A máquina

David Carr, «Man and Machine XVI» (c. 1955)

Pedro Medina Ribeiro

1..A máquina ocupava a melhor parte da fábrica.

Era um monstro cansado e ruidoso, verde-sujo e cor de óleo.

Olhada com desconfiança, ansiava-se pelo momento em que deixaria de funcionar, em que seria desmanchada e vendida como sucata. E, no entanto, era uma boa máquina. Um monstro bom que durante anos transformara barulho em coisas úteis, que fabricara milhares de objectos em décadas de movimentos repetidos, e com essas repetições alimentara famílias.

O seu único crime era ser velha e funcionar com as energias combustíveis que tinham os dias contados. Expelia fumos e cheiros que ofendiam as pituitárias delicadas dos homens e mulheres que passavam à porta da fábrica com os seus computadores brancos de design estilizado (feitos, em países longínquos, por outras máquinas de electrónicas sofisticadas).

A máquina grande e boa, ruidosa e verde, era como um avô resmungão de andar arrastado e cheiro peculiar, como por vezes têm os velhos. E como os velhos de pulmões fracos, a máquina por vezes tossia e expectorava. Uma tosse cavernosa, que lhe subia das bielas e manivelas, e lhe arrancava escarros negros de óleos queimados.

Estes achaques obrigavam à intervenção da única pessoa no mundo capaz de trabalhar com a máquina e capaz de a fazer trabalhar. [Read more…]

O Diletante e a Quimera, de Pedro Medina Ribeiro

Saíu hoje, Dia Mundial do Livro, o novo título de Pedro Medina Ribeiro.

Ainda não o li e não posso opinar sobre ele. Mas sobre a escrita bela, luminosa e transparente de PMR, posso.

A seu tempo, aquando da saída do seu primeiro livro, dei disso notícia no Aventar. Volto agora a fazê-lo a propósito de “O Diletante e a Quimera” com a certeza comprovada e consabida de que recomendo um grande escritor, de voz clara e cristalina, alheio a modas e contemporaneidades algo vácuas e fúteis, como se o nosso tempo não fosse plural e vário, como se não fôssemos quase todos tocados pela emergência do “hoje cheirando a amanhã” na actual configuração multimédia do mundo.

Por isso mesmo a escrita de Pedro Medina Ribeiro se impõe como “diferente”, por parecer alhear-se da necessidade imediatista de afirmar-se “moderna”, por ser sua, genuína e extraordinariamente bela, por nos remeter para um tempo que, paradoxalmente, transporta algo de intemporal. [Read more…]

A Noite e o Sobressalto

Pedro Medina Ribeiro é nosso leitor e, além disso, amigo do Aventar no Facebook. Ora bem, parece que chegou o momento de o lermos, a ele.

“A Noite e o Sobressalto”, seu livro de estreia, pode ser encontrado desde ontem nas livrarias. O lançamento é hoje, na livraria Barata, às 19h00. Os leitores do Aventar estão convidados, naturalmente.

Falta acrescentar duas coisas: é na Av. de Roma e conta com a presença do autor.

E ainda: que corra tudo sem sobressaltos, Pedro, e guarda-me um exemplar antes que esgote. Autografado.