Croniquetas de Maputo: o mercado de Xipamanine

A última destas croniquetas,
dedicada à Carla Romualdo
que me “encomendou” umas crónicas
 
“Mas ele aprendera a espalhar na sua alma o remédio do há-de vir. E  consolava-se:
-A farinha há-de-me visitar, eu sei”
Mia Couto em Vozes Anoitecidas
Mafura

Mafura

À medida que nos aproximamos de Xipamanine começamos a ter um prenúncio do que vamos encontrar. Filas de jipes, chapas, algumas carroças, todos procurando circular ao mesmo tempo, procurando vantagem no trânsito, enfiando-se por espaços livres minúsculos, travagens, buzinadelas, saudações de carro para carro, pedaços de conversas desgarradas, impropérios a transeuntes, algumas altercações e quezílias entre condutores que, na ânsia de passar primeiro, engarrafam o tráfego e obrigam a manobras de delicada geometria. O povo moçambicano, cortês, simpático e, sobretudo, muito paciente é pouco dado ao insulto e a palavras fortes. [Read more…]

Croniquetas de Maputo: promessas e milagres

Nos jornais de Maputo, tal como nos portugueses, é comum encontrar anúncios de magos/professores/curandeiros/astrólogos que asseguram operar milagres. Lá, como cá, pessoas de todos os géneros e classes procuram encontrar solução para problemas que os ultrapassam e julgam encontrar na , no oculto, em rezas, beberragens, raízes, conchas, entranhas e fumos a resposta para os seus males e desejos. E se há quem prometa resolver padecimentos tão distintos como “ser apertado por espíritos à noite”, “sonhar a fazer sexo”, “recuperação de amor perdido”, “chamar pessoa que está longe”, “sucesso no futebol” e “bons êxitos nos exames”, ninguém parece tão versátil e polivalente como o

DR. MWANA K…

Especializado em medicina tradicional e com muita experiência. Trata várias doenças, tais como: aquecimento  dos pés, quem nunca teve filhos na vida, ele faz crescer a parte do homem que é pequena para ser grande, a qualquer medida que a pessoa quer, comprimento e largura, [Read more…]

Croniquetas de Maputo: uma língua muito plástica

Uma tabuleta no tronco mostrava o preço dos serviços. Estava escrito: “cada cabeça  7$50”.

Com o crescer da vida, Firipe emendou a inscrição: “cada cabeçada 20$00”.

Mia Couto

“Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu”

cão

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Croniquetas de Maputo: as novas igrejas evangélicas

O novo Cenáculo da Fé da IURD, em Maputo, é um monumento ao seu próprio poder e megalomania, mas também um testemunho da sua implantação no país. Um pouco por todo o lado, especialmente nos bairros periféricos mais pobres, encontramos novas igrejas evangélicas tentando conquistar fiéis e seguidores. Há-as funcionando em barracas precárias, em antigas lojas de comércio, em pavilhões industriais readaptados, construídas de raiz, há-as de todas as cores e com todos os nomes.

Durante uma viagem de autocarro deparei com uma tabuleta que dizia “Centro de Interpretação Bíblica Deus Dorme Acordado”, o que constitui, por si só, um belo resumo de uma interessante interpretação.

Aconteceu-me, uma tarde de sábado, passar umas horas em confraternização com amigos num bairro popular, reunidos em volta de uma caldeirada de cabrito. Só em dado momento, quando começou a cerimónia, me apercebi de que mesmo em frente, do outro lado da rua, num barracão branco e comprido coberto a chapas de zinco, havia uma igreja evangélica. Se o som natural dos fiéis era já bastante audível, o som electrificado do pastor, amplificado por umas colunas em distorção, atravessava as chapas de zinco fazendo-as vibrar também e inundava as redondezas de gritos e convulsões, renegações veementes do pecado e lutas titânicas com o diabo – quem és tu? és belzebu? és o chifrudo? és satanás? Quem és tu? Sai, ordeno-te que saias, sai, sai – terminadas com a expulsão deste e com a multidão gritando – sai, sai, sai. [Read more…]

Croniquetas de Maputo: homens adormecidos

Negócio florescente em Maputo, é o da segurança privada. Enormes painéis nas empenas dos edifícios mais altos anunciam serviços de segurança, encontramos empresas de segurança em ruas insuspeitas, cruzamo-nos nas avenidas com jipes paramilitares, confundimos os seus profissionais com polícias se não estivermos familiarizados com os uniformes, espantamo-nos ao vê-los ostentando armas, algemas penduradas na cintura, bastões ameaçadores.

