Quantos 25 de Abril houve? (Vasco Lourenço escreve a Sousa e Castro sobre Manuel Bernardo)

continuação daqui

Carta do coronel Vasco Lourenço ao coronel Sousa e Castro sobre a carta aberta enviada pelo coronel Manuel Bernardo a Marcelo Rebelo de Sousa, que prefaciou o livro de Sousa e Castro

Caro Sousa e Castro,

O homem (com h bem pequenino) tinha de voltar a atacar. E, mais uma vez, me envolve nas suas diatribes, invenções, aldrabices e quejandos.

Faz-me rir (apesar do assunto ser sério) a nova calúnia que me dirige (desta vez, juntando-me a ti) quando afirma que “(…) pode ser imputada a estes dois militares a inveja de não terem conseguido atingir o almejado posto de general, apesar de o terem tentado mais do que uma vez, enquanto membros do Conselho da Revolução, ou quando este órgão político-militar foi extinto”.

Tu já lhe respondeste.

Por mim, lembro que estive graduado em oficial general (Novembro de 1975 a Agosto de 1976, brigadeiro; de Agosto de 1976 a Abril de 1978, general) durante dois anos e meio, desempenhando o cargo de comandante da RML e governador militar de Lisboa, em condições difíceis e com resultados que muito contribuíram para o orgulho pessoal que tenho do meu currículo. Acção essa a que, diga-se de passagem – como já te disse na crítica que fiz ao teu livro – prestas pouca atenção nesse mesmo livro. O que não invalida, como te referi, que, em termos globais, tenha gostado do mesmo. Lembro ainda que é por demais conhecido publicamente (tu estavas lá e participaste activamente nisso) que, quando terminou o Conselho da Revolução e me quiseram promover a brigadeiro, recusei liminarmente tal hipótese.

Como voltei a recusar, há pouco tempo, quando me sondaram para ser usado como “moeda de troca” na inqualificável promoção do Jaime Neves a general!

Acredita que vou fazendo esforços inauditos para não reagir “à bruta” às atitudes da criatura em causa.

Junto em anexo o texto que escrevi sobre esse “rapaz”, quando me mimoseou com as suas diatribes, aquando da publicação de “Do Interior da Revolução”. Aí poderás ver, se ainda não conhecias o texto, o que penso do mesmo.

Quanto à carta aberta que o homenzinho escreveu a Marcelo Rebelo de Sousa (ainda não percebi a tua escolha…) já lhe respondeste… e bem, ainda que em tom bastante moderado. Como usas bastante a ironia, corres o risco de, a começar por ele, haver quem não perceba. Muitas vezes, é necessário usar a velha máxima do “clarinho, clarinho, para militar perceber”…!

O facto de te estares quase a iniciar nestas contendas, ainda te dá paciência que, confesso, já me falta!

No texto em causa, continua a utilizar o seu método preferido: coloca na boca de outros aquilo que quer afirmar. Desta vez, serve-se do Manuel Monge, que nós conhecemos bem e que às vezes faz afirmações que só vistas…! Agora, foi sobre a descolonização. Aqui, por ele, insiste em vomitar e repetir slogans que, por acreditar que “uma mentira muito repetida se transforma em verdade”, não deixa de praticar.

E lá volta a envolver-me no ataque ao Carlos Fabião que, como homem e como militar, foi um gigante ao lado de pigmeus da laia do autor destes ataques.

Quanto ao Jaime Neves, junto também (convém lembrar e reunir dados) o artigo que sobre a sua recente promoção escrevi em O Referencial.

Talvez fosse bom contactar a Maria Tavares, actriz do grupo de “Os Malucos do Riso”, e tentar obter esclarecimentos sobre a noite de 24 para 25 de Abril de 1974. É que parece que ela estará em condições de fazer luz sobre a actuação dele nessa noite.

No que se refere ao cartaz do PPD no gabinete do comandante do Regimento de Comandos, posso confirmar que, após o 25 de Novembro, esse partido político fez um cartaz que foi distribuído profusamente nesse regimento, onde enaltecia a acção dos Comandos no 25 de Novembro.

Cartaz esse que me obrigou a ter uma firme atitude, proibindo os mesmos nas instalações da unidade e alertando para as novas tentativas de instrumentalização que se estavam a verificar dos partidos políticos para com os militares. Se se consultarem os documentos de então, pode ver-se a minha intervenção na unidade quando da visita que, como comandante da RML, aí realizei nessa altura.

Como não poderia deixar de ser, repete os argumentos que inventaram para a sua condecoração com a Torre Espada. Já desmontei isso no artigo de O Referencial, afirmo agora que não é o facto de o Presidente da República o ter condecorado que faz dele merecedor desse acto. Aliás, é por demais conhecida a forma como alguns “heróis” obtiveram as condecorações que ostentam… Nem o texto que justifica essa condecoração se torna “Lei”, só porque foi assinado pelo mesmo Presidente da República… Então, quando baseia essa condecoração na “(…) participação decisiva nas acções militares que conduziram à restauração da democracia em Portugal e à sua intransigente defesa, nomeadamente pela sua actuação no 16 de Março (?), 25 de Abril (?) e 25 de Novembro (…)” estamos conversados…!

No que se refere aos elogios do Presidente da República de então (lembro que era o general Costa Gomes), ainda há pouco revi a gravação dos mesmos, quando ele se dirigiu aos Comandos, na visita que fez à unidade em 29 de Novembro de 1975 e realçou o papel desempenhado pelos Comandos e pelos seus comandantes, nomeadamente Jaime Neves. Relembro: “Sob o ponto de vista estritamente militar tenho que vos declarar que todas as acções em que vos empenhastes foram executadas de uma forma superior e isso deve-se aos vossos comandantes, como também à vossa instrução, à vossa determinação e também à técnica que os Comandos adquiriam ao longo da sua vida!”

Para quem te acusa de omissões…

Como lhes faz jeito a foto do Eduardo Gageiro, onde se vê o Jaime Noves a regressar da conversa que teve com o Pato Anselmo! E tens razão: quem forçou a rendição deste foi o Cunha e Brito (primo do Edmundo Pedro) que deixara há pouco de ser capitão miliciano, por passagem à disponibilidade…

Quanto à tomada da DGS na António Maria Cardoso, confirmo que o Otelo afirma que “O Jaime Neves recusou essa missão, por a considerar demasiado perigosa”. Valha-nos, ao menos, que neste caso se recusou previamente a aceitar essa missão…!

Um pequeno comentário às afirmações reproduzidas, do Marcelo Rebelo de Sousa, sobre legitimidades revolucionárias e democráticas, só para realçar outra “omissão” do MB, neste caso, o facto de a legitimidade democrática ter decidido prolongar a legitimidade revolucionária, instituindo o período de transição, na própria Constituição da República aprovada em 2 de Abril de 1976.

Mas aqui, voltamos à velha “justificação” de que foram as condições existentes que os “obrigaram” a isso!

Como se isso não fosse “o pão-nosso de cada dia”…

Quanto às omissões que te apontam, acontece contigo o mesmo que comigo: não compreendem que não pretendemos fazer a história do 25 de Abril, mas tão-só contar a nossa experiência… Ainda que, como te referi na crítica ao teu livro, “há omissões e omissões”.

Mas as acusações que o “rapaz” te faz deram para descobrir que houve grandes actores no processo do 25 de Abril, como o Mariz Fernandes, o José Pais e o Lobato Faria… Vá lá, junta-lhe o Hugo dos Santos, o que deve constituir uma ofensa para este.

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