Excelentíssimos professores doutores

Lembram-se de “Annie Hall”? Da cena da fila no cinema? Um tipo está a debitar uma série de opiniões despectivas sobre Fellini, Beckett, Marshall Mcluhan, etc, para grande desespero do Woody Allen, que se indigna com o que vai ouvindo.

Quando já não aguenta mais, Woody interpela-nos, a nós, espectadores, sobre o que fazer numa situação destas. O tipo ouve-o, vem pedir-lhe explicações, e acaba a gabar-se de leccionar a cadeira de “TV, Media e Cultura” na Universidade de Columbia para justificar as suas opiniões sobre McLuhan.

Perante isto, Woody vai buscar o próprio McLuhan, que, pasme-se, estava ali mesmo, para que ele diga, na cara do opinador, que ele não entendeu nada sobre o seu pensamento e que não percebe como é possível que tal pessoa possa leccionar essa matéria. Desabafa Woody para a câmara: “Se a vida real fosse assim…”. Vale a pena rever esse excerto, embora infelizmente sem legendagem em português:

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O acordo pode ser mais ou menos?

Esta questão coloca-se muitas vezes na nossa vida corrente. Mantenho a minha vida confortável, o cantinho, os livros, os filmes, as viagens, enfim, o que conheço, ou largo tudo e vou atrás de uma paixão ?

No acordo, deixo-me estar a fazer o que conheço, mal ou bem, assim-assim, escrevo como sempre escrevi ou largo essa segurança e lanço-me na aventura de conhecer, analisar, escolher, descobrir?

Peço desculpa por não estar no tom solene que o assunto exige, mas a verdade é que cá para mim, este acordo serve, mais ou menos, para pôr algum padrão, alguma ordem, nas muitas e diversas formas que a vida, a real das pessoas, foi introduzindo na escrita e na fala e que vai continuar a pôr, quer os senhores doutores queiram ou não.

Mas se há palavras que apetece mesmo mudar, torná-las mais simples, há outras que não dá jeito nenhum andar a mudá-las. Por exemplo, Baptista! Dá mesmo vontade fazer desaparecer de vez com o “p” e tornar a coisa num Batista, bem mais legível. Mas, ao contrário, o que se fará com “facto” ? Passa a “fato” ? Eu apontei esse “fato” como importante para a discussão ! Qual, o azul?

Pelas razões apontadas ando muito desorientado e ansioso à espera dos conselhos ( o concelho também muda? estão a ver a confusão) dos “experts” (pecado! ) “connaisseurs ” (pior), académicos para me dizerem o que o povo deverá falar e escrever.

E voltando à imagem inicial, não é possível manter os cantinhos todos e arranjar uma namorada ?

Isto é, um acordo mais ou menos?