Vasco Lourenço – Do Interior da Revolução (A Kaulzada)*

A ideia era a eliminação física de Spínola e Costa Gomes?
É mais natural que fosse só eliminação política ou militar… Não sei exactamente. Nunca conseguimos definir isso porque, felizmente, as coisas não avançaram nesse sentido. Portanto, o Sousa e Castro vem em pânico e diz-nos: “Pronto, a situação é esta, pá. Tenho aqui o documento que o homem nos entregou para justificar o alto patriotismo do Kaúlza.”
O facto é que a situação era altamente perigosa. A nossa precária
organização, a grande indefinição ideológica, que ainda se verificava,
obrigavam a uma actuação rápida, sem recorrer a grandes reuniões…
Bem e o que é facto é que decidi não reunir a Direcção e actuar de
imediato. Combinei com os elementos que estavam nessa subcomissão
do estudo de situação, que eram capitães da minha inteira confiança,
fazer abortar o golpe. Rapidamente, contactei um capitão que estava no Estado-Maior General das Forças Armadas, a quem já tinha pedido, em tempos, para me preparar uma entrevista com o Costa Gomes…
Quem era esse oficial?
O capitão Machado de Oliveira. Pedi-lhe: “Arranja-me, com urgência,
para ontem, uma audiência com o general Costa Gomes.” Passado pouco tempo: “Pronto. Recebe-te amanhã.” Era numa sexta-feira, avancei para falar com o general Costa Gomes. Lembro-me de que levava uma pistolazita pequena, e quando cheguei pedi para ma guardarem, para não ir para o gabinete do Costa Gomes armado, e, então, tenho uma conversa com ele. Não o conhecia, ele também não me conhecia de lado nenhum. Disse-lhe ao que ia: “Estou aqui para lhe denunciar um golpe militar que está em marcha, um golpe de Estado dirigido por estes quatro generais. Portanto, a situação é esta: O senhor e o general Spínola são os dois inimigos principais a eliminar, não sabemos se fisicamente se não. E nós estamos em pânico porque não sabemos que fazer e estamos sem capacidade de nos opormos a isto, portanto, é preciso fazer abortar isto imediatamente.”
Eu confesso que a reacção do Costa Gomes foi uma enorme desilusão: “Ah, muito bem, com que então um golpe!” E eu: “Estou a pensar falar com o general Spínola também. Vim primeiro falar com o meu general, agora penso falar com o general Spínola.”
“Sim senhor. Acho muito bem que fale também com o general Spínola. Sim senhor. Muito obrigado pela vossa confiança. Muito obrigado por ter vindo contar-me isso. Sim, senhor. Eu vou ver. Muito obrigado.”
Estou ali dez minutos e saio absolutamente aparvalhado e a pensar: “Mas o que é isto? Venho eu ao chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, trago-lhe estes elementos, há um golpe de Estado que está em marcha, quatro generais metidos, ele é um dos alvos principais a eliminar e recebe-me como se estivesse a tomar um cafezito, uma bica!”
Então e foi logo falar com Spínola?
Primeiro, encontro-me com o Fabião. Ele estava, na altura, a tirar o curso do EPOSE, em Pedrouços, ali no Instituto de Altos Estudos Militares. Era, aliás, o chefe de curso. E combinámos, então, um encontro. Ele iria de comboio até à estação de Pedrouços e eu iria buscá-lo lá. Fomos para a zona em frente dos Jerónimos, saímos com receio que pudesse haver algum microfone dentro do meu próprio carro, e conto-lhe:
“A situação é esta. Extraordinariamente grave. Eu preciso de falar com o Spínola. Você ponha-me imediatamente em contacto com ele.” Bem, eu já lhe contei qual era a minha relação com o Spínola. Nunca mais tínhamos falado…O Fabião foi à cabine telefónica que havia ali próximo, telefonou para casa do Spínola, que mandou dizer pela mulher que sim, que falava com ele, para o esperar na Cova da Moura.
Nós arrancámos para a Cova da Moura e ficámos dentro do meu carro à espera, no largo, quase em frente do portão. Passado um bocado, chegou o Spínola, que assim que me viu, não esconde o espanto: “Você aqui?” e o Fabião diz: “Oh meu general, aqui o capitão Vasco Lourenço precisa de falar consigo sobre um assunto importante.” E eu: “Oh meu general, vamos esquecer o que se passou porque neste momento, há um assunto mais importante do que tudo o resto. Está em marcha um golpe, quatro generais [e refiro os nomes], o senhor e o general Costa Gomes são os dois inimigos principais a eliminar. O general Costa Gomes, pelo passado dele e por 61; o senhor porque foi contactado pelo general Kaúlza de Arriaga para entrar no golpe e recusou, respondendo a certa altura, que tivesse cuidado, porque o senhor, só à sua conta tinha a Calçada da Ajuda toda.”
