Quantos 25 de Abril houve? (Vasco Lourenço responde a Manuel Bernardo)

continuação daqui

Carta aberta do coronel Vasco Lourenço ao coronel Manuel Bernardo, que se referiu àquele na carta aberta que enviou a Marcelo Rebelo de Sousa a propósito vdo lançamento do livro do coronel Sousa e Castro

Pergunto-me se vale a pena gastar tempo e energias com o Manuel Bernardo (MB). As suas acções no passado criaram-lhe um tão grande perfil de descredibilidade que me parece ser tempo perdido… De facto, só quem gosta de ser enganado é que ainda lhe dá crédito…

O ter presente o velho ditado de “água mole em pedra dura…” leva-me a, perante as investidas que me vem fazendo – ainda não consegui atingir o porquê de me ter eleito como alvo preferido das suas ofensas – esta tomada de posição, que conto possa trazer algum esclarecimento e alguma luz a quem esteja mal informado, mas de boa fé.

1. Em primeiro lugar, recuso liminarmente o título que MB colocou em mais uma das suas diatribes: como afirmei já mais que uma vez, não sei mentir, não invento estórias, os factos que conto são verdadeiros. Por muito que alguns MB os tentem contrariar. Neste caso, para além de não apontar nenhum facto concreto, a sua falta de credibilidade é a minha melhor defesa.

Importa aqui recordar a sua reacção, quando alguém lhe chamou a atenção para o facto de ele saber que as afirmações que faz no seu último livro sobre mim e a minha actuação na Guiné não corresponderem ao que se passou, não estarem correctas, estarem deturpadas: ” está bem, mas eu tinha umas contas a ajustar…” afirmou, com o maior à vontade dos mentirosos e dos cínicos! [Read more…]

Quantos 25 de Abril houve? (Vasco Lourenço escreve a Sousa e Castro sobre Manuel Bernardo)

continuação daqui

Carta do coronel Vasco Lourenço ao coronel Sousa e Castro sobre a carta aberta enviada pelo coronel Manuel Bernardo a Marcelo Rebelo de Sousa, que prefaciou o livro de Sousa e Castro

Caro Sousa e Castro,

O homem (com h bem pequenino) tinha de voltar a atacar. E, mais uma vez, me envolve nas suas diatribes, invenções, aldrabices e quejandos.

Faz-me rir (apesar do assunto ser sério) a nova calúnia que me dirige (desta vez, juntando-me a ti) quando afirma que “(…) pode ser imputada a estes dois militares a inveja de não terem conseguido atingir o almejado posto de general, apesar de o terem tentado mais do que uma vez, enquanto membros do Conselho da Revolução, ou quando este órgão político-militar foi extinto”.

Tu já lhe respondeste.

Por mim, lembro que estive graduado em oficial general (Novembro de 1975 a Agosto de 1976, brigadeiro; de Agosto de 1976 a Abril de 1978, general) durante dois anos e meio, desempenhando o cargo de comandante da RML e governador militar de Lisboa, em condições difíceis e com resultados que muito contribuíram para o orgulho pessoal que tenho do meu currículo. Acção essa a que, diga-se de passagem – como já te disse na crítica que fiz ao teu livro – prestas pouca atenção nesse mesmo livro. O que não invalida, como te referi, que, em termos globais, tenha gostado do mesmo. Lembro ainda que é por demais conhecido publicamente (tu estavas lá e participaste activamente nisso) que, quando terminou o Conselho da Revolução e me quiseram promover a brigadeiro, recusei liminarmente tal hipótese.

Como voltei a recusar, há pouco tempo, quando me sondaram para ser usado como “moeda de troca” na inqualificável promoção do Jaime Neves a general! [Read more…]

Quantos 25 de Abril houve? (Sousa e Castro responde a Manuel Bernardo)

Iniciamos hoje uma série de depoimentos sobre o 25 de Abril de 1974, da autoria de alguns dos que fizeram aquele dia mágico da História de Portugal. São, na sua maioria, reacções cruzadas à carta aberta que o coronel Manuel Bernardo dirigiu a Marcelo Rebelo de Sousa a propósito do livro do coronel Sousa e Castro, prefaciado exactamente pelo professor Marcelo.

Carta Aberta ao meu camarada Manuel Bernardo, a propósito da carta que enviou a Marcelo Rebelo de Sousa e das considerações nela produzidas a meu respeito.

Caro camarada,

Não o conheço pessoalmente, sigo todavia a sua intermitente intervenção política, sob forma escrita, a propósito dos acontecimentos que vivemos há cerca de três décadas.

