O céu sobre nós

Pode dar-se o caso de levantarem os olhos da estrada e descobrirem a figura de cartão no topo de um edifício, como me aconteceu a mim. Era a silhueta de um dos anjos de Wim Wenders, quase de certeza o Damiel, e suponho que deveria ser o anúncio de um ciclo de cinema. No cimo do edifício, olhando cá para baixo, as costas ligeiramente curvadas, os braços caídos ao longo do corpo, as assombrosas asas atrás de si, como se não lhe pertencessem, como podem elas pertencer a um homem de gabardina? Um homem curvado sobre os monólogos de quem está preso à terra e dela não pode desprender-se. Curvado sobre a dor do mundo e as suas finitas, previsíveis variantes.

Ainda bem que o vi de longe, de fugida, e que assim não pude deter-me nas imperfeições de um cartaz que o vento destroça, que a chuva deforma. Apenas vi uma silhueta, tão improvável que tomou a força de um anjo calado e impotente, ele que jamais poderá resolver um problema terreno. Poderá escutar os monólogos de cada um de nós, o sofrimento calado que vamos desembrulhando, dissecando, carregando connosco como pele, como carne, como memória que não se apaga. Ainda bem que o vi assim, de fugida, com o sol a fazer-me semicerrar os olhos, com a necessidade de não deixar de atentar na estrada, porque assim ele foi uma aparição inútil e transformadora, como todas as aparições. [Read more…]

Anjos do norte

Nunca se sabe que aspecto esperar de um enviado dos deuses. Alguns contam com uma criatura seráfica, de sorriso bondoso e olhar brilhante, levemente humedecido. Outros imaginarão um neo-hippie, cabeludo e de casaco de malha. E outros haverá ainda que pensarão num guru bem-falante, todo janota, com ar de sonso e conversa de charlatão, uma versão doméstica do senhor Paulo Coelho.

Mas eu sou tripeira, estou habituada a gente de fala grossa, e sei que os enviados dos deuses nem sempre são o que deles se espera. Vem isto a propósito de uma conversa próxima do delírio que tive há dias com um amigo, e na qual eu lhe dizia, admito que apenas pelo prazer indecente de provocá-lo, que imaginava que, a haver anjos da guarda, o meu seria um cromo portuense, com pronúncia do norte, que resmungaria de cada pedido que eu lhe fizesse, mas não deixaria de atender-me com aquela generosidade rezingona das gentes de cá de cima. Ele riu, mas não ficou convencido. O que ele não sabe é que eu tenho provas do que estou a dizer.

Há uns anos, estava eu a caminho do trabalho, atrasada como sempre, subia uma rua no centro do Porto a passo de corrida, quando me deparei com uma rapariga vagarosa, que caminhava à minha frente com uma lentidão exasperante. Como o passeio era estreito, olhei para trás, para a faixa de rodagem, para ver se podia descer e assim ultrapassá-la. Passava um carro, esperei um instante, desci, apressei o passo, retomei o passeio, deixando-a para trás. E então, a uns escassos dois ou três metros à minha frente, caiu um pedregulho enorme, ainda com dois pedaços de telha agarrados, vindo do cimo de um edifício decrépito. Fez-se um silêncio aterrador à nossa volta quando a pedra se estatelou no chão e se fragmentou em inúmeros pedaços pontiagudos. Atrás de mim, ouviu-se o vozeirão da rapariga indolente: “Foooodaaa-sse…”

Assim, mesmo, com uma cadência sonolenta, porque nela até um susto se processava ao retardador. Não sei se ela se deu conta, mas salvou-me a vida. Não estivesse ela a enlentecer-me o passo e eu não estaria aqui a contar a história. Poderia ela ter aproveitado a solenidade do momento e proferido um já batido “hoje é o primeiro dia do resto da tua vida” ou um cristianorro “foi-te dada uma nova oportunidade, aproveita-a, minha filha” ou um literário “Carpe Diem”.

Mas não, o meu anjo pessoal, nortenho, bonacheirão, abençoou-me com a sua particular graça e continuou a subir a rua com aquele passo pesado, as ancas largas e o linguajar apimentado.