O samba do vestido cor-de-rosa

Era inevitável. O processo Geyse Arruda vai acabar nos tribunais. Este é um daqueles casos estranhos, sobretudo por chegar de onde chega. Se viesse de um qualquer estado com tendências repressivas, como o Irão ou a Síria, talvez não fosse estranho. Seria sempre repugnante mas, enfim, seria mais um entre outros de um moralismo falso e pensamentos retrogados. Mas veio do Brasil, a pátria do Carnaval e de Jorge Amado.

 

O caso tem alguns dias e muitos detalhes e desenvolvimentos mas o essencial da história conta-se em poucas linhas. Geyse Arruda anda na vintena de anos e é uma mulher vistosa. Estuda na Uniban (Universidade Bandeirantes), uma universidade privada, que diz querer “ser uma instituição de referência na Educação Superior no que diz respeito à qualidade de ensino e do corpo docente, à pesquisa e ao compromisso social”.

 

Num dia do mês passado, com a Primavera em alta, Geyse Arruda, estudante de turismo, foi para a universidade (reforço universidade para não ficarem com a ideia de ser uma escola pré-primária) com um vestido curto, cor-de-rosa. Nada de mais, um vestido que acabava um pouco acima do joelho. Foi o suficiente para começar a polémica.

 

Um grupo de energumenos, por certo aprendizes de talibã na Uniban, consideraram o vestido um afronta e uma provocação. Geyse foi insultada. Chamaram-na de “puta” e muito mais. Uma lapidação verbal que faria corar de vergonha os mais intrépidos e agressivos apdrejadores de outros tempos.

 


 

O inacreditável tumulto provocado pela mini-saia levou mesmo à interrupção das aulas e à intervenção da polícia militar. O caso, graças às imagens filmadas por telemóvel e postadas na internet, provocaram reacções. Em todo o lado. Até mesmo no gabinete do reitor. Foi aberto um inquérito e no final, zás, corta-se o mal pela raíz expulsando a aluna. Em comunicado, os responsáveis da coisa dizem que houve "flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade" por parte da aluna. Mas quanto às bestas lapidadoras, nada.

 

As notícias na televisão e nos jornais aumentaram, os blogues foram inundados de posts sobre o assunto e até no estrangeiro houve repercussão do caso. Há quem a defenda e quem a acuse, por alegadamente ter “provocado”. Como se sabe, vestir uma mini-saia é um crime tremendo no Brasil.

 

Os protestos foram crescendo e a reitoria teve de enfiar o rabo entre as pernas e readmitir a aluna. Geyse quer mais e processou a universidade. Quer uma reparação pela humilhação e a retirada dos vídeos da internet.

 

Tudo isto, recordo, passa-se no Brasil. A pátria do Carnaval, do Samba, das novelas, de uma banda chamada ‘Calcinha Preta’, de Jorge Amado, de Tieta do Nordeste e de muito mais. Até posso estar enganado mas no próximo Carnaval haverá um samba sobre o “vestido cor-de-rosa”.

A máquina do tempo: ainda as origens do fado

 

 

Nesta bela gravura de Rugendas (1802-1858), o pintor alemão que durante três anos viajou pelo Brasil, recolhendo preciosos testemunhos dos costumes populares,  vemos escravos dançando o lundum. Há cerca de duas semanas atrás, publiquei aqui um texto sobre o fenómeno da canção urbana, falando das similitudes entre o fado e o tango. Quando recordava o pouco que se sabe sobre as obscuras origens da chamada «canção nacional», aventei entre as hipóteses que os especialistas têm vindo a explorar, aquela que é a mais comummente aceite – a de que o fado nos chegou nos barcos de torna-viagem que trouxeram de regresso a corte de D. João VI que, durante as invasões francesas, esteve refugiada no Rio de Janeiro, para ali tendo transferido a capital do reino.

 

Segundo essa teoria, o fado teria sido criado a partir de uma dança muito popular no Brasil (no início do século XIX), dança em que se misturavam elementos de danças populares portuguesas e de outras trazidas de Angola pelos escravos. Era um bailado que podia ser acompanhado de canto e a que as gentes chamavam «fado». Já em Portugal, este fado brasileiro e o lundum, foram-se mutuamente influenciando até se fundirem, dando lugar àquilo que veio a ser a canção nacional.

Foi um fenómeno explosivo, rápido que, como um incêndio de Verão, viajou da corte aos bairros populares e a partir destes se espalhou por todo o País. Hoje, o fado já não é lisboeta, canta-se, e muito bem, no Porto (de onde têm vindo excelentes intérpretes, como a magnífica Maria da Fé), no Ribatejo, onde adquiriu ritmo e sonoridade própria. Terá desencadeado o fenómeno do fado coimbrão, mais ligado à música beirã. É a canção nacional. Chama-se fado, fatum, destino… Começou nos saraus do Palácio de Queluz, viajou para as alfurjas, lupanares e tabernas da Mouraria, e agora com uma nova estirpe de cantores e cantoras aristocratas parece querer voltar aos salões.

