Ensaio sobre a perturbação do sono
ou indagação sobre as origens do meu respeito pelo sono alheio

Rui Ângelo Araújo

Bill Brandt, «Dreamer», c.1939

O problema de se ir para a cama cedo, no local onde vivo, é termos frequentemente o sono interrompido, já que a partir das duas da manhã, com uma pontualidade desesperante, se instala um pandemónio na rua, em ondas, à medida que sucessivas hordas de estudantes universitários e outros teenagers se deslocam dos bares do lado nascente do bairro, que fecham àquela hora, para outros bares a poente, que encerram mais tarde.

A turba tem de madrugada um comportamento que suplanta em inútil tontaria e decibéis o que demonstra durante as horas do dia. Não me refiro aos hinos patetas que utilizam nas praxes e que àquela hora tantas vezes repetem com vigor, associados a cânticos hooligans, mas a todo um outro repertório movido a álcool e estimulado pela intuição, certeira, de que a noite é deles e delas. Brados, guinchos, berros histéricos, urros cavernosos, por vezes lançados a solo, por vezes a várias vozes esganiçadas e desafinadas, como coros de um dos círculos do Inferno, decerto o dos néscios, ou como uma não metafórica teatralização sonora e gestual de selva urbana enquanto réplica da selva tropical, com a sua múltipla fauna, da passarada guinchante aos grandes felinos rosnantes, passando pelos primatas urrantes, batendo como eles mãos torpes no peito, numa bravata própria de estádios inferiores da evolução ou, mais prosaicamente, dos clássicos bêbados expulsos da taberna. [Read more…]

Já o sentimos na pele, Sr. PM

Um português ou uma portuguesa dorme agora menos horas, mas estraga mais o colchão de tantas voltas que dá na cama. O sono não chega, não obstante o cansaço de mais horas de trabalho (para ganhar menos). É a ansiedade, a pressão, o stress, a insegurança, o futuro dos filhos, o futuro dos filhos, o futuro dos filhos.

Ontem tive mais três motivos que me tiraram o sono: o restaurante onde costumo almoçar (cada vez menos) está a trespassar (depois de reduzir o preço da diária há cerca de um ano); o testemunho na primeira pessoa de uma mulher com dois filhos que se vê desempregada; e o pedido de uma aluna na casa dos vinte («Professora, se souber de algum trabalho…»).

É a crise e o desemprego a tocar-nos na pele. Sentimos os seus cheiros.

Recordo, a este propósito, as palavras do jurista Paulo Marcelo (Económico, 29/5): “O desemprego está a tornar-se um lugar-comum; que o digam as mais de 819 mil pessoas que não encontram trabalho. O desemprego espalha-se como um cancro, atingindo 14,9% da população activa). Este valor foi ultrapassado no espaço de apenas 4 meses, estando a passos largos dos 16%, sendo Portugal o terceiro país da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) onde o desemprego mais cresceu desde julho de 2011.

Como prevenir esta doença? Não há ninguém imune.

Mas temos que seguir em frente. Levar com a nossa vida adiante!

(Dn online )