Existem empresas cheirando a dinheiro, brilhando nos seus equipamentos inspirados em filmes americanos, empresas assim assim, empresas modestas, de fardamento surrado, que prestam serviços ao pequeno comércio, seguranças de ministérios ou organismos oficiais, meros cidadãos particulares, alguns uniformizados outros não, a quem chamam guardas, etc, etc.

De vez em quando, à porta de pequenas lojas em pleno dia, deparamos com um guarda armado com algo parecido com canhangulos de aspecto artesanal e anacrónico.

Este modelo securitário, de inspiração sul-africana e bem aproveitado pelas empresas de segurança (muitas delas detidas por europeus e sul-africanos), explora um medo e uma insegurança que nada tem de comparável entre as duas realidades.

Por isso mesmo, à noite, a partir das onze e meia, meia-noite, quando as ruas da cidade parecem absolutamente desertas, encontramos dezenas de homens a dormir encostados a portas e paredes, [Read more…]

Croniquetas de Maputo: o lixo e a chuva

Uma das primeiras coisas que nos assalta os sentidos, em Maputo, é o lixo. A visão do lixo, o cheiro do lixo, o cuidado com o lugar onde se põe o pé. A cidade não está preparada para lidar com o lixo que produz, a política de recolha e transformação é quase inexistente, os raros contentores parecem ter sobrevivido em mau estado a campanhas sucessivas no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, nos campos de treino de uma escola para bombistas, amolgados, retorcidos, a tombar para os lados. Servem como mera indicação de uma zona geográfica em volta da qual se acumulam quantidades enormes de lixo. Não é raro, de dia ou de noite, encontrar lixo a arder, contentores em chamas, fumo negro toldando pequenas zonas da cidade. Outras vezes sentimo-lo à distância pelo cheiro de mil e uma coisas diferentes em combustão simultânea.

Em alguns locais, em algumas ruas, o lixo vai-se acumulando sobre o lixo, pessoas e automóveis pisam-no e compactam-no, nivelam-no, entupindo escoadores e valetas, tapando buracos aqui e ali. Os pobres dos pouquíssimos trabalhadores dos serviços de recolha, desprovidos de meios, acompanham camiões de lixo que há muito deixaram de ser basculantes, colocam um lençol de plástico no chão e vão empilhando lixo sobre ele, depois levantam-no, balançam-no uma, duas, três vezes e upa,  [Read more…]

Croniquetas de Maputo: Toponímias

     O Nuno lançou-me um repto que eu queria concretizar: fotografar a sua antiga casa em Maputo, numa rua que tivera nome de princesa e agora ostenta nome de presidente/poeta.

A Av. Salvador Allende, tinham-me dito, era perpendicular ao Hospital Central, o qual ficava entre as avenidas Eduardo Mondlane e Agostinho Neto. Estando eu na popular Rua do Bagamoyo, e sendo ainda um esticão até à avenida do  chileno, convinha-me decidir como lá chegar.

Podia ir a pé pela Karl Marx acima, cruzar a 24 de Julho, a Ahmed Sekou-Touré e apanhar a Eduardo Mondlane bem junto ao cemitério hindu. Mas também podia subir a Av. Samora Machel, seguir a Ho Chi Min, virar na Amilcar Cabral e continuar pela Agostinho Neto ou, até mesmo, pela Mao Tsé Tung, sem no entanto chegar à Kim Il Sung,  e entrar na Salvador Allende pelo seu início.

Também podia ir de taxi, é claro, negociar o preço antes de entrar, ter o dinheiro mais ou menos contado, passar pela Vladimir Lenine,  [Read more…]