Nunca emiti publicamente qualquer juízo de valor acerca das suas opiniões políticas e outras, apesar de em relação a algumas delas discordar profundamente. Que me recorde, apenas por uma vez me interessei pela sua pessoa, perguntando ao nosso camarada Vasco Lourenço por si. Foi-me então dito que o camarada tinha sido um dos raros oficiais, de patente abaixo de tenente-coronel, saneados na sequência do 25 de Abril. A conversa ficou por aí.

Inicio por isso esta missiva, partindo da seguinte convicção: o camarada foi provavelmente alvo de uma injustiça, da parte de militares que como eu se empenharam na Revolução Libertadora, e que não lhe reconheceram na altura a sua hoje proclamada adesão aos valores da Democracia, Liberdade e Pluralismo. Apesar da probabilidade de termos errado, é absolutamente certo que se indícios houvesse, por ínfimos que fossem, de que se tinha empenhado no derrube da ditadura, tal acto não se verificaria. Creio que não negará esta evidência e aceitará que ela balize, desde já, esta minha resposta.

Em relação aos acontecimentos anteriores a 25 de Abril de 1974, nos quais estive razoavelmente envolvido, não encontro de si registo significativo em nenhum deles. Em relação ao 16 de Março de 1974 e ao 11 de Março de 1975, no que vai ficar para a História, não reza qualquer intervenção significativa da sua parte. Fiquei agora a saber que os acontecimentos de 28 de Setembro de 1974 o perturbaram significativamente. [Read more…]

Memória descritiva: Luta armada contra a ditadura (4)

A Revolução de 25 de Abril veio provar que tinham razão aqueles que defendiam que a ditadura só cairia pela força das armas. Porém, derrubada a ditadura pelo MFA, durante alguns meses, sobretudo até ao 11 de Março de 1975, o espectro de um contragolpe de direita foi uma permanente ameaça e uma preocupação constante para os antifascistas.

Quando em 28 de Setembro de 1974, sob a inspiração do marechal Spínola, um dos membros da Junta de Salvação Nacional, o general Galvão de Melo, apelou a uma manifestação da «maioria silenciosa» – referindo-se a uma suposta maioria dos cidadãos portugueses silenciada pelo terror imposto pelas esquerdas – temeu-se que as direitas, quer as estruturas civis quer as militares, tentassem a via golpista para restaurar a ditadura.

Fizeram-se barricadas, o povo veio para as ruas armado com podia – e a montanha pariu um rato – afinal a direita não se atreveu a deitar a cabeça de fora. Só no ano seguinte, em 11 de Março, fez uma tentativa canhestra, rápida e consistentemente controlada pelo MFA, logo apoiado por manifestações populares que não deixaram dúvidas quanto ao que a maioria do povo português sentia. Aliás, como sempre acontece nestas coisas, a ameaça golpista de Spínola, deu lugar a um forte avanço das forças populares. [Read more…]

Estamos de vermelho… porque é Abril!


A partir de hoje e até ao 1 de Maio, o Aventar está de vermelho. Porque é Abril.
É a nossa homenagem a todos os capitães e a todos os outros que fizeram o dia do nosso contentamento. O dia mais belo da história de Portugal.

