Nasce hoje Roy Batty, vivo há 34 anos

blade-runner-windows-to-the-soul-thoughts-on--L-4rEUMJAll those moments will be lost in time, like tears in rain.

Roy Batty, Blade Runner

Em 1983, entrei, salvo erro, num dos cinemas do Girassolum, uma das salas hoje defuntas de Coimbra. Apesar de o filme ter um título em português (Perigo Iminente – ou Perigo Eminente, como viria a ler-se em muitas cassetes VHS de videoclubes manhosos), é e será sempre conhecido por Blade Runner, no original e para os amigos.

Foram muitas as coisas que me impressionaram no filme, num constante estranhamento que se foi entranhando: um cenário em que o futuro da ficção científica era perigosamente verosímil, um Harrison Ford chandleriano (até se sentia um cheirinho a Humphrey Bogart , com direito a voz off de filme negro), uma banda sonora inquietante, a beleza serena e frágil de Sean Young e um dos melhores e mais complexos vilões da História do meu Cinema, Roy Batty, papel desempenhado por Rutger Hauer. [Read more…]

Não pensemos em coisas tristes

Dentro de dez anos atingiremos a data na qual se desenrolavam os acontecimentos narrados no já lendário “Blade Runner”.

Parece muito longínqua ainda aquela Los Angeles futurista e ainda mais a possibilidade de criação de “replicantes”, tão próximos aos seres humanos que não só se confundem fisicamente com eles, como conseguiram desenvolver emoções como o amor, a raiva, a inveja, e tantas outras que definem o humano.

Para além da relação ambígua com o criador, o tema central para os replicantes era a mortalidade. Condenados a uma vida demasiado curta, impedidos de saber qual a sua data de fabrico e, consequentemente, a data em que se desactivariam sem que nada pudessem fazer para impedi-lo, os replicantes experimentavam a angústia da sua própria finitude, a frustração pela perda de tudo o que haviam conquistado, a consciência pungente de que nada deles sobraria, e que tudo o que haviam visto e que a sua memória preservava como um tesouro se apagaria sem vestígios.

Quem viu o filme recordará certamente o monólogo à chuva de Rutger Hauer e a bela metáfora da pomba que se desprende e se eleva. A voragem dos dias não convida à meditação sobre a mortalidade.

As semanas correm umas atrás das outras, os meses sucedem-se como naqueles filmes antigos em que se representava o passar do tempo com o desfolhar de um calendário que ia soltando as suas páginas, deixanda-os cair como folhas mortas. Afastamos o negrume com um encolher de ombros. “Não pensemos em coisas tristes”.

Sentada na sala de espera do hospital, à espera de notícias que não chegam, lembro-me estupidamente do Blade Runner. Nada há de mais humano do que esta rebeldia contra a morte.