Postcards from Greece #44 & #45 (Thessaloniki)

«Como me tornei sociólogo» ou «My first job»

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É o título, respetivamente, em Português (do livro ‘Histórias de Verão, Contos de Inverno’, editado pela Asa) e em Inglês (do livro ‘The Man who wouldn’t get up & Other stories’, editado pela Vintage) de um conto de David Lodge, de quem nada leio há imenso tempo, embora tenha lido quase tudo (exceto os ensaios sobre estudos literários e a sua autobiografia saída mais recentemente). O conto é sobre um sociólogo marxista que recorda o seu primeiro emprego, ainda estudante, como vendedor de jornais na estação de Waterloo e a competição pela venda de mais jornais com dois colegas da classe trabalhadora. O aumento da venda de jornais, por causa da competição entre os três, apenas fez com que o patrão aumentasse os seus lucros, sem que os vendedores tivessem tido qualquer compensação. Quando o verão acaba, o estudante deixa o seu trabalho como vendedor de jornais, deixando aos colegas a tarefa interminável de aumentar as vendas. Nessa altura, ele reconhece, como se tivesse tido uma revelação: «eu vi como o capitalismo explora os trabalhadores» e decide tornar-se sociólogo e professor universitário, tomando a decisão com base no facto de a universidade ser um contexto menos afetado «pela ética protestante e pelo espírito do capitalismo», para usar o título de um livro que todos os estudantes de sociologia do mundo lêem, de Max Weber. Mal sabia o estudante ficcional de que algumas décadas mais tarde já não é bem assim… mas adiante.
 

Esta história tem tudo, aparte o facto de que nunca vendi jornais numa estação de caminhos de ferro mas fiz, enquanto estudante, outros trabalhos semelhantes, a ver com o facto pelo qual me tornei socióloga (ser professora universitária aconteceu, não era, digamos, uma coisa que tivesse clara quando terminei o curso). Ver como o capitalismo explora as pessoas, querer perceber mais dessa exploração, sobretudo a partir das narrativas dos explorados. Antes de decidir que queria ser socióloga, quis ser jornalista. Mas uma jornalista de causas. Desde pequena que as pessoas me fascinavam. Não que gostasse particularmente delas, mas a sua vida, as suas atividades e conversas sempre me fascinaram. Na adolescência podia passar horas infinitas sentada num sítio qualquer a ver passar as pessoas, a ouvir-lhes as conversas, a tentar perceber como viviam. Basicamente durante toda a minha juventude quis compreender e mudar o mundo. Depressa percebi, porém, nas aulas do ISCTE, onde aprendi muitas coisas, especialmente a arte de fazer falar as pessoas, coisa muito importante para um sociólogo, que não iria mudar o mundo e que a sociologia não era uma disciplina assim tão aplicada como eu tinha pensado antes de entrar para a universidade. Apesar disso, não desisti da sociologia, apenas de tentar mudar o mundo, pelo menos de repente.
 
Apesar de continuar a não gostar de pessoas por aí além (ou melhor, há algumas de que gosto muito e as outras respeito-as) continuou sempre a fascinar-me a sua vida, o que fazem, com que se preocupam, o que têm para dizer sobre esta situação ou aquela. Desde cedo, no ISCTE, me inclinei para a sociologia rural, se me perguntarem porquê, talvez por causa de serem estes os contextos em que se verificaram mudanças brutais por causa do capitalismo, voltando ali atrás. Não significa que nos outros contextos essas mudanças não tenham sido drásticas, mas na agricultura e nas aldeias, por todo o mundo ocidental (e não ocidental, vá, ainda que por outras razões) as mudanças foram espetaculares e não digo isto num sentido positivo. Era (e ainda é, pelo menos em Portugal e noutros países da Europa do Sul) também nas aldeias que se concentravam os menos escolarizados, os que tinham menos oportunidades (à luz da perspetiva urbana e do capitalismo, evidentemente), os mais frágeis de muitas maneiras. Acho que foi isso que me interessou na sociologia rural. Isso e o facto de quase toda a minha família ser originária de territórios rurais e ter passado (os da geração dos meus pais e anteriores a ela) tempos extraordinariamente difíceis.
 
Estou a simplificar bastante uma história (ou mais que uma, na verdade) longa e bastante mais densa. Mas tudo isto para dizer que me tornei socióloga (rural) porque gostava de observar as pessoas nas suas vidas quotidianas e tinha a pretensão de mudar o mundo. Às vezes esqueço-me de como gosto do meu trabalho de socióloga (e de professora, também, naturalmente), perdida entre as obrigações impostas pelo ‘espírito do capitalismo’ à profissão e à vida em geral, entre rankings, fatores de impacto, plataformas, processos de avaliação intermináveis baseados quase sempre em indicadores meramente quantitativos. Mas basta sair do gabinete (o que acontece com frequência, felizmente) e fazer ‘trabalho de campo’ para perceber como o meu trabalho é genial. Como a sociologia é genial, como me dizia, há mais ou menos um ano, em Paris, a Julie, a empregada do Saint-André. Ando agora a fazer entrevistas a pessoas que se mudaram para o campo, vindas de cidades grandes. Quero conhecer as suas histórias e as suas motivações. O modo como pensam e como falam disso. Às vezes o trabalho de campo não é no campo, mas feito à distância, como foi hoje. Mas é, assim mesmo, trabalho de campo. Conheci hoje duas mulheres extraordinárias, pessoas que viviam ao ritmo das imposições do capitalismo e, um dia disseram que não queriam mais aquela vida. Claro que hoje em dia, nos seus ramos de negócio e atividade, continuam a viver condicionadas pelo capitalismo, mas sentem-se muito menos exploradas. Podem respirar, ter tempo, não viver apressadas um coisa que não é vida mas escravidão, como me disse uma delas. Podem aprender coisas novas todos os dias, desde plantar um tomateiro até pescar no rio, fazer queijo, fazer nascer coisas da terra. Duas mulheres extraordinárias, como têm sido os outros entrevistados, pessoas que se cansam das quantificações, dos rankings, de competir para ver quem vende mais jornais para enriquecer o patrão. Amanhã vou ‘fazer falar’ pessoas diferentes, talvez não tão afortunadas como estas duas mulheres. Não à distância, mas no próprio campo. Acho que também vão ser pessoas extraordinárias. Foi para as conhecer e às suas vidas, para perceber o que pensam e desejam as pessoas, o que as faz mover e transformar o (seu) mundo, que me tornei socióloga.
 
(Este quadro é obra de uma senhora de Galátista. Vi-o há uns dias numa exposição nesta aldeia. A autora chama-se Anna Giorgi Tsiokanou)

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