Uma gigantesca prova de corta-mato nacional

[Pata Negra]

Bush filho, quase tão inteligente como Trump, apresentou um dia como solução para os incêndios na terra dos índios o corte das árvores da floresta. É assim a América do nosso contentamento: se aumenta a insegurança, há que munir os cidadãos de mais armas; se há fogo, corte-se o mal pela raiz, faça-se da floresta deserto.

No Portugal do nosso entretenimento, do fazer de conta que se faz, os fogos seguem o modo de pensar inteligente do amigo americano. Não chegam os carros de bombeiros, compram-se mais carros de bombeiros, não chegam mais carros de bombeiros, chamam-se helicópteros e aviões, não chegam os meios? ah! então vamos pensar…

Não pensando na destruição da agricultura e da pastorícia, não pensando nos fatores económicos que ditaram o abandono da floresta, não pensando nas medidas de encerramentos de serviços e na inevitabilidade de concentração da atividade económica e do emprego nos grandes centros, os corredores do Grande Centro pensaram então:
– Fazer pagar, aos que por lá resistem, os males das políticas que lhes têm sido infligidas. Punam-se esses malandros! Multas pesadas para cima deles! Não têm dinheiro? Então o que é que fazem às reformas que lhes damos?
Conclusão, pensam que podem acabar com os incêndios com a desertificação humana total. Não pensam, os imbecis, que o valor das propriedades, ou do rendimento que delas se tira, não chega para a despesa duma única limpeza anual, nem tão pouco para os custos cobrados pela sua eventual venda.

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Revoluções inevitáveis

Raquel Varela*

Este ano celebram-se os 100 anos da revolução alemã, os 100 anos da revolução húngara, os 70 da revolução chinesa, os 60 da revolução cubana, os 40 da revolução iraniana, os 40 da revolução na Nicarágua, e para quem, como eu, considera a queda do Muro e Tiananmen dois movimentos revolucionários (porque em história não se confundem processos com resultados), celebram-se os 30 anos do começo do fim da URSS e das esperanças numa China com menos opressão política. Todas estas datas têm vários factos em comum, mas dois deles são fulcrais: a força das massas contra o Estado, criando uma esperança única ao nível das mudanças no século XX,  e a derrota destas forças em regimes políticos que se consolidaram contra elas. Negar o papel das revoluções no século XX é negar que a par do lucro, força motriz das nossas sociedades capitalistas, há uma outra força que determinou os nossos destinos como a lei da gravidade: a ideia de que podemos viver num mundo mais livre e igualitário.

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Engate a terceira

Fernando Venâncio

A apresentadora Cristina Ferreira terá assegurado ao primeiro-ministro alguns suplementares milhares de votos quando retoricamente perguntou: «Ai, ele era engatatão?». Estava-se no programa da dita, na SIC, com António Costa de cozinheiro e a mulher de indiscreta confidente.

Pergunta retórica, sim, mas também supérflua. Todo o político de sucesso é excelente no engatar. Porque, pensando bem, é num contínuo e descarado engate que se condensa a actividade política.

“Engatar”, um verbo feliz. Lembra todos os tipos de engrenagem, de enganchadura, de engalfinhamento. Origina-se no valor “grampo” do vocábulo “gato”. Por isso se adequa tão bem às mudanças da caixa de velocidades. A gente engata, engrena, engancha, ok engalfinha a primeira, depois a segunda, e há quem tenha assentado o rabo numa máquina que mete a sexta. Não sei para que serve, ou qual seja a sensação, mas alguma há-de ter.

Um brasileiro fica em branco com os nossos “engates”. Falarem-lhe em “sites de engate” é atormentá-lo de perplexidades. E, contudo, “engate” é gramaticalmente uma formação de primeira escolha, como deverbal regressivo que é. Eleva o trivial “engatar” ao patamar da abstracção. Pede um tirar de chapéu, e ao menos uma vénia. [Read more…]

A máquina

David Carr, «Man and Machine XVI» (c. 1955)

Pedro Medina Ribeiro

1..A máquina ocupava a melhor parte da fábrica.

Era um monstro cansado e ruidoso, verde-sujo e cor de óleo.

Olhada com desconfiança, ansiava-se pelo momento em que deixaria de funcionar, em que seria desmanchada e vendida como sucata. E, no entanto, era uma boa máquina. Um monstro bom que durante anos transformara barulho em coisas úteis, que fabricara milhares de objectos em décadas de movimentos repetidos, e com essas repetições alimentara famílias.

O seu único crime era ser velha e funcionar com as energias combustíveis que tinham os dias contados. Expelia fumos e cheiros que ofendiam as pituitárias delicadas dos homens e mulheres que passavam à porta da fábrica com os seus computadores brancos de design estilizado (feitos, em países longínquos, por outras máquinas de electrónicas sofisticadas).

A máquina grande e boa, ruidosa e verde, era como um avô resmungão de andar arrastado e cheiro peculiar, como por vezes têm os velhos. E como os velhos de pulmões fracos, a máquina por vezes tossia e expectorava. Uma tosse cavernosa, que lhe subia das bielas e manivelas, e lhe arrancava escarros negros de óleos queimados.

