Postcards from Greece #44 & #45 (Thessaloniki)

«Como me tornei sociólogo» ou «My first job»

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É o título, respetivamente, em Português (do livro ‘Histórias de Verão, Contos de Inverno’, editado pela Asa) e em Inglês (do livro ‘The Man who wouldn’t get up & Other stories’, editado pela Vintage) de um conto de David Lodge, de quem nada leio há imenso tempo, embora tenha lido quase tudo (exceto os ensaios sobre estudos literários e a sua autobiografia saída mais recentemente). O conto é sobre um sociólogo marxista que recorda o seu primeiro emprego, ainda estudante, como vendedor de jornais na estação de Waterloo e a competição pela venda de mais jornais com dois colegas da classe trabalhadora. O aumento da venda de jornais, por causa da competição entre os três, apenas fez com que o patrão aumentasse os seus lucros, sem que os vendedores tivessem tido qualquer compensação. Quando o verão acaba, o estudante deixa o seu trabalho como vendedor de jornais, deixando aos colegas a tarefa interminável de aumentar as vendas. Nessa altura, ele reconhece, como se tivesse tido uma revelação: «eu vi como o capitalismo explora os trabalhadores» e decide tornar-se sociólogo e professor universitário, tomando a decisão com base no facto de a universidade ser um contexto menos afetado «pela ética protestante e pelo espírito do capitalismo», para usar o título de um livro que todos os estudantes de sociologia do mundo lêem, de Max Weber. Mal sabia o estudante ficcional de que algumas décadas mais tarde já não é bem assim… mas adiante.
 

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Dos surdos

O mais recente romance do hilariante David Lodge, "A Vida em Surdina", tem como personagem principal um surdo. Não se tratando a sua de uma surdez absoluta, é suficientemente incapacitante para dificultar qualquer tipo de relacionamento com outros seres humanos. Lodge descreve com a minúcia e graça habituais as dificuldades com que se depara um surdo nos nossos dias, e destaca a estranha comicidade que tendemos a encontrar na surdez (e basta pensar no pitoresco das inúmeras personagens surdas de que a ficção se tem valido), em contraponto com a cegueira, que é sempre trágica. Não imaginamos, diz Lodge a certo passo, Édipo, acabado de escutar a terrível verdade sobre Jocasta pela boca do oráculo, a furar os tímpanos. Um Édipo surdo não produziria o mesmo horror que esse cego de olhos brancos, abandonando Tebas para o exílio. Mas afinal, o que há de jocoso na surdez? Já estiveram na casa de um ancião surdo? Eu estive recentemente e não pude deixar de sentir que a surdez traz já a morte em pequenas doses. O telefone adaptado pisca quando toca, mas basta que se esteja a olhar para outro lado para perder todas as chamadas. De resto, as conversas telefónicas estabelecem-se num volume tão elevado que os interlocutores, incomodados com a gritaria, começam a ligar de forma cada vez mais espaçada. Grande parte das conversas perde-se em fragmentos ininteligíveis e lentamente o surdo começa a desistir de entender. Ensimesmado, despede-se pouco a pouco das relações mundanas, do alvoroço das discussões, da música e do riso. E na algaraviada em que se transformaram as nossas vidas, não estaremos todos nós a ensurdecer? Com quantas pessoas nos cruzamos no dia-a-dia com quem não conseguimos estabelecer nenhuma espécie de diálogo, porque tudo acaba por se resumir a uma sobreposição de dois monólogos? Dizia Shakespeare que a vida é um conto cheio “de som e de fúria” e talvez tudo o resto seja o grande silêncio que reverbera em cada um…