Viva a República, seu feriado e heróis

 A fama dos dois homens enchera as bocas e as almas; à porta da necrópole, durante alguns domingos, vendiam-se postais com os seus bustos e os garotos gritavam: “Olha o retrato do Costa e do Buiça… Olha o retrato dos mártires!”

Rocha Martins, O Regicídio

.

manuel Buiça 1908

A Lei nunca é cega. Nem com a morte.

Desculpem voltar ao assunto. Há um cadáver confirmado por uma médica do INEM, e pela sua equipa.

A autoridade apresenta-se e toma conta da ocorrência, fala com a equipa médica, retem um documento assinado pela médica do INEM, toma nota dos medicamentos que a defunta anda a tomar. Eu próprio sou chamado a testemunhar, bem como um dos vizinhos que entretanto se juntara ao grupo.

Ligo para uma empresa mortuária para tratarem do funeral, que me diz imediatamente, que é necessário contactar o médico de família. Isto são 2.20 horas, não há médicos de família a esta hora, e o médico que estivera com a defunta a meio da tarde, não responde aos repetidos telefonemas que lhe faço.

Muito solenemente, o funcionário da funerária apressa-se a informar-me que tem um médico pronto a deslocar-se, que não pertence à empresa, e que recebe em dinheiro. 150 Euros!

Por acaso, há dinheiro suficiente entre todos. Chega um senhor de gabardina que pede para ver o cadáver, ver os medicamentos, ouvir a história das doenças de uma mulher de 97 anos e assina um papel, sem o qual, o cadáver não pode ser removido, ou então tem que se chamar o Ministério Público que, obrigatoriamente, determina o depósito na morgue.

Mete os 150,00 euros ao bolso, boa a noite e sai pela porta fora, nem cinco minutos esteve connosco. E eu pergunto, mas a médica do INEM não tinha já determinado a hora da morte? Não tinha assinado um documento a confirmar que, quando chegou, encontrou aquela pessoa já cadáver?

A que título, é que no meio de um drama se arranja um negócio? É que, quem faz as leis no nosso país, deixa sempre uma frexazinha por onde entra a “pata” asquerosa dos interesses das corporações!