A propósito dos temas de hoje: Brasil e animais (sendo que nesta história só há animais de plástico)

Acho que foi em 2003 ou 2004 que fui para S. Paulo colaborar num projecto social, dinamizado por voluntários humanistas. O projecto estava em curso, não era a primeira viagem que se fazia e eu fui encontrar uma equipa de jovens promotores brasileiros que tinha já actividades em marcha na cidade. Pouco antes da minha partida, tinha-se juntado à equipa paulistana (“paulista” usa-se, aprendi na altura, para os que são do estado de S. Paulo) um jovem filho de imigrantes japoneses com muita experiência de colaboração com organizações não governamentais (que os brasileiros pronunciam “ongue”). Aliás, fazia disso profissão, a prestação de serviços às ONG. De certa forma, ele tinha-se colocado como orientador desse grupo de voluntários uma vez que era o mais experiente. Como as reuniões de trabalho eram animadas, toda a gente queria falar e opinar e sugerir, e nem sempre se conseguia gerir os tempos de maneira a que todos pudessem intervir, este nosso amigo decidira aplicar uma ideia que ele usava nas suas ongues. Certo dia levara para a reunião um porquinho mealheiro, que tinha sido um brinde publicitário de um banco que todos os brasileiros conhecem, e fizera-o circular pela sala.

Durante um período de tempo controlado pelo moderador (adivinhem quem), cada um ficaria com o porquinho nas mãos e apenas o guardião do porquinho poderia falar. Quem não tivesse o porquinho tinha de estar calado e esperar que o animal lhe chegasse. Claro que esta ideia, aceite no plano teórico, logo começou a revelar-se difícil de implementar. Quem não tinha o porco falava na mesma e, quando advertida, pedia o porco só por um instante para não cortar o raciocínio. Quem tinha o porco e era interrompido insurgia-se contra o desrespeito das regras e levantava o porco no ar para mostrar quem era o dono da palavra. No meio de tudo isto, o moderador passava um mau bocado até conseguir tirar o porco das mãos de quem não o queria soltar e pôr um pouco de ordem na casa. O porco também devia passar um mau bocado, disputado por todos, agarrado com demasiado ímpeto e soltado a custo. Talvez tenha sido uma imposição neo-colonialista mas lá conseguimos convencê-los a abdicar do porco nas reuniões e acabamos por trazê-lo connosco de volta para Portugal. Não sei qual o paradeiro do bicho mas creio que estará esquecido na gaveta de alguém. Essa viagem a S. Paulo e a que se lhe seguiu tiveram todos os lugares-comuns das viagens dos portugueses ao Brasil. Simpatia desarmante dos brasileiros, padarias de portugueses que nos perguntam se conhecemos o seu irmão que vive em Chaves, algumas quezílias a propósito do papel dos tugas nos problemas actuais do Brasil, feijão preto delicioso e péssimo café açucarado, chuva tropical, favelas encostadas aos arranha-céus em cujos topos pousam os helicópteros que transportam os ricaços da cidade. E no que a mim me respeita, o fascínio provinciano com aquela avenida paulista transbordante de uma energia que o velho mundo já não tem. O nosso amigo que tivera a ideia do porquinho não ficou muito mais tempo por ali, e suspeito que a retirada do porco deve ter tido a sua influência nesse afastamento. Depois de muito procurar, lá acabei por descobrir uma foto do bicho. Apresento-vos o porquinho da discórdia:

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