Quantos 25 de Abril houve? (Vasco Lourenço responde a Manuel Bernardo)

continuação daqui

Carta aberta do coronel Vasco Lourenço ao coronel Manuel Bernardo, que se referiu àquele na carta aberta que enviou a Marcelo Rebelo de Sousa a propósito vdo lançamento do livro do coronel Sousa e Castro

Pergunto-me se vale a pena gastar tempo e energias com o Manuel Bernardo (MB). As suas acções no passado criaram-lhe um tão grande perfil de descredibilidade que me parece ser tempo perdido… De facto, só quem gosta de ser enganado é que ainda lhe dá crédito…

O ter presente o velho ditado de “água mole em pedra dura…” leva-me a, perante as investidas que me vem fazendo – ainda não consegui atingir o porquê de me ter eleito como alvo preferido das suas ofensas – esta tomada de posição, que conto possa trazer algum esclarecimento e alguma luz a quem esteja mal informado, mas de boa fé.

1. Em primeiro lugar, recuso liminarmente o título que MB colocou em mais uma das suas diatribes: como afirmei já mais que uma vez, não sei mentir, não invento estórias, os factos que conto são verdadeiros. Por muito que alguns MB os tentem contrariar. Neste caso, para além de não apontar nenhum facto concreto, a sua falta de credibilidade é a minha melhor defesa.

Importa aqui recordar a sua reacção, quando alguém lhe chamou a atenção para o facto de ele saber que as afirmações que faz no seu último livro sobre mim e a minha actuação na Guiné não corresponderem ao que se passou, não estarem correctas, estarem deturpadas: ” está bem, mas eu tinha umas contas a ajustar…” afirmou, com o maior à vontade dos mentirosos e dos cínicos!

2. Também agora vem a público citar um despacho sobre mim – utilizando elementos reservados – do então comandante chefe da Guiné, general Spínola.

Mais uma vez a sua desonestidade intelectual se declara de forma brutal: ao ler o livro “Do Interior da Revolução” pôde tomar conhecimento – se é que o não sabia ainda – desse episódio em pormenor, nomeadamente a forma como Spínola recuou e me deu razão. Como sempre faz, quando lhe interessa, escamoteou factos e difamou indirectamente – pois nunca faz acusações directas – os que quer atingir, para saldar as contas que tem em aberto…

3. Vem também afirmar que só agora tomou conhecimento da razão porque em 1974 o quiseram sanear, acrescentando que eu nunca lhe fui apresentado e que apenas falou comigo em 1994…

O descaramento deste fulano chega a pontos inimagináveis!

Como já afirmei, o MB subscreveu o abaixo-assinado que em 1973 se fez contra os dec.-lei 353/73 e 409/73. Penso não ter sido eu a recolher a sua assinatura directamente, mas lembro-me de o ter contactado na Academia Militar.

Quando em 1974 é saneado pelo Conselho da Arma de Infantaria (CAI), procura-me pessoalmente e protesta o facto, pois “era do MFA, assinara o abaixo-assinado…”.

Tive, então, oportunidade de o esclarecer: defendera-o no CAI, informando dessa sua atitude, nada pudera fazer contra a acusação que aí lhe fora feita e sobre a qual me não pudera pronunciar, pois não estava cá, nessa altura.

Acusação que consistira em, no desenrolar do 16 de Março de 1974, ele ter colaborado com a acção da GNR e da PIDE/DGS, no cerco que estas forças fizeram à Academia Militar, donde resultou a prisão do Almeida Bruno e de outros oficiais do Movimento.

Aconselhei-o, então, a procurar esclarecer os factos com os membros do CAI que o acusaram.

Vem agora negar tudo isto e afirmar da pouca credibilidade da acusação, apontando procedimentos que diz ter tido e que relata em pormenor.

Não contesto esses procedimentos – não presenciei, ainda que a sua pouca credibilidade pessoal… –, não o acuso, como nunca o acusei, de ter ajudado a GNR e a PIDE/DGS a cercar a Academia Militar!

Não aceito é que venha negar e ignorar a diligência que fez junto de mim e os esclarecimentos que então lhe forneci…

Atitude que já me não surpreende, pois como lhe disse um dia no intervalo de um seminário na Universidade Nova, é fácil escrever mentiras, quando se não tem à frente quem nos possa contestar. Mais difícil é manter essas mentiras, cara a cara, o que o levara a calar-se no debate havido, não intervindo sequer face às minhas afirmações sobre procedimentos, totalmente opostas às afirmações que vinha publicando nos seus livros. Recordo perfeitamente que nem sequer reagiu, quando o acusei pessoalmente de

cobardia, o que aliás é natural nele.

Quanto à acusação que agora faz de que ” o quiseram sanear, expulsando-o do Exército, sem qualquer vencimento”, estamos perante mais uma das deturpações caluniosas em que MB é useiro e vezeiro: como explico em “Do Interior da Revolução”, foi o facto de ainda não ter o tempo de serviço que o estatuto do oficial impunha para que se pudesse passar à reserva que fez com que ele e outros na mesma situação não passassem à reserva e ficassem na situação de “esperados”. Isto porque, contrariamente ao que afirma, houve a preocupação de não criar nenhuma situação em que os saneados ficassem sem vencimento. O que penso não ter acontecido em todos os Ramos das Forças Armadas…Desta situação resultaria que, com o evoluir dos acontecimentos e ao contrário do que se passou com os oficiais saneados que já tinham o tempo de serviço mínimo para passarem à reserva, os “esperados” nunca foram efectivamente saneados e fizeram a sua carreira normalmente, vendo a situação de saneamento anulada, efectiva e definitivamente, quando alguns anos depois foi aprovada legislação que anulava os saneamentos e as respectivas consequências.

A queda para deturpações do MB é de facto espantosa!…

Quanto ao Carlos Fabião, apesar de alguns erros cometidos, todos sabem que um só  dos seus dedos vale mais que todos os MB juntos…

4. Não tenho a intenção de voltar a perder tempo com MB, a não ser que a gravidade dos seus actos a isso me obrigue.

Quanto ao livro “Do Interior da Revolução” e aos factos que “eu invento”, continuo à espera que me apontem esses factos. Apenas o general Ricardo Durão apontou dois ou três, mas a esse já respondi, aconselhando-lhe um esforço de memória.

A análise de MB, se ainda fosse preciso, cai pela base quando afirma que eu “omito o importante contributo dado ao processo contestatário por oficiais que estavam nas comissões em África”.

Apesar de nessa entrevista a Manuela Cruzeiro dar essencialmente o meu testemunho sobre a minha experiência, a minha intervenção concreta, só uma mente retorcida e pré-formatada poderia fazer essa afirmação. Basta ler o livro, para ver o realce que eu dou a esse facto!

Vasco Correia Lourenço

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