Ensaio sobre a perturbação do sono
ou indagação sobre as origens do meu respeito pelo sono alheio

Rui Ângelo Araújo

Bill Brandt, «Dreamer», c.1939

O problema de se ir para a cama cedo, no local onde vivo, é termos frequentemente o sono interrompido, já que a partir das duas da manhã, com uma pontualidade desesperante, se instala um pandemónio na rua, em ondas, à medida que sucessivas hordas de estudantes universitários e outros teenagers se deslocam dos bares do lado nascente do bairro, que fecham àquela hora, para outros bares a poente, que encerram mais tarde.

A turba tem de madrugada um comportamento que suplanta em inútil tontaria e decibéis o que demonstra durante as horas do dia. Não me refiro aos hinos patetas que utilizam nas praxes e que àquela hora tantas vezes repetem com vigor, associados a cânticos hooligans, mas a todo um outro repertório movido a álcool e estimulado pela intuição, certeira, de que a noite é deles e delas. Brados, guinchos, berros histéricos, urros cavernosos, por vezes lançados a solo, por vezes a várias vozes esganiçadas e desafinadas, como coros de um dos círculos do Inferno, decerto o dos néscios, ou como uma não metafórica teatralização sonora e gestual de selva urbana enquanto réplica da selva tropical, com a sua múltipla fauna, da passarada guinchante aos grandes felinos rosnantes, passando pelos primatas urrantes, batendo como eles mãos torpes no peito, numa bravata própria de estádios inferiores da evolução ou, mais prosaicamente, dos clássicos bêbados expulsos da taberna. [Read more…]

Alguém adormece em Kalachi, um autocarro arde em Buenos Aires


Andamos todos uma pilha de nervos. Eu ando. E vós, aposto que também. São injustiças por todo o lado, abusos de poder, é uma carta que chega das Finanças e a gente fica a tremer (ministra Cristas dixit), é a impunidade dos poderosos, é a deterioração de um modo de vida, com direitos que achávamos adquiridos, com garantias que pensávamos inalienáveis. E a revolta que isso nos provoca e que há-de tornar-se uma úlcera, se não coisa pior. O cidadão irritado, espoliado, indignado e de mãos atadas. O cidadão sozinho contra um sistema iníquo que, tal como a serpente que morde a própria cauda, foi o mesmo cidadão que permitiu que se fosse consolidando.

Por tudo isto, a cidadã pilha de nervos que sou eu gostou de conhecer, há pouco, a personagem do grande actor Ricardo Darín numa das curtas-metragens do filme argentino “Relatos Selvagens”, um engenheiro a quem passam uma multa de estacionamento indevida e que por isso se lança numa cruzada contra o sistema. Pelo meio, perde o emprego, a sua mulher pede o divórcio, a filha afasta-se dele, e até acaba por perder a liberdade. Depois de embater na arbitrariedade de quem manda e na apatia e falta de solidariedade de quem, como ele, deve obedecer, acaba por decidir mandar pelos ares (ele é um especialista em implosões) as instalações da empresa que lhe havia cobrado indevidamente, e, por isso, é detido mas transforma-se num herói popular, alvo de atenção da imprensa e das redes sociais. O povo baptiza-o de “engenheiro Bombita”. [Read more…]

Sono

Está visto que o problema é mesmo o sono: a um, tira-lhe o sono e o outro, dorme pouco, mas bem!  Será que dá para aguentar ou vão mudar de almofada? Ou será que é mesmo peso na consciência?

Num novo Titanic

Às vezes é difícil adormecer. Fica-nos na cabeça notícias como esta, que nos dão em primeira mão lá em casa: «Mais um colega que foi despedido…».

Temos medo de perder o emprego. Até quando podemos contar com ele? É a sorte grande ter um.

Saímos de casa para o trabalho mas não sabemos se o teremos no dia seguinte.

A Sony pretende despedir 10 mil funcionários. Como é possível? O que vai fazer esta gente?

Quem nos prepara para o pior? Quais as soluções e opções?

Estamos todos num Titanic e só alguns têm direito a bote salva vidas…

“Parar o desassossego”

 

Há quem tenha o defeito de ser muito seletivo na leitura de jornais. Estou nesse grupo de leitores e não me envergonho.
Procuro ler o que me interessa e que acrescente algo de construtivo aos meus dias.
Ora hoje, soube pelo Público que se discute no Porto, desde quarta, o Sono e os Sonhos no simpósio  Aquém e Além Cérebro. A neurologista Teresa Paiva vai lá estar amanhã para defender que, não obstante as razões mais que válidas para perdermos o sono (que toda a gente sobejamente conhece), “há muita coisa entre o céu e a terra, além da economia e das finanças” e que “se as pessoas tiverem uma atitude mais positiva, tudo melhora”. A especialista desdramatiza e defende o otimismo e o “tudo se resolve”. Esta será a receita para o sono anticrise.  Aponta soluções como parar o desassossego, ir para casa mais cedo e agarrarmo-nos a uma atitude positiva. [Read more…]

Como se dorme na Suécia?

Desengane-se. Aqui não vamos falar sobre o caso de Julian Assange. A palavra ‘dormir’ não vem aqui num sentido figurado mas sim na sua verdadeira essência.

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Sabem aquela coisa de dizer que dormir bem, além de fazer bem à saúde, torna as pessoas mais bonita? Parece que é verdade. Há mesmo um sono de beleza. Pelo menos é o que garante um grupo de cientistas depois de um estudo experimental liderado por John Axelsson, do famoso Karolinska Institute, da Suécia.

O estudo concluiu que que as pessoas que dormem mal “parecem menos saudáveis, menos atraentes e mais cansadas quando comparadas com quem descansa bem”. Foi assim na Suécia.

Our findings show that sleep deprived people appear less healthy, less attractive, and more tired compared with when they are well rested. This suggests that humans are sensitive to sleep related facial cues, with potential implications for social and clinical judgments and behaviour. Studies are warranted for understanding how these effects may affect clinical decision making and can add knowledge with direct implications in a medical context.

Agora vamos lá a uma beleza de sono. Até amanhã.