Estes achaques obrigavam à intervenção da única pessoa no mundo capaz de trabalhar com a máquina e capaz de a fazer trabalhar. [Read more…]

Redes

José Meireles Graça

Os senadores da opinião, com banca montada há décadas na sala-de-estar do cidadão distraído, não gostam das redes sociais.

Não foi sempre assim: Pacheco Pereira, por exemplo, alimentou durante anos o Abrupto, até 2016. E não deve ter sido apenas a decadência da blogosfera (que não medi; é uma observação impressionista) a afastá-lo, mas antes a constatação de que todo o cão e gato pode fazer, e faz, blogues.

Miguel de Sousa Tavares espumava há tempos de raiva contra o Facebook. E não é possível ler as caixas de comentários dos jornais on-line sem um sobressalto, tal o primarismo das opiniões, a violência das soluções defendidas para problemas reais ou imaginários, a ausência de gramática ou um módico de cultura geral, e o intenso ódio que se manifesta a propósito da indignação da semana.

Depois, Trump foi eleito com o subsídio do Twitter (uma rede especializada em espirros opinativos) e Bolsonaro do WhatsApp (semelhante grosso modo ao  Facebook, com grande difusão no Brasil). E estes dois, Trump e Bolsonaro, carregam o ferrete ignominioso de não serem de esquerda, nem da direita que a esquerda tolera por não ser de direita – navegamos em pleno escândalo.

(Nota: Antes destes dois já Obama tinha sido eleito com grande campanha no Facebook; a esquerda, na altura, orgulhou-se, achou muito “moderno” e “despojado” e “popular”, mas agora está com amnésia). [Read more…]

10 Anos a Aventar: Tão Longe, Tão Perto

Paulo Guinote

2009 é um ano que me parece tão distante quanto próximo. Era um tempo já não de pioneirismo blogosférico, num espaço comunicacional que ainda não se designava como de “redes sociais”, mas em que os blogues funcionavam como campo de combate político que escapava aos limites da comunicação social tradicional. As “redes sociais” ainda não o eram verdadeiramente: o hi5 já tinha quase desaparecido, substituído pelo ainda graficamente incipiente facebook que então parecia um twitter em nascimento. Sim, já lá tínhamos muitos conta, mas aquilo não era bem um espaço de debate. Existia youtube, mas os youtubers ainda andavam a aprender a ler e a escrever mal, culpa dos professores na altura momentaneamente descongelados de uma (falhada) forma eleitoralista.

Os blogues, sim, estavam talvez no seu período áureo em Portugal, nos anos de chumbo do socratismo, directos antecessores dos anos de aço do costismo da geringonça, por isso 2009 acaba por não parecer assim tão longe.

A blogosfera, que em Portugal teve a paternidade reclamada quase em exclusivo por Pacheco Pereira, já tinha sido dividida na altura entre “boa” blogosfera (o seu Abrupto) e “má” blogosfera (o resto todo, salvo adequadas excepções que não me ocorrem). Na má blogosfera, à qual se atribuíam pecados do pior, avultava no início de 2009 um conjunto de blogues colectivos com posicionamentos políticos razoavelmente claros. Existiam mais, mas a meia dúzia que fazia escola dividia-se pelos “radicais de esquerda” (5dias, Arrastão), os situacionistas do socratismo (Jugular, Câmara Corporativa, uma das incubadoras dos “factos alternativos” entre nós) e os betos de direita (31 da Armada, Insurgente). Quase todos desapareceram, à medida que os seus colaboradores mais destacados arranjaram lugar num gabinete governamental ou foram cooptados pela comunicação social mainstream. [Read more…]

O quartel do Monte Pedral, o Portuense e os políticos que, dizem, o representam

 

Ernesto Martins Vaz Ribeiro

O Monte Pedral é um dos locais mais ligados à história da cidade do Porto e do País.

Por ali se situaram as defesas da cidade, constituídas por redutos liberais, que durante o período conhecido pelo Cerco do Porto defenderam a cidade e o rei legítimo que aqui se barricou entre 1832 e 1834.

O País deve ao Porto a defesa acérrima que conduziu à construção de um regime que transformaria definitivamente Portugal. Mas não me parece que o portuense tenha isso em consideração.

Monte Pedral, quer exactamente referir uma zona elevada e pedregosa o que, em termos militares defensivos, é de extrema importância.

Na altura, a actual Rua da Constituição, a rua que cortou e aplainou o Monte Pedral não existia e toda aquela zona entre a rua de S. Brás e o local por onde hoje passa a rua de Serpa Pinto, era dominada por um elevado monte pedregoso que ainda hoje pode ser notado na zona do quartel dos bombeiros. Esse monte era coroado pelo poderoso forte do Monte Pedral, que tinha outras defesas na vizinhança, como o forte de S. Brás, sensivelmente no local onde se situa o actual e abandonado quartel, o forte do Covelo, na quinta do mesmo nome, o forte da Aguardente, na actual praça do Marquês e o forte que ocupava sensivelmente o local onde se levanta o denominado quartel do Monte Pedral, havendo contudo muitas outras baterias defensivas nas imediações.

Tudo isto para dizer que toda a zona da Constituição, até Serpa Pinto, era um baluarte defensivo e um local onde a história da cidade se encontrou definitivamente com a história do País. [Read more…]