A máquina

David Carr, «Man and Machine XVI» (c. 1955)

Pedro Medina Ribeiro

1..A máquina ocupava a melhor parte da fábrica.

Era um monstro cansado e ruidoso, verde-sujo e cor de óleo.

Olhada com desconfiança, ansiava-se pelo momento em que deixaria de funcionar, em que seria desmanchada e vendida como sucata. E, no entanto, era uma boa máquina. Um monstro bom que durante anos transformara barulho em coisas úteis, que fabricara milhares de objectos em décadas de movimentos repetidos, e com essas repetições alimentara famílias.

O seu único crime era ser velha e funcionar com as energias combustíveis que tinham os dias contados. Expelia fumos e cheiros que ofendiam as pituitárias delicadas dos homens e mulheres que passavam à porta da fábrica com os seus computadores brancos de design estilizado (feitos, em países longínquos, por outras máquinas de electrónicas sofisticadas).

A máquina grande e boa, ruidosa e verde, era como um avô resmungão de andar arrastado e cheiro peculiar, como por vezes têm os velhos. E como os velhos de pulmões fracos, a máquina por vezes tossia e expectorava. Uma tosse cavernosa, que lhe subia das bielas e manivelas, e lhe arrancava escarros negros de óleos queimados.

Estes achaques obrigavam à intervenção da única pessoa no mundo capaz de trabalhar com a máquina e capaz de a fazer trabalhar.

 

2..Também já não era novo, o senhor José.

Mas tinha dedos grossos, capazes de desenroscar tampas e abrir as válvulas, e braços que sabiam de cor a força necessária para accionar as alavancas. Sabia o gesto justo para cada manípulo e conhecia todas as peças da máquina. Tinha os olhos capazes de ver na escuridão das vísceras de metal e a coragem de se deitar no chão e deslizar por baixo do monstro, até desaparecer ou ficar apenas com os pés de fora. Aproximava os ouvidos das engrenagens, auscultando a intimidade dos seus suspiros e o bater do seu coração de máquina, e sabia conversar com as entranhas de aço e atender aos seus protestos mecânicos.

 

3..Chegava cedo, o senhor José.

Como vinha de longe e se movia com lentidão, acordava ainda de noite. Apanhava um autocarro, um comboio e outro autocarro. Apresentava-se à porta da fábrica, arrastando os pés, às oito em ponto. Apagava o cigarro e entrava. Despia o casaco, que deixava num cacifo sempre aberto, vestia uma bata cinzenta e dirigia-se para a casa da máquina.

Colocava gasóleo no depósito usando um funil de folha de estanho e limpava com um pano a gota que sempre pingava. Descerrava válvulas e escutava os fluidos escorrerem, espessos, frios e gorgolejantes. Verificava níveis e manómetros, indicadores e ponteiros, fusíveis e comutadores. Pressionava pedais, accionava alavancas. Alimentava rodas dentadas com a velha almotolia e, por vezes, desentupia com um arame fino uma pequena peça de latão que levava aos lábios para soprar.

Terminadas as operações, a máquina estava pronta para trabalhar. O senhor José rodava a chave na ignição e premia, durante alguns segundos, dois botões ao mesmo tempo. A máquina acordava. Dava um solavanco. Engasgava-se. A bomba de óleo soluçava, o tubo de escape suspirava, e ele afinava a entrada de ar até conseguir uma combustão tranquila. Satisfeito, deixava a máquina aquecer durante quatro minutos, contados pelo relógio de pulso, que eram também o tempo de ir lá fora fumar um cigarro.

Quando voltava, descia uma grande alavanca e os martelos ofendiam a chaparia. Instantes depois, à razão das centenas por minuto, a máquina cuspia as suas produções de aço. E cantava todo o dia a sua canção pesada.

 

4..Havia outro homem que vinha todos os dias à fábrica, mas que nunca se aproximava da máquina. Era o dono.

Não entendia nada de mecânica e só era dono da fábrica porque o pai dele fora filho do homem que construiu a máquina. Talvez por isso, tinha o olhar desconfiado de quem está sempre à esperem que o roubem.

O dono sabia que, ao contrário do senhor José ou dos outros operários, não era preciso para nada. Por isso fazia a única coisa que sabia: aparecia ao fim da manhã para receber o dinheiro. Depois, fechava-se no seu gabinete e ficava a olhar para as notas e a fazer contas. Às vezes, escrevia para o banco ou falava ao telefone. Gostava de falar alto.

