Brasil e a globalização

Artigo: O Brasil finalmente adere à Globalização

05/11/09, 10:06

OJE/Lusa

 

 Mas que grande notícia! Então o Brasil diz que quer aderir à Globalização, ou seja, a um comportamento cujo “crepúsculo dos deuses” já começou há muito e que se materializou na grande crise económica em curso? Quer, nesta fase, ainda aderir ao jogo de soma nula de uma Pax Americana e seus parceiros de liderança – nós – que tendo caminhado por caminhos errôneos nos levou ao atoleiro? Então no Brasil ainda não se descobriu que essa Globalização não constitui um desígnio nobre da humanidade mas sim uma intenção egocêntrica de saque aos eco e sócio sistemas?

 

 

Para dizer a verdade, estando tudo no mundo entrelaçado, os estados BRIC, entre eles o Brasil, já se encontram envolvidos até o pescoço na Globalização. Com efeito, foram em grande parte eles que permitiram que no contexto dessa Globalização executada de sinal errado os países do dito primeiro mundo pudessem exceder os seus limítes da sua própria “pegada ecológica”. Foi basicamente daí que veio essa ascensão económica dos estados BRIC. E eles, em troca pelos seus préstimos, receberam gigantescas importâncias em dólares falando-se, no caso da China, de uma reserva de divisas de $ 2 milhões de milhões. Repare-se que se trata de promessas de pagamento de um subsistema outrora líder incontestado do mundo e cuja moeda hoje corre perigo de virar “dinheiro macaco”. Basta que só a China coloque apenas uma parte dessas divisas à venda nos mercados mundiais e já está.

 

Esperemos para o bem de todos nós que a Pax Americana em breve volte a caír em pé ganhando, assim, um novo e são folego. Costuma-se dizer nestes casos aparentemente perdidos que “isto já foi chão que deu uvas” mas com a estratégia certa – objectivo: maximização de benefícios em vez de maximização de lucros – é perfeitamente possível que um chão esgotado volte a dar uvas.

 

Escrevi sobre isto no meu artigo anexo que foi publicado no jornal VidaEconomica de 23.11.2007.

 

Voltando ao Brasil: é sabido que tanto na fase crescente e de auge da construção de sóciosistemas pujantes e sãos – sistemas abertos! – como no seu declínio/saque – sistema fechado – se pode ganhar fortunas colossais. Alimentando as primeiras uma espiral de desenvolvimento positiva que não conhece limítes, as segundas alimentam a espiral negativa de um aparente sucesso que não deixando de ser passageiro reserva no fim a queda.

 

Sendo amigo do Brasil, espero que este grande país saiba distinguir as situações e encontre uma maneira para proteger-se contra o turbilhão final que vai engolir tudo. O Brasil tem pontos fortes únicos e inconfundíveis que terá que identificar* para explorá-los seguidamente em prol de algum grupo-alvo privilegiado onde podendo dar cartas deixa de precisar participar no saque aos ecosistemas. Só assim terá um sucesso sustentável a médio e longo prazo sem graves reveses.

 

Quanto mais Globalização, melhor – mas uma Globalização sob outros sinais e virada para fora e não para dentro!

 

RD

Rolf Dahmer

* Tem uma boa base, p.ex., Embraer, etc.

O samba do vestido cor-de-rosa

Era inevitável. O processo Geyse Arruda vai acabar nos tribunais. Este é um daqueles casos estranhos, sobretudo por chegar de onde chega. Se viesse de um qualquer estado com tendências repressivas, como o Irão ou a Síria, talvez não fosse estranho. Seria sempre repugnante mas, enfim, seria mais um entre outros de um moralismo falso e pensamentos retrogados. Mas veio do Brasil, a pátria do Carnaval e de Jorge Amado.

 

O caso tem alguns dias e muitos detalhes e desenvolvimentos mas o essencial da história conta-se em poucas linhas. Geyse Arruda anda na vintena de anos e é uma mulher vistosa. Estuda na Uniban (Universidade Bandeirantes), uma universidade privada, que diz querer “ser uma instituição de referência na Educação Superior no que diz respeito à qualidade de ensino e do corpo docente, à pesquisa e ao compromisso social”.

 

Num dia do mês passado, com a Primavera em alta, Geyse Arruda, estudante de turismo, foi para a universidade (reforço universidade para não ficarem com a ideia de ser uma escola pré-primária) com um vestido curto, cor-de-rosa. Nada de mais, um vestido que acabava um pouco acima do joelho. Foi o suficiente para começar a polémica.

 

Um grupo de energumenos, por certo aprendizes de talibã na Uniban, consideraram o vestido um afronta e uma provocação. Geyse foi insultada. Chamaram-na de “puta” e muito mais. Uma lapidação verbal que faria corar de vergonha os mais intrépidos e agressivos apdrejadores de outros tempos.