E o Spínola reage e diz: “Ai ele disse isso? Tem piada, mas isso é verdade. Eu, de facto, disse-lhe isso. Tem piada.” “Como vê, não estamos a inventar nada, o senhor confirma a conversa, portanto, nós
estamos a contar-lhe aqui o que é que se passa. E é preciso intervir. É preciso actuar. Eu já estive, ontem, com o general Costa Gomes, e disse-lhe que vinha falar consigo, ele achou muito bem.”
“Ah, já falou com o Costa Gomes? Ah, está bem, muito bem, sim senhor. Sim senhor! Bom, como vocês sabem, eu fui nomeado vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Eu vou tomar posse em princípios de Janeiro, lá para dia 10 ou 12… Vocês estejam atentos que eu vou tomar uma posição firme no meu discurso.” Eu olhei para ele e digo: “O quê, meu general?
Desculpe. Daqui a um mês? Tomar posse…?” “Sim, sim. Estejam descansados.”
“Não. Mas oiça, o que eu lhe estou a denunciar é um golpe que está em marcha. Pode ser amanhã. Pode ser daqui a dois ou três dias. Está em marcha. Qual daqui a um mês! Qual ir tomar posse!” “Estejam atentos que eu vou tomar posse. Pronto. Obrigado, prazer em vê-lo.
Prazer em vê-lo, oh Fabião.”
Bem, e foi-se embora. O Fabião e eu ficámos com cara de parvos a olhar um para o outro: “O que é que se passa? Mas que é isto? Que raio de generais é que nós temos? O outro, ontem, recebeu-me com um cafezito, e tudo bem. Este, hoje, manda-nos esperar pelo discurso daqui a um mês!
Eh pá, como é que é? Isto é o fim! Nós temos que fazer qualquer coisa porque isto assim não pode ser!” E diz-me o Fabião: “Bem, eu tenho uma possibilidade… Acho que temos que ser nós a fazer isto. Vamos fazer o seguinte: eu segunda-feira em Pedrouços, encarrego-me de denunciar publicamente o golpe. É o local óptimo, mais do que indicado.”
E eu digo: “Óptimo! Força! Você denuncia isso em Pedrouços e eu vou pôr a ligação a funcionar, dentro do possível”. E diz-me o Fabião: “O irónico é que nunca ninguém se vai convencer de que eu não vou fazer a mando do ‘Velho’, e ele nunca mais na vida me vai perdoar esta”. E, de facto, toda a gente ficou convencida de que isso fora iniciativa do Spínola. Quando não foi absolutamente nada.
O episódio é conhecido. Mas não resisto a pedir-lhe a sua versão, dada a extraordinária memória que tem…
Então, na segunda-feira de manhã, como estava combinado, na primeira aula que, ainda por cima, era uma aula com todo o curso presente (acho que eram para cima de duzentos majores que estavam a tirar o curso EPOSE, um estágio para oficial superior), o Fabião, que era o chefe de curso, quando chega o primeiro professor:
“Dá licença? Eu tinha uma informação para prestar ao curso.” E o professor convence-se de que é uma informação escolar: “Sim, senhor. Faz favor.” O Fabião levanta-se e diz mais ou menos isto: “Camaradas, quero informar-vos que, neste momento, está em marcha um golpe de estado liderado pelos generais Kaúlza de Arriaga, Joaquim Luz Cunha, Silvino Silvério Marques e Henrique Troni. Os dois inimigos principais a eliminar são os generais Costa Gomes e Spínola.” Bem, uma bomba no meio da sala, não teria provocad
o maior efeito. Aquilo foi, como calcula, o fim. Uma confusão dos diabos. Interromperam-se as aulas. Interrompeu-se o curso. Mandaram-nos todos para casa. Pronto, o Fabião foi corrido, depois, para o Distrito de Recrutamento de Braga. O Kaúlza negou, participou, queria que o Fabião fosse punido, enfim…
Ao mesmo tempo eu, na Trafaria, no BRT, que era a minha unidade, na sala de oficiais a fazer as ligações com as unidades e a gritar-lhes ao telefone: “Está em marcha um golpe militar do Kaúlza. Se acontecer
qualquer coisa não temos nada que ver com isso. Isso não é nosso. Alerta a malta toda que não temos nada a ver com isso, antes pelo contrário.”
Como disse, o nosso receio era que o golpe fosse lançado e houvesse
unidades nossas que aderissem, convencidas de que o golpe era o nosso.

* PRÉ-PUBLICAÇÃO

Comments

  1. Luis Rocha says:

    Soube deste blogue, por um dos “Aventores” meu amigo de infância. Aventar é uma palavra de ontem, de hoje e de sempre, pelo seu significado alargado (Grande Dicionário da Lingua portuguesa – do professor José Pedro Machado). O nome “aventar” despertou a minha curiosidade e, quer acreditem ou não, é a primeira vez que entro num blogue. Dado estarmos no mês da “Revolução de Abril”, que tanta alegria e felecidade deu à maioria das pessoas da minha geração (tenho 62 anos) e próximos dos festejos do 1º de Maio em liberdade, dia em que eu e gulgo que todos os que estiveram nesse dia na Alameda D. Afonso Henriques, se sentiram parte da revolução se abraçaram como irmãos, sem preconceitos de classe ou ideologias politicas , riram e falaram (pela primeira vez) de coração aberto com quem conheciam e não conheciam, sentindo que aquela Revolução era de todos, desde logo chamou a minha atenção, neste blogue, a figura e o livro anunciado deste capitão de Abril.Um grande Bem-haja a ti Vasco e a todos os corajosos capitães de Abril que nos permitiram estar hoje a poder falar, escrever e cantar em liberdade. Para honrarmos o 25 de Abril de 1974, temos de prezar e defender sem medos a LIBERDADE que conquistámos.Vamos comemorar 35 anos de LIBERDADE, numa sociedade dividida em que os irmãos do 1º de Maio de 1974 se foram afastando uns dos outros, por ideologias politicas de luta pelo PODER, por interesses pessoais, acima dos interesses gerais de um povo que naquele 25 de Abril estava unido num único ideal (PORTUGAL e os PORTUGUESES).Temos de manter viva a Chama daquele dia “LIBERDADE”.PS: Por estarmos ainda em Abril e a seguir o 1º de Maio, deixo uma sugestão aos “AVENTORES” e aos visitadores do Blogue. E se cada um contasse a sua “estória” respondendo á pergunta tão conhecida: Onde estavas tu no 25 de Abril de 1974 ? Como reagiste ? O que sentiste ? Como reagisteTambém sugiro, no espírito do nome “AVENTAR” que

  2. Luis Rocha says:

    Onde estavas tu no 25 de Abril de 1974 ? O que sentiste ? Como reagiste ? o que fizeste ? e tudo o que mais aprouver a cada um.Também sugiro, no espírito do nome “AVENTAR” que se abra um novo TEMA : Estórias e aventuras vividas

  3. Ricardo Santos Pinto says:

    Bem-vindo, Luís Rocha. Volte sempre.Se me permite, vá ao Arquivo do blogue durante o mês de Abril. Tivemos todos os dias um ou mais posts sobre o 25 de Abril.No Sábado, vamos ter muitos mais. Certamente que as suas perguntas serão respondidas. Quanto a mim, sinceramente não sei – tinha apenas 3 anos feitos recentemente! Mas os meus pais não eram lá muito dados a essas coisas da política. Cumprimentos.

  4. Luis Moreira says:

    Luis , o aventar quer ser uma fonte de informação sobre o MFA e sobre a Revolução dos Cravos. A nossa geração que sofreu na carne o fascismo e uma guerra injusta tem que deixar para as gerações seguintes o seu testemunho.Gritar alto que a liberdade tem que se conquistar todos os dias.Quem a recebeu de mão beijada (e ainda bem) não pode olvidar que este país esteve sob uma ditadura durante 40 anos.E que foram os Capitães de Abril ( que na altura tinham 32/33 anos ) que correram todos os riscos para Portugal ser hoje um país livre! Viva O MFA!Viva, para sempre, o 25 de Abril! Como nós próprios gritamos naquela dia em pleno Largo do Carmo!Um dia que valeu uma vida!

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