A queda de um anjo

©Pedro Noel da Luz

Cada país tem o seu massacre

As balas são acessíveis, custam cerca de euro e meio por litro em qualquer gasolineira. As rajadas são traiçoeiras, feitas de ultrapassagens à segurança dos outros.

Dia após dia, cruzo-me com eles no asfalto de batalha. Têm pressa, mal podem esperar pelas importantíssimas insignificâncias que os esperam. Ontem encontrei um no IC19. Veio da esquerda, cruzou em diagonal três faixas, forçou a existência de um espaço à minha frente, para finalmente, já em cima do risco contínuo, enveredar por uma saída. Fiquei fascinado com tamanha proeza, plena de audácia e de destreza. No vídeo-jogo, em que aquele condutor vive, depois gastas as três vidas basta recomeçar. Mas na vida real que lhe parece ser estranha, game over traz sangue e lágrimas.

Cada país tem o seu massacre, seja pela mão de pessoa colectiva ou individual.

Impunidade e justiça

Ele não morreu nem matou ninguém. Do mal o menos. Atrás de mim, ele esbracejava como um possesso. Mesmo sem nada ouvir, eu não tenho dificuldade em traduzir as palavras que esses gestos significavam: anda p’ra frente , lesma, mexe-te filha da puta, ó velho do caralho! O carro vinha mesmo em cima do meu, ameaçando, já não digo abalroar-me, mas tocar-me. Seguia pela marginal do Douro, do Freixo a Entre-os-Rios, estrada com muitas curvas e quase sempre com traço contínuo.
Sessenta, setenta era a velocidade do meu carro, velocidade legal e perfeitamente adequada ao trajecto. Acima desse valor tornava-se não só ilegal como perigosa. O gajo queria passar sem mal nem morte, e só não o fazia, mesmo nas curvas e no risco contínuo, porque a fila de carros em sentido contrário tornava a manobra impossível. Então, o bode expiatório do seu desespero era eu. Atirava-me com gestos obscenos, e gritos que eu não ouvia, perfeitamente condizentes com o fácies de atrasado mental que eu conseguia enxergar pelo retrovisor. [Read more…]