 


 

O inacreditável tumulto provocado pela mini-saia levou mesmo à interrupção das aulas e à intervenção da polícia militar. O caso, graças às imagens filmadas por telemóvel e postadas na internet, provocaram reacções. Em todo o lado. Até mesmo no gabinete do reitor. Foi aberto um inquérito e no final, zás, corta-se o mal pela raíz expulsando a aluna. Em comunicado, os responsáveis da coisa dizem que houve "flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade" por parte da aluna. Mas quanto às bestas lapidadoras, nada.

 

As notícias na televisão e nos jornais aumentaram, os blogues foram inundados de posts sobre o assunto e até no estrangeiro houve repercussão do caso. Há quem a defenda e quem a acuse, por alegadamente ter “provocado”. Como se sabe, vestir uma mini-saia é um crime tremendo no Brasil.

 

Os protestos foram crescendo e a reitoria teve de enfiar o rabo entre as pernas e readmitir a aluna. Geyse quer mais e processou a universidade. Quer uma reparação pela humilhação e a retirada dos vídeos da internet.

 

Tudo isto, recordo, passa-se no Brasil. A pátria do Carnaval, do Samba, das novelas, de uma banda chamada ‘Calcinha Preta’, de Jorge Amado, de Tieta do Nordeste e de muito mais. Até posso estar enganado mas no próximo Carnaval haverá um samba sobre o “vestido cor-de-rosa”.

A propósito dos temas de hoje: Brasil e animais (sendo que nesta história só há animais de plástico)

Acho que foi em 2003 ou 2004 que fui para S. Paulo colaborar num projecto social, dinamizado por voluntários humanistas. O projecto estava em curso, não era a primeira viagem que se fazia e eu fui encontrar uma equipa de jovens promotores brasileiros que tinha já actividades em marcha na cidade. Pouco antes da minha partida, tinha-se juntado à equipa paulistana (“paulista” usa-se, aprendi na altura, para os que são do estado de S. Paulo) um jovem filho de imigrantes japoneses com muita experiência de colaboração com organizações não governamentais (que os brasileiros pronunciam “ongue”). Aliás, fazia disso profissão, a prestação de serviços às ONG. De certa forma, ele tinha-se colocado como orientador desse grupo de voluntários uma vez que era o mais experiente. Como as reuniões de trabalho eram animadas, toda a gente queria falar e opinar e sugerir, e nem sempre se conseguia gerir os tempos de maneira a que todos pudessem intervir, este nosso amigo decidira aplicar uma ideia que ele usava nas suas ongues. Certo dia levara para a reunião um porquinho mealheiro, que tinha sido um brinde publicitário de um banco que todos os brasileiros conhecem, e fizera-o circular pela sala.

Durante um período de tempo controlado pelo moderador (adivinhem quem), cada um ficaria com o porquinho nas mãos e apenas o guardião do porquinho poderia falar. Quem não tivesse o porquinho tinha de estar calado e esperar que o animal lhe chegasse. Claro que esta ideia, aceite no plano teórico, logo começou a revelar-se difícil de implementar. Quem não tinha o porco falava na mesma e, quando advertida, pedia o porco só por um instante para não cortar o raciocínio. Quem tinha o porco e era interrompido insurgia-se contra o desrespeito das regras e levantava o porco no ar para mostrar quem era o dono da palavra. No meio de tudo isto, o moderador passava um mau bocado até conseguir tirar o porco das mãos de quem não o queria soltar e pôr um pouco de ordem na casa. O porco também devia passar um mau bocado, disputado por todos, agarrado com demasiado ímpeto e soltado a custo. Talvez tenha sido uma imposição neo-colonialista mas lá conseguimos convencê-los a abdicar do porco nas reuniões e acabamos por trazê-lo connosco de volta para Portugal. Não sei qual o paradeiro do bicho mas creio que estará esquecido na gaveta de alguém. Essa viagem a S. Paulo e a que se lhe seguiu tiveram todos os lugares-comuns das viagens dos portugueses ao Brasil. Simpatia desarmante dos brasileiros, padarias de portugueses que nos perguntam se conhecemos o seu irmão que vive em Chaves, algumas quezílias a propósito do papel dos tugas nos problemas actuais do Brasil, feijão preto delicioso e péssimo café açucarado, chuva tropical, favelas encostadas aos arranha-céus em cujos topos pousam os helicópteros que transportam os ricaços da cidade. E no que a mim me respeita, o fascínio provinciano com aquela avenida paulista transbordante de uma energia que o velho mundo já não tem. O nosso amigo que tivera a ideia do porquinho não ficou muito mais tempo por ali, e suspeito que a retirada do porco deve ter tido a sua influência nesse afastamento. Depois de muito procurar, lá acabei por descobrir uma foto do bicho. Apresento-vos o porquinho da discórdia: