Santos e bruxas

Aquilo a que no Ocidente se chama civilização é um longo processo de sistematização das relações sociais e dos símbolos que a essas relações presidem. Desde há bastante tempo, contudo, que esse processo, em virtude da complexidade que atingiu, se transformou numa das mais exigentes disciplinas da Engenharia e, mais propriamente numa vertente muito particular da Engenharia que toma o nome de design.

O design de sistemas sociais faz-se através da aplicação de um cânone, de uma matriz de correspondências e proporções geométricas, ao conjunto de elementos mais ou menos dispersos que compõem um ou vários conjuntos sociais e respectivos símbolos, com o fim de organizá-los numa estrutura coesa de simetria variável, cujos pontos de estabilidade e ruptura sejam previsíveis e controláveis.

Essa simetria variável confere a cada estrutura a flexibilidade necessária à sua adaptação a condições permanentemente mutáveis, impedindo, ao mesmo tempo, que a tensão atinja um ponto de desmembramento, isto é, que force a estrutura para lá da sua capacidade de coesão e destrua o seu equilíbrio.

Uma das marcas mais visíveis do designer de sistemas sociais, o arquitecto de civilização, é o modo como relaciona os tais símbolos e, mais do que isso, as modificações que introduz na sua matriz geométrica, no seu cerne ontológico e na relação que eles estabelecem com os receptores psicológicos – identitários – dos elementos que compõem um conjunto e o conjunto dos conjuntos, vistos como um todo.

Sinais…. de que tempo?

halloween3Ontem, no centro de uma cidadezinha do norte da Alemanha, deparamos com as lojas já cheias de enfeites de Natal.

  • Já estou toda baralhada, diz a minha filha, ainda quero divertir-me com as minhas amigas no Halloween – outra festa do comércio – e já me fazem pensar no Natal… Recuso-me!

Digo só “pois é”, mas interiormente fico contente pelo acrescento dela sobre a festa do comércio e dou-lhe toda a razão, no que toca a baralhação e comércio…

Quando eu morrer

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Hoje, já dia 2 de Novembro, mas ainda dia 1, celebrou-se mais um Dia de Todos os Santos. Dia de ida ao cemitério. Dia que se justificava ser feriado, já que as famílias aproveitam para se encontrar. Velar os mortos é apenas um pretexto e em muitos casos reúnem-se dezenas de pessoas em torno de um jazigo. É uma forma de recordar quem partiu e de estar com quem ainda por cá anda. Morte e vida são celebradas de mãos dadas. Mas claro que a nossa Igreja, ao ser confrontada com a necessidade de reduzir feriados religiosos, escolheu eliminar este. Um dos poucos feriados que realmente juntavam as famílias. Tem muito de pagão, é verdade, mas foi a própria ICAR que tentou abafar uma celebração bem mais ancestral…

Hoje celebra-se a vida através da recordação dos mortos e dos seus feitos. A mim continua-me a fazer espécie aproximar-me de um buraco no chão coberto por lápides de mármore, sabendo que o corpo inerte do meu pai está algures ali por baixo desfazendo-se lentamente. Raramente visito o cemitério. Não suporto a ideia de o saber ali. Detesto ver a fotografia dele numa placa de mármore. Abomino sabê-lo ali. Sempre acreditei e defendi que a melhor homenagem que podemos fazer aos nossos mortos é tê-los tratado bem em vida. Que adianta ir regularmente ao cemitério, limpar campas, comprar flores, acender círios, se não os tivermos tratado bem em vida? Não foi exactamente o meu caso. Sempre «choquei» com o meu pai. Feitios demasiado semelhantes. Demasiadas diferenças de opinião. No entanto, já doente, visitei-o sempre que podia. Por vezes sabia que iria ser mal recebida, que iria ser maltratada, mas aparecia. O fim de vida dele não foi digno. Um homem enérgico preso a uma cama, a usar fraldas, dependente de terceiros para a higiene e alimentação, frequentemente com alucinações… Não foi bonito.

Sei que não estive presente tanto quanto devia. Sei que não dou o apoio que devia à minha mãe. Sei que não a vejo tanto como gostaria e isso vai radicalmente contra a minha teoria de tratar bem em vida porque o que importa e o que conta é a sua presença vivos. É isso que nos permitirá recordá-los depois de os perdermos. [Read more…]

A bruxa

Cá no bairro todos os negócios vão mal excepto o da bruxa. Chamo-lhe bruxa de um modo se calhar abusivo, ou simplista, porque ela intitula-se “conselheira e terapeuta espiritual”. Mas tenho a atenuante de que sou do norte, e, nas duas margens do rio Minho, ser bruxa ou meiga não só não chega a ser insulto como até pode ser elogio.