O dono não gostava de estar ao pé da máquina. Achava-a suja, barulhenta, capaz de lhe rebentar na cara a qualquer momento. E fazia bem em não se aproximar: a máquina também não gostava dele.

 

 

5..Há muitos anos, quando a fábrica era grande e tinha dezenas de funcionários, os turnos eram compridos e a máquina só parava um dia por semana. Depois, apesar das greves e protestos, foi encolhendo. Até que só ficaram o dono e o senhor José.

Naquela manhã, como habitualmente, o dono chegou tarde, fechou-se no seu gabinete e pôs-se a fazer a contas. Ao longe, ouvia a máquina. As vibrações propagavam-se pelo chão e subiam-lhe pelas pernas. Ultimamente, andava preocupado. Descobrira que precisava de muito dinheiro para comprar coisas inúteis mas caras.

Chamou o senhor José e mandou-o pôr a máquina a trabalhar mais depressa. O senhor José lembrou ao dono da fábrica que já tinham tido aquela conversa e repetiu o que sempre dizia: não era possível fazer a máquina trabalhar mais depressa. Então, o dono disse ao senhor José que teria de trabalhar mais horas e o senhor José disse que não podia trabalhar mais horas. Então, furioso, o dono da fábrica disse ao senhor José que ele não podia sujar-se, porque quando se sujava levava óleo para casa e o óleo era da fábrica.

O senhor José não respondeu. Voltou as costas ao dono da fábrica. Carregou uma última vez nos botões da máquina. Despiu a bata, apanhou o autocarro, o comboio e o outro autocarro e nunca mais lá voltou.

 

6..No dia seguinte, pela primeira vez em muitos anos, a máquina não trabalhoua um dia de semana.

Quando chegou à fábrica, no fim da manhã, o dono não ouviu o barulho das engrenagens. Pensou que talvez se tratasse de uma pausa forçada, daquelas que por vezes acontecem sempre que é preciso substituir um fusível ou mudar um filtro. Mas quando, passados alguns minutos, continuou sem ouvir sinal de actividade, achou que a questão era mais séria.

Então, fez algo de que não gostava e foi à casa da máquina. Não encontrou o operário e percebeu que a máquina estava fria. Furioso, insultou-os. Resolveu que iria despedir o senhor José e pôr ele próprio a máquina a trabalhar. Rodou a chave na ignição e, durante alguns segundos, carregou em dois botões ao mesmo tempo. Nessa altura, a máquina adormecida abriu os olhos, deu um salto, abocanhou-o, e nunca mais ninguém viu o dono da fábrica.

 

7..Um dia, um rapaz entrou na fábrica abandonada.

Desceu por uma escada de ferro e caminhou por um passadiço metálico, suspenso no ar. Deu um salto e sentiu o chão de ferro a tremer. Deu um grito e maravilhou-se com o eco que preencheu o espaço.

Quando encontrou a máquina, carregou em todos os botões e mexeu em todas as alavancas. A máquina acordou. Espreguiçou-se. E durante alguns minutos deitou cá para fora dezenas de sabonetes. Depois, adormeceu para sempre. Foi a última coisa que a máquina fez. Sabonetes.

Comments

  1. Carla Romualdo says:

    O A. Pedro Correia já por cá nos deu a conhecer o Pedro Medina Ribeiro, mas, tendo por certo que depois deste conto que o Pedro publica a propósito dos 10 anos do Aventar, muitos leitores acharão que esta história lhes soube a pouco, sugiro que escolham um dos livros que o Pedro publicou e que continuem a lê-lo.
    Escusado será dizer que não darão o tempo por perdido.


  2. Boa tarde,

    Leitor que já foi regular e frequente – agora com pouca e rara vontade de “regressar” – há bastante tempo que não colocava um “likezinho”… e desta vez foi com enorme prazer que o fiz.

    O meu BRAVO ao Pedro Medina Ribeiro e ao Aventar por o convidar!

    Obrigado,
    A. Oliveira

  3. Zé Pestana says:

    Esta história tem algumas semelhanças com a minha vida, assim como terá com outras pessoas.

  4. Ana Cristina Madeira says:

    Inquietante. Já não vou olhar para a fotocopiadora com a mesma descontração. Não vá ela devorar-me ou, então, ‘gomitar’ sabonetes – preferia esta última hipótese. Muitos parabéns, caro amigo Pedro. Tal como outros textos teus, engoli este num ápice! Abraço!

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  1. […] escritos. É o Pedro Medina Ribeiro, também escritor e que, ainda há pouco, nos deu a honra de um texto comemorativo dos 10 anos cá de casa. Tomai e […]