começa a perder terreno. A direita radical, ultraconservadora e autoritária, não é uma ameaça menor. Ambas defendem menos Estado na economia e mais Estado na vida privada de cada um, sob a falsa capa da moral e dos bons costumes.

O congresso do retrocesso da passada semana, repleto de iliberais e saudosistas mais ou menos assumidos do Estado Novo, não surgiu do vácuo. Já produziam ideologia a um ritmo frenético, ainda o oportunismo malabarista do Cirque du Ventura vivia trancado em armários com pó, na São Caetano e no Caldas. Paulo Otero, João César das Neves, Gonçalo Portocarrero de Almada ou Jaime Nogueira Pinto não são estreantes na cena política. E, para o bem ou para o mal, têm o seu lugar de privilégio no regime que, em maior ou menor grau, desprezam. Como têm lugar as suas opiniões e causas, por repugnantes que nos possam parecer. A democracia, paradoxalmente, tem sempre um lugar à mesa para os seus inimigos.

Compete aos democratas, de todas as confissões, denunciar a desmascarar uma agenda totalitária, que quer impor o seu arquétipo de família, o seu paradigma ideológico de educação, a sua narrativa identitária e o seu modelo de Estado, castrador e autoritário, na vida das pessoas. Imbuídos do mais contemporâneo wokismo, querem cancelar a emancipação das mulheres, cancelar homossexuais, cancelar a educação sexual, cancelar o livre-arbítrio, cancelar tudo o que a sua interpretação radical dos princípios cristãos considera obstáculos ao sonho de uma sociedade em muito idêntica à Gilead de The Handmaid’s Tale.

Chegam até a apresentar a Sagrada Família como modelo a impor, como se Maria não fosse uma grávida solteira acolhida por um José que assume um filho que não era seu, esse Jesus que foi refugiado e perseguido e que caminhou ao lado de Maria Madalena, uma prostituta.

O paradigma mudou. E essa mudança acentuar-se-á cada vez mais ao longo dos próximos anos. O combate político, nas democracias, será cada vez menos entre esquerda e direita, liberais e conservadores, para se focar no embate entre aqueles que defendem a liberdade e a democracia, e aqueles que defendem o pensamento único e o autoritarismo. Se o império contra-ataca, respondamos, enquanto podemos, nas urnas.

Comments

  1. É natural, se a história acabou, e o modelo único continua a não funcionar – com as elites a admitirem que não conseguem ser competitivas com o seu fantástico modelo -, o que resta é encontrar Outros internos e externos, fracos e fortes simultaneamente, para voltar a erguer o mítico passado supremacista com a chuva de aldrabices que se tem visto, que cada vez mais insistem que os nossos olhos mentem sobre a desumanização necessária à hegemonia. A base do sistema de reprodução do sistema é um ponto natural de monitorização e controlo de quem é desviante da ideologia.
    As regras não vão salvar coisa nenhuma, porque a única coisa que defendem são a propriedade e a exploração, por muito palavreado que haja a defender direitos universais, estão sempre disponíveis para sacrificados um a um. Há que celebrar não estar fora do paraíso, vestir o uniforme, e ir conquistar o mundo para nos dar os recursos outra vez.

  2. JgMenos says:

    O direito ao aborto foi promovido a direito à queca irresponsável com consequências por conta do contribuinte.
    O liberalismo é horroroso menos para as f*dinhas.

    • POIS! says:

      Pois, finalmente, podemos ..

      …concluir que o diagnóstico é inequívoco: um asterisco encravado no escroto tem impedido Vosselência de alcançar a merecida felicidade.

      Deve dirigir-se ao Serviço de Urologia Gráfica do Hospital de Santa Maria para ver se podem fazer alguma coisa.

    • As fodinhas vendem, e não é pouco. Quanto ao resto, não adianta negar a natureza humana e condenar as mulheres à criminalidade e risco de morte.

      • POIS! says:

        Vendem?

        Então está explicado por que razão o Menos se queixa tanto da miséria em que está mergulhado.

  3. Mas, de facto, começo a ter dificuldades em perceber o que é uma democracia que defende a liberdade, quando, a seguir aos elogios ao mais ético país do médio oriente, os elogios a quem queria limpar os ratos da Rússia ou da Ucrânia, agora elogia-se a maior democracia do mundo… na Índia.
    Portanto, a seguir à cruzinha para mudar o testa de ferro, o segundo critério parece ser desumanizar muçulmanos; os direitos das mulheres ou dos lgbt+, para não falar de coisas complexas como liberdade de expressão ou direito ao protesto, parecem ficar pela retórica.

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