A ignorância é a mãe de todos os males

Rosali Henriques

Estou à espera da consulta da médica ginecologista no centro de saúde.
Várias brasileiras aguardando consulta na sala de espera, algumas grávidas.
Começam a falar sobre política brasileira. O marido de uma delas começam a falar bem do Bolsonaro. Não pude me conter e começa uma discussão. Eu digo que o Bolsonaro é fascista e vai ser como o Salazar.
O brasileiro diz que mora aqui há 30 anos e nem sabe quem foi Salazar, mas diz que o filho do Lula tem fazendas e jatinhos. Olha o naipe da gente que vota nele aqui.

Solução BES: a Nova Direita e a Direita Má

Pedro Mota Soares já foi Ministro da Solidariedade Social. Peço o favor de não se rirem, porque é verdade. Esse extraordinário currículo transformou-o em professor da chamada Escola de Quadros do CDS.

Em dada altura, enquanto ministro da Solidariedade Social (vamos tirar esse sorrisinho da cara, já!), chegou a criticar o facto de que havia gente a ganhar fortunas à custa do Rendimento Social de Inserção, como todos os bons direitolas do mundo inteiro que se dedicam a chamar parasitas aos que recebem alguma ajuda do Estado, essa entidade que só deve existir para entregar dinheiro aos grandes empresários, que é para isso que servem adjudicações e simulacros de concertação social e outros fingimentos.

Por outro lado, há tanta gente tão pouco recomendável na direita mundial que até Mota Soares se sente na obrigação de fazer de conta que não quer a mesma sociedade que é defendida por Bolsonaro. O centrista chega mesmo a distanciar-se de Le Pen, que, por sua vez, anda assustada com os exageros do mesmo Bolsonaro. Pelo meio, Mota Soares até recicla um discurso que está muito em voga, dizendo que a culpa de todos os disparates da extrema-direita é da esquerda e que, no fundo, a extrema-esquerda é igualzinha à extrema-direita, unidas pelo populismo e que, se formos ver bem, uma pessoa, estando ali na extrema-esquerda, basta contornar o quiosque e já está na extrema-direita, porque é tudo malta que frequenta o mesmo café, ao contrário de Mota Soares, cliente habitual de um outro snack-bar que, por acaso, até serve uns preguinhos muito bons.

No fundo, Mota Soares quer para a direita uma solução como a do BES: de um lado, está ele, da Direita Boa, a Nova Direita (a da “tradição humanista”, disse Henrique Burnay, humorista involuntário); do outro, está a Direita Má. Entretanto, o Novo Banco, a parte boa do BES, parece que precisa de mais dinheiro, o que nos leva a pensar que, se calhar, não há grande diferença entre o banco bom e o banco mau, mas isto pode ser o meu populismo a falar.

As palas

Para um conjunto de pessoas, a ascensão do facho que faz a preferência dos brasileiros deve-se a Lula e ao PT. João Miguel Tavares faz parte da trupe, afirmando que “Bolsonaro é uma erva daninha que foi diariamente regada por um PT profundamente corrupto, que os brasileiros (à excepção dos nordestinos) querem hoje ver para trás das costas.”

Para esta gente, o golpe de Estado que depôs Dilma, para colocar no seu lugar um corrupto de todo o tamanho não é chamado para estas contas. A ausência de um partido credível que possa servir de alternância não interessa.

A conclusão do ilustre cronista é que a corrupção é de esquerda, assim podemos inferir.

Bolsonaro é uma erva daninha que foi diariamente regada por um PT profundamente corrupto, que os brasileiros (à excepção dos nordestinos) querem hoje ver para trás das costas. A esquerda brasileira demorou muito tempo a perceber isso. A portuguesa ainda não percebeu. A corrupção mata os regimes democráticos. Está a acontecer no Brasil. Era bom que não viesse a acontecer em Portugal. [JMT]

Sai um par de orelhas ali para o canto, s.f.f.

Fazer mossa sem aleijar

Por enquanto, rimo-nos dos outros. Um dia estaremos nós no vídeo. Entretanto, rir vai fazendo mossa no facho, sem o aleijar, no entanto.

Bolsonaro bolça

O extraordinário conselheiro Acácio, uma vacuidade do tamanho de Cavaco Silva, nunca empregava palavras vulgares, o que o levava a substituir “vomitar” por “restituir”.

Nós, nos dias que correm disfémicos, usamos palavras ainda piores que “vomitar”, que o léxico está cheio de brutalidades e o humor não pode ser apenas inteligente e refinado.

Todas as palavras e expressões que se referem a funções excretórias mais ou menos voluntárias têm servido de metáfora para designar actos ou palavras dignos de compaixão ou de repulsa moral. Lembre-se, por exemplo, uma frase como “Já fiz merda!”, que não se refere ao acto de defecar.

Nos últimos dias, a propósito de afirmações de Jair Bolsonaro, muitas delas infelizes, para usar um larguíssimo eufemismo, as redes sociais têm recorrido à metáfora “bolçar”, a propósito do conteúdo do discurso. Demasiadas vezes, a ortografia tem fugido para um “bolsar” homófono mas errado, como poderão confirmar os que seguirem as ligações.

É certo que Bolsonaro só diz merda, vomita pus, mas não é caso para esconder o cê e a cedilha, sem a qual o caçador não poderia ir à caça, antes indo à procura daquilo que sai da boca do, pelos vistos, futuro Presidente do Brasil.

Fazer regressar a poesia ao Brasil

Rui Correia

Escutava com muita atenção hoje na tsf um homem a perorar contra a esquerda do Brasil. Dizia que foi a esquerda quem levou o país à ruína. Falou de corrupção.

Não foi, não.

O que fez e faz com que tantos países adiram agora aos extremismos ultranacionalistas de direita (SVP na Suiça, o PPD dinamarquês, o Finns da Finlândia, Norbert Hofer na Áustria, Geert Wilders na Holanda, Le Pen, Mateusz Morawiecki na Polónia, Orban na Hungria, Trump, Bolsonaro…) não é, nunca foi, a corrupção.

Foi algo muito mais potente do que a corrupção.

O que põe o Brasil nas mãos de um alucinado é a aflição de não haver esperança num futuro melhor. A poesia como espécie em extinção.

Sempre existiu uma forma simples de esmagar o ultranacionalismo como impostura vigarista e barata que sempre foi e é.

A solução esteve sempre em saber escutar com atenção aqueles que agora chamamos “descontentes”, eufemismo horrível.

A única forma de parar com os “descontentes”, é perceber o que põe “descontentes” os “descontentes”. E o que os põe “descontentes” é – será sempre – o mesmo de sempre. [Read more…]

Preocupações com a estrema-direita

Le Pen, Áustria, Bolsonaro, só para enumerar três. Muitas preocupações, justas, com que se tem passado e com o que pode vir a acontecer. Mas observo amiúde que há muitos olhos que se fecham perante o que se passa na América. A extrema-direita está no poder numa das nações mais importantes do mundo. Trump é o fascista, ou lá o que lhe queiram chamar, que chegou ao poder. Fica a lembrança, para que não se vista a cara de estadista preocupado num lado e se faça de conta que nada se passa no outro.