Croniquetas de Maputo: as novas igrejas evangélicas

O novo Cenáculo da Fé da IURD, em Maputo, é um monumento ao seu próprio poder e megalomania, mas também um testemunho da sua implantação no país. Um pouco por todo o lado, especialmente nos bairros periféricos mais pobres, encontramos novas igrejas evangélicas tentando conquistar fiéis e seguidores. Há-as funcionando em barracas precárias, em antigas lojas de comércio, em pavilhões industriais readaptados, construídas de raiz, há-as de todas as cores e com todos os nomes.

Durante uma viagem de autocarro deparei com uma tabuleta que dizia “Centro de Interpretação Bíblica Deus Dorme Acordado”, o que constitui, por si só, um belo resumo de uma interessante interpretação.

Aconteceu-me, uma tarde de sábado, passar umas horas em confraternização com amigos num bairro popular, reunidos em volta de uma caldeirada de cabrito. Só em dado momento, quando começou a cerimónia, me apercebi de que mesmo em frente, do outro lado da rua, num barracão branco e comprido coberto a chapas de zinco, havia uma igreja evangélica. Se o som natural dos fiéis era já bastante audível, o som electrificado do pastor, amplificado por umas colunas em distorção, atravessava as chapas de zinco fazendo-as vibrar também e inundava as redondezas de gritos e convulsões, renegações veementes do pecado e lutas titânicas com o diabo – quem és tu? és belzebu? és o chifrudo? és satanás? Quem és tu? Sai, ordeno-te que saias, sai, sai – terminadas com a expulsão deste e com a multidão gritando – sai, sai, sai.

Também se mandavam de volta para as trevas espíritos malignos, arrancados do corpo de crentes aos gritos, gritando todos ao mesmo tempo, o pastor, os crentes, os espíritos, tudo isto intervalado com pedidos e colectas de dinheiro.

O dinheiro já não é apenas o fim último, digamos assim, deste negócio. Agora constitui ele próprio “matéria teológica”, um meio para chegar, agradar e ser reconhecido por Deus. Esta é a base – clara e transparente, reconheça-se – da chamada Teologia da Prosperidade que anuncia a multiplicação por três (ou quatro, ou cinco) daquilo que se dá a Deus por via desta gente que funciona no duplo papel de cobrador de impostos (exigindo o dízimo) e de angariador de investimentos em nome do divino.

Quem viaje umas centenas de km pela estrada nacional um surpreende-se com o número de igrejas evangélicas que encontra. Basta haver um agrupamento de meia dúzia de casas de madeira com telhados de capim para aparecer uma igreja evangélica.

Há umas décadas, as igrejas evangélicas (não estas, com estes nomes) tiveram um papel social importante em África, na educação (pois possuíam escolas), na saúde (algumas chegavam a possuir médicos e serviços melhores do que os hospitais coloniais), na agricultura (pois produziam grande parte dos seus alimentos, traziam técnicos agrícolas, empregavam população local), na tomada de consciência de direitos de igualdade, no envio de estudantes africanos para  universidades estrangeiras, financiando-lhes as bolsas e, até, no estudo botânico, zoológico e antropológico das próprias regiões. Em criança, por razões ligadas à profissão da minha mãe, em Angola, passei cerca de duas semanas por ano em diferentes missões evangélicas e testemunhei isso mesmo.

Quanto à maior parte destas agora aqui pululam, assalta-me uma pergunta retórica: roubar os pobres em nome de Deus não será pecado? É que, segundo os ouvi pregar através das chapas de zinco, para erradicar o pecado é necessário expulsar os demónios que o praticam. Neste caso, não restam muitas dúvidas, não é preciso perguntar-lhes o nome, sabe-se bem quem eles são.

Maputo - cenáculo

Comments


  1. Faz-me lembrar Luanda, em 2007, quando lá vivi 8 meses. Só que mais desumanizada a cidade do Atlântico. Também posso ser suspeito: 10 meses na Beira em 1974/1975 marcam qualquer europeu para o resto da vida, sobretudo se a ressaca for feita com duas namoradas sucessivas, a primeira de Montepuez e a segunda de Porto Amélia.
    Como há a possibilidade de nos encontrarmos proximamente, por certo que África virá ter connosco.
    Aguçou-me o apetite de ir procurar nos meus arquivos algumas coisas que escrevi por lá, ou entre Luanda e Benguela.
    Quem sabe!

  2. Nuno Castelo-Branco says:

    E antes de 1974, também tínhamos aquelas “igrejas” made in USA, copiosamente plantadas por certas fundações norte-americanas e que se dedicavam demasiadamente à política. Sabemos qual foi o resultado noutros países onde o regime se manteve sob a óbita da Secretiria de Estado, como o Zaire.
    Feito o trabalho de sapa e de intensa propaganda na Europa e na América, acabaram por fatalmente desaparecer . Esta volatilização também ocorreu devido ao tipo de regimes que directamente ajudaram a implantar, mas vendo a realidade como ela foi, o serviço estava feito, bem na senda dos postulados outrora anunciados pelo sr. Roosevelt.
    Claro que logicamente foram substituídas por esse folclore de extorsão que testemunhaste e é bem certo que contam com a oportuna adaptação ao gosto africano, nem sequer desdenhando em recorrerem a muitos rituais próprios dos animistas, variando-os de local para local.

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