O gato que ri

Para quem quer andar informado, aguentar a deplorável qualidade da informação televisiva em Portugal é um desafio permanente. Notícias sem enquadramento, sem aprofundamento, enviesadas, uso e abuso de comentadores mal preparados (e a maioria das vezes com uma postura pretensiosa difícil de aguentar), moderadores focados na superficialidade, a exclusão sistemática das problemáticas ambiental e climática, enfim, é mau, mau, mau. E o afogamento a que uma pessoa se sujeita em mares de publicidade de supostos produtos “must” – como SUVs para andar em cidades engarrafadas e poluídas – torna a coisa intolerável.

Só mesmo isto me faz ter uma ligeira compreensão para o facto de a grande maioria dos portugueses (e não estou a falar dos que vivem na pobreza) ignorarem até ao grau patológico uma coisa a que se chama “alterações climáticas” e que está aceleradamente a destruir o planeta.

Entre governantes PIB-dependentes (como se o PIB dissesse alguma coisa sobre o nível de vida das pessoas!) que, para assegurarem tudo o que é negócios chorudos para alguns, legislam contra o ambiente (Simplex Ambiental) e vendem o país ao desbarato, sempre omitindo as externalidades, até a uma população à qual nem passa pela cabeça diminuir o consumo de carne, vive-se em esquizofrenia total neste jardim à beira-mar plantado. [Read more…]

Alterações climáticas, em Portugal um não-tema

Bem podem o Alentejo e o Algarve estar em situação de seca severa, as temperaturas a níveis cada vez mais extremos: a única coisa realmente interessante é o PIB – mesmo que as pessoas continuem a fazer equilíbrios para chegar ao fim do mês. Não se larga o osso do modelo de agricultura super intensiva – que contribui para agravar a situação – nem a construção de enormes hotéis e resorts.  É sabido de cor e salteado que não é possível continuar com a ideia fixa do crescimento e delapidação de recursos, é sabido que há que priorizar a acção climática AGORA, se se quer evitar os pontos de ruptura climática, mas segue-se o caminho errado até ao fim, agarrados ao status quo que já nos trouxe aqui onde estamos. O governo/os governos/os presidentes de câmara querem ser eleitos; regulamentar bens escassos como a água – acabar finalmente com monoculturas exigentes em água, onde ela é exígua, acabar com piscinas em cima de cada apartamento dos condomínios de luxo, dimensionar o turismo em vez de o alavancar a todo o vapor – tudo isto não é nada favorável à obtenção de votos. Portanto adiante. Dessalinização para continuar no ritmo predador. Os preços da água aumentam? Paciência, o agronegócio precisa.

Este governo demonstra todos os dias que a preservação do ambiente lhe é igual ao litro e o ministro do ambiente só aparece para anunciar e justificar medidas com impactos negativos para o ambiente. Um pseudo-ministro do ambiente, com a função de legitimar os negócios. E pelo poder local abaixo, afinam-se todos pelo mesmo diapasão.

Os negócios. O crescimento. O PIB. A alimentação do sistema insaciável. A corrida para o precipício, ao som dos estridentes gritos neoliberais pela liberdade de conduzir um SUV em cidades enfartadas.

Bens escassos como a água terão, obrigatoriamente, que vir a ser racionados e terá de haver ALGUMA justiça nisso. Bem podem espernear os neoliberais: Quando chegar o momento da sobrevivência do e no planeta, a liberdade não lhes vai servir um tusto. E ainda vão clamar pelo estado para vir gerir a escassez. Como aliás já clamam quando há disrupções.

À míngua

Seca: baixo nível dos aquíferos no Algarve pode aumentar salinização da água

Os lençóis freáticos no Algarve apresentam níveis abaixo do que seria previsível para esta altura do ano, originando perda de qualidade da água subterrânea e aumentando o risco de salinização, advertiu nesta segunda-feira o director regional de Agricultura. “Não sabemos como vai ser o amanhã.” Ainda não foram comunicadas “situações dramáticas”, mas o risco de intrusão salina nas águas subterrâneas é maior em zonas costeiras e em períodos de seca.”

Pois, Sr. director, o que não se percebe é como nos últimos anos permitiram o aumento avassalador das culturas intensivas no Algarve e ainda agora continuam a ser feitas terraplanagens para novas, destinadas a plantações de abacates. Querem mesmo desertificar, é??? Sempre com o paleio (de si ouvido) de que é preciso alimentar o mundo. Pois agora se vê que destruindo o ecosistema, não há produção para ninguém. Anda-se-lhes a dizer as coisas há décadas, fazem ouvidos moucos e só quando a crise desaba é que ai Jesus. Sempre tarde demais, porque a avidez do negócio é sempre insaciável.