 

O curioso é que já no princípio do século XX, antes de ter completado cem anos, já o fado era considerado uma canção tradicional. A estúpida «tradição» dos touros de morte em Barrancos tem cerca de oitenta anos e essa barbaridade é defendida nessa base – é uma herança cultural do povo barranquenho. Estranho país o nosso, fundado há quase nove séculos e onde as falsas tradições pegam de estaca em duas ou três gerações.

 

Mas, enfim, voltemos às origens do fado. Estava a falar do lundum, ou lundu. Há quem defenda que a sua proveniência é da África Ocidental e que teria chegado a Portugal, vindo de Cabo Verde, com as primeiras levas de escravos, ainda no século XV. Há a tal tese, mais difundida, da proveniência angolana. Indiscutível é a mistura de ritmos e cadências africanas e europeias, integrando os ritmos ibéricos, jotas, fandangos, e corridinhos, com o estalar de dedos a marcar compassos.

 

Pergunto se mornas, coladeras, fado, samba, lundum, maxixe, não terão origens comuns. De notar que, nesta matéria, só faço perguntas. Mensagens que meto em garrafas e atiro ao oceano da blogosfera – quem sabe se um especialista, um dia, não dará resposta a estas questões? Desde que, há uns anos atrás, no «Ponto por Ponto», me convidaram para falar sobre o D. Afonso Henriques e depois me fizeram perguntas sobre o fado, fiquei com esta obsessão.

 

Como exemplo, deixo uma excelente interpretação de Edu Miranda e do seu trio na execução de um fado em ritmo tropical. Como podemos apreciar, não existe qualquer espécie de incompatibilidade. Será que o fado original seria (mais ou menos) assim?

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A segunda vida de Cartola

Por essa época, lá pela década de 1930, havia fundado, em conjunto com outros sambistas, aquela que viria a ser a mítica Estação Primeira de Mangueira, a mais famosa escola de samba do mundo, e havia sido ele a escolher como símbolo as cores verde e rosa que ainda hoje a identificam.

Era também já muito conhecido no Rio como sambista e cantor e algumas das suas composições tinham sido interpretadas por gente como Carmen Miranda ou Araci de Almeida.

Mas na década de 1940, todas as tempestades do mundo se abateram sobre ele: perdeu a mulher, vítima de um ataque cardíaco, contraiu meningite, zangou-se com alguns dos velhos amigos da Mangueira. E mergulhou numa década de esquecimento e solidão, ao ponto de nesse período se terem gravado sambas em homenagem àquele que todos julgavam morto. Ia já a meio a década de 1950 quando o reencontram, afastado da música, a trabalhar como lavador de carros. Graças ao empenho do jornalista Sérgio Porto, também conhecido como Stanislau Ponte Preta, volta ao meio musical e recomeça a compor.

A partir daí, surgirão novos sambas, o reconhecimento pelos pares e pelo público, e até um novo amor, que o acompanhará até à morte. Com que fantasmas se bateu Cartola nos seus anos de negrume? Morto para o mundo que o conhecia, solitário, enfraquecido pela doença, terá encerrado o seu coração à música ou palpitaria ela a cada instante, nutrindo-se da desgraça e guardando-se para o dia em que viria a florescer uma vez mais?

Hoje cruzei-me duas vezes com um homem que dormia no chão. O local era insólito para ser o refúgio de um sem-abrigo e o homem mais parecia ter ficado a dormir ali para curar uma bebedeira que não o deixava ir mais longe. Eu passei apressada para cima, passei apressada para baixo, e o homem continuava a dormir. Soube depois que alguém chamou o INEM e o levaram.

E não pude deixar de carregar de volta a casa uma pontinha de culpa. Talvez fosse um bêbado em quem todos os apressados da cidade não tiveram tempo de reparar. Mas lembrei-me, entretanto, do Cartola e quem pode garantir que o bêbado não seria afinal um génio açoitado pela desgraça, à espera no passeio, com a cabeça tombada sobre o ombro, a boca aberta e um fio de baba a correr-lhe pelo queixo, de uma segunda oportunidade?

E que poderia, também ele, erguer-se a custo do chão e sair cantando:

“A sorrir / eu pretendo levar / a vida / Pois chorando / eu vi a mocidade / perdida. / Finda a tempestade / o sol nascerá. / Finda esta saudade / hei-de ter outro alguém / para amar.”