Esta nossa bruxa é a mulher mais elegante da rua, tanto assim que parece sempre desenquadrada, como se se tivesse materializado de repente, com os seus vestidos negros de veludo e os sapatos de salto alto, num bairro de mercearias e casas antigas. Quando sai de casa deixa na rua um eco de tacones lejanos e um perfume denso, enjoativo, que sempre me faz pensar em plantas carnívoras, cheirem elas ao que cheirarem. Tem um olhar duro, demasiado impiedoso para quem aconselha e cura, e é isso, mais do que a sua linha de negócio, que me faz desconfiar das suas intenções. [Read more…]

Kit Halloween

Miss Campa

Desde sempre tive particular repugnância pelo dia de ontem. Para mim o 1 de Novembro é um dia tétrico, macabro. É um dia de cemitérios, arranjos florais, velas, sebo queimado, tudo numa miscelânea de cheiros que torna o ar irrespirável. Depois, aquelas conversas junto às campas, acerca de tudo e de nada, dos outros, da política, das doenças, do futebol. Um ritual tantas vezes cumprido com inveja e desdém, por cobiça e tédio. A obrigação cumprida para evitar o comentário alheio, a disputa parola dos arranjos florais, o asseio transformado em alcovitice.
Nos EUA, a tradição de engalanar as campas há muito que teria sido aproveitada para promover concursos de beleza. Congregaria na mesma a comunidade e tornaria tudo bem mais interessante.
Um dia, quem sabe, não teremos entre nós a Miss Campa. Já faltou mais, agora até se festeja o Halloween.
(Texto original de 2004)

O estado gordo

Ah, o Halloween, essa tradição bem portuguesa

Lembro-me como se fosse hoje. Vestia-me de feiticeiro, com uma capa preta e o inevitável chapéu em forma de cone. Pegava numa pequena vassoura com a mão direita e num globo de neve com a esquerda, a simular uma bola de cristal. Era assim que saia à rua, par a par com outros miúdos da vizinhança. Corria as casas das redondezas a pedir doçuras e a prometer travessuras.

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Normalmente corria bem e os índices de açúcar no sangue subiam mais depressa que um foguetye em madrugada de ano novo. Um dia, o senhor Mota, dono de um belo Toyota vermelho, não quis dar nem um rebuçado da Régua, nem um mísero rebuçado do Dr. Bayar. Insistimos, chegamos a pedir por favor, primeiro, e a ameaçar uma travessura, depois. Nicles. O velho estava a pedi-las. Pimba! Uma pedra mágica voo em direcção ao vidro do retrovisor do lado do condutor e ele não resistiu. Partiu-se. Uma pequena grande tragédia. Houve o regabofe no momento da magia mas uma grande preocupação quando o Tó, o mais velho do grupo, disse, em voz grave e algo trémula, que partir um espelho equivalia a sete anos de azar.

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Eu sabia que havia algo de estranho com eles…

 

Há já uns anos que me interrogava sobre eventuais coisas estranhas relacionadas com estas personagens que algumas pessoas insistem em presentear os seus rebentos. Aquilo, lamento dizer, sempre me despertou olhares desconfiados. Agora foi-me feita justiça.

 

Um Teletubby roxo (consta que Tinky Winky) está sendo procurado pela polícia da localidade de  London, no estado de Ontário, Canadá, acusado de roubo durante o Halloween, o Dia das Bruxas.

A polícia refere que a vítima informou que estava a passear sozinha pouco depois da meia-noite de sábado (31 de Outubro), quando foi abordada por um Teletubby armado, que exigiu o dinheiro e fugiu a pé. O ladrão tinha cerca de 1,88 metros de altura e pesava entre 90 e 110 quilos.

 

A polícia insiste que se tratava de uma pessoa disfarçada de Teletubby. Eu desconfio. Não estou a ver ninguém no seu juízo perfeito a disfarçar-se daquilo. De Chewbacca, ainda vá, agora de Teletubby…?

Alguém me sabe dizer porque razão anda parte dos portugueses a celebrar o Halloween?

É uma festividade de raízes estranhas mas genuinamente anglo-saxónica e pagã e sem presença histórica em Portugal, onde preferimos assinalar o Dia dos Fiéis Defuntos.

Até há alguns anos não tinha qualquer expressão em terras lusas, salvo um grupo de indivíduos que se reunia num ‘jantar dos 13’, mais para o espectáculo que para promover qualquer motivação esotérica.

 

De repente, aos poucos, começou a ganhar dimensão. Uma festa aqui, um evento acolá. De ano para ano foi crescendo. Hoje, dou por mim a ver muitas lojas com decoração do Dia das Bruxas, restaurantes a fazer especiais do Dia das Bruxas, bares com iniciativas do Dia das Bruxas. Quase de um ano para o outro, os portugueses começaram a celebrar o Halloween.

 

Sim, não foi bem de um ano para o outro mas não vamos entrar em demasiados detalhes.

A coisa é uma espécie de Carnaval mas sem serpentinas e mais preto. E o Carnaval tem a vantagem de mostrar mais raparigas em roupas diminutas.

 

E esta descoberta do Halloween em Portugal deve-se a quê? Apenas à influência do cinema? Efeitos da globalização? Necessidade de escapismo e as parvoíces como o Dia das Bruxas servem para isso? Foi a crise?