Vasco Lourenço – Do Interior da Revolução (A Kaulzada)*

A ideia era a eliminação física de Spínola e Costa Gomes?
É mais natural que fosse só eliminação política ou militar… Não sei exactamente. Nunca conseguimos definir isso porque, felizmente, as coisas não avançaram nesse sentido. Portanto, o Sousa e Castro vem em pânico e diz-nos: “Pronto, a situação é esta, pá. Tenho aqui o documento que o homem nos entregou para justificar o alto patriotismo do Kaúlza.”
O facto é que a situação era altamente perigosa. A nossa precária
organização, a grande indefinição ideológica, que ainda se verificava,
obrigavam a uma actuação rápida, sem recorrer a grandes reuniões…
Bem e o que é facto é que decidi não reunir a Direcção e actuar de
imediato. Combinei com os elementos que estavam nessa subcomissão
do estudo de situação, que eram capitães da minha inteira confiança,
fazer abortar o golpe. Rapidamente, contactei um capitão que estava no Estado-Maior General das Forças Armadas, a quem já tinha pedido, em tempos, para me preparar uma entrevista com o Costa Gomes…
Quem era esse oficial?
O capitão Machado de Oliveira. Pedi-lhe: “Arranja-me, com urgência,
para ontem, uma audiência com o general Costa Gomes.” Passado pouco tempo: “Pronto. Recebe-te amanhã.” Era numa sexta-feira, avancei para falar com o general Costa Gomes. Lembro-me de que levava uma pistolazita pequena, e quando cheguei pedi para ma guardarem, para não ir para o gabinete do Costa Gomes armado, e, então, tenho uma conversa com ele. Não o conhecia, ele também não me conhecia de lado nenhum. Disse-lhe ao que ia: “Estou aqui para lhe denunciar um golpe militar que está em marcha, um golpe de Estado dirigido por estes quatro generais. Portanto, a situação é esta: O senhor e o general Spínola são os dois inimigos principais a eliminar, não sabemos se fisicamente se não. E nós estamos em pânico porque não sabemos que fazer e estamos sem capacidade de nos opormos a isto, portanto, é preciso fazer abortar isto imediatamente.”
Eu confesso que a reacção do Costa Gomes foi uma enorme desilusão: “Ah, muito bem, com que então um golpe!” E eu: “Estou a pensar falar com o general Spínola também. Vim primeiro falar com o meu general, agora penso falar com o general Spínola.”
“Sim senhor. Acho muito bem que fale também com o general Spínola. Sim senhor. Muito obrigado pela vossa confiança. Muito obrigado por ter vindo contar-me isso. Sim, senhor. Eu vou ver. Muito obrigado.”
Estou ali dez minutos e saio absolutamente aparvalhado e a pensar: “Mas o que é isto? Venho eu ao chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, trago-lhe estes elementos, há um golpe de Estado que está em marcha, quatro generais metidos, ele é um dos alvos principais a eliminar e recebe-me como se estivesse a tomar um cafezito, uma bica!”
Então e foi logo falar com Spínola?
Primeiro, encontro-me com o Fabião. Ele estava, na altura, a tirar o curso do EPOSE, em Pedrouços, ali no Instituto de Altos Estudos Militares. Era, aliás, o chefe de curso. E combinámos, então, um encontro. Ele iria de comboio até à estação de Pedrouços e eu iria buscá-lo lá. Fomos para a zona em frente dos Jerónimos, saímos com receio que pudesse haver algum microfone dentro do meu próprio carro, e conto-lhe:
“A situação é esta. Extraordinariamente grave. Eu preciso de falar com o Spínola. Você ponha-me imediatamente em contacto com ele.” Bem, eu já lhe contei qual era a minha relação com o Spínola. Nunca mais tínhamos falado…O Fabião foi à cabine telefónica que havia ali próximo, telefonou para casa do Spínola, que mandou dizer pela mulher que sim, que falava com ele, para o esperar na Cova da Moura.
Nós arrancámos para a Cova da Moura e ficámos dentro do meu carro à espera, no largo, quase em frente do portão. Passado um bocado, chegou o Spínola, que assim que me viu, não esconde o espanto: “Você aqui?” e o Fabião diz: “Oh meu general, aqui o capitão Vasco Lourenço precisa de falar consigo sobre um assunto importante.” E eu: “Oh meu general, vamos esquecer o que se passou porque neste momento, há um assunto mais importante do que tudo o resto. Está em marcha um golpe, quatro generais [e refiro os nomes], o senhor e o general Costa Gomes são os dois inimigos principais a eliminar. O general Costa Gomes, pelo passado dele e por 61; o senhor porque foi contactado pelo general Kaúlza de Arriaga para entrar no golpe e recusou, respondendo a certa altura, que tivesse cuidado, porque o senhor, só à sua conta tinha a Calçada da Ajuda toda.”
E o Spínola reage e diz: “Ai ele disse isso? Tem piada, mas isso é verdade. Eu, de facto, disse-lhe isso. Tem piada.” “Como vê, não estamos a inventar nada, o senhor confirma a conversa, portanto, nós
estamos a contar-lhe aqui o que é que se passa. E é preciso intervir. É preciso actuar. Eu já estive, ontem, com o general Costa Gomes, e disse-lhe que vinha falar consigo, ele achou muito bem.”
“Ah, já falou com o Costa Gomes? Ah, está bem, muito bem, sim senhor. Sim senhor! Bom, como vocês sabem, eu fui nomeado vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Eu vou tomar posse em princípios de Janeiro, lá para dia 10 ou 12… Vocês estejam atentos que eu vou tomar uma posição firme no meu discurso.” Eu olhei para ele e digo: “O quê, meu general?
Desculpe. Daqui a um mês? Tomar posse…?” “Sim, sim. Estejam descansados.”
“Não. Mas oiça, o que eu lhe estou a denunciar é um golpe que está em marcha. Pode ser amanhã. Pode ser daqui a dois ou três dias. Está em marcha. Qual daqui a um mês! Qual ir tomar posse!” “Estejam atentos que eu vou tomar posse. Pronto. Obrigado, prazer em vê-lo.
Prazer em vê-lo, oh Fabião.”
Bem, e foi-se embora. O Fabião e eu ficámos com cara de parvos a olhar um para o outro: “O que é que se passa? Mas que é isto? Que raio de generais é que nós temos? O outro, ontem, recebeu-me com um cafezito, e tudo bem. Este, hoje, manda-nos esperar pelo discurso daqui a um mês!
Eh pá, como é que é? Isto é o fim! Nós temos que fazer qualquer coisa porque isto assim não pode ser!” E diz-me o Fabião: “Bem, eu tenho uma possibilidade… Acho que temos que ser nós a fazer isto. Vamos fazer o seguinte: eu segunda-feira em Pedrouços, encarrego-me de denunciar publicamente o golpe. É o local óptimo, mais do que indicado.”
E eu digo: “Óptimo! Força! Você denuncia isso em Pedrouços e eu vou pôr a ligação a funcionar, dentro do possível”. E diz-me o Fabião: “O irónico é que nunca ninguém se vai convencer de que eu não vou fazer a mando do ‘Velho’, e ele nunca mais na vida me vai perdoar esta”. E, de facto, toda a gente ficou convencida de que isso fora iniciativa do Spínola. Quando não foi absolutamente nada.
O episódio é conhecido. Mas não resisto a pedir-lhe a sua versão, dada a extraordinária memória que tem…
Então, na segunda-feira de manhã, como estava combinado, na primeira aula que, ainda por cima, era uma aula com todo o curso presente (acho que eram para cima de duzentos majores que estavam a tirar o curso EPOSE, um estágio para oficial superior), o Fabião, que era o chefe de curso, quando chega o primeiro professor:
“Dá licença? Eu tinha uma informação para prestar ao curso.” E o professor convence-se de que é uma informação escolar: “Sim, senhor. Faz favor.” O Fabião levanta-se e diz mais ou menos isto: “Camaradas, quero informar-vos que, neste momento, está em marcha um golpe de estado liderado pelos generais Kaúlza de Arriaga, Joaquim Luz Cunha, Silvino Silvério Marques e Henrique Troni. Os dois inimigos principais a eliminar são os generais Costa Gomes e Spínola.” Bem, uma bomba no meio da sala, não teria provocad
o maior efeito. Aquilo foi, como calcula, o fim. Uma confusão dos diabos. Interromperam-se as aulas. Interrompeu-se o curso. Mandaram-nos todos para casa. Pronto, o Fabião foi corrido, depois, para o Distrito de Recrutamento de Braga. O Kaúlza negou, participou, queria que o Fabião fosse punido, enfim…
Ao mesmo tempo eu, na Trafaria, no BRT, que era a minha unidade, na sala de oficiais a fazer as ligações com as unidades e a gritar-lhes ao telefone: “Está em marcha um golpe militar do Kaúlza. Se acontecer
qualquer coisa não temos nada que ver com isso. Isso não é nosso. Alerta a malta toda que não temos nada a ver com isso, antes pelo contrário.”
Como disse, o nosso receio era que o golpe fosse lançado e houvesse
unidades nossas que aderissem, convencidas de que o golpe era o nosso.

* PRÉ-PUBLICAÇÃO

Memórias da Revolução: 7 de Abril de 1974

A 7 de Abril de 1974, diz o «Jornal de Notícias», decorrem em Paris as últimas homenagens a Georges Pompidou. À margem das cerimónias fúnebres, chefes de Estado de todo o mundo encontram-se para conversações informais.
A grande entrevista do dia é com Sarmento de Beires, que explica «como voei até Macau». Sarmento de Beires foi o primeiro piloto a efectuar uma missão de voo nocturno em Portugal em 22 de Janeiro de 1920. Em 1924, realiza com Brito Pais e Manuel Gouveia um voo até Macau.
No Porto, as crianças das escolas foram ao teatro e tiveram a surpresa de ver Cubillas, o jogador do F. C. do Porto. Na Taça de Portugal, o Tomba-Gigantes foi o Salgueiros, que eliminou a Académica.
No Festival da Eurovisão, o resultado do costume. Paulo de Carvalho terminou em último com 3 pontos, sendo que 2 deles foram atribuídos pela Espanha. A grande vencedora da noite foi a Suécia, com a canção «Waterloo». Os intérpretes? Um grupo que iria dar muito que falar nos anos seguites: os ABBA.
Faltam 18 dias para a Revolução.