Velhos são os trapos

Que projeto este, da Companhia Maior! Admirável. Vale a pena conhecer (encontra excertos de peças no youtube). Uma companhia de teatro formada por atores séniores (com mais de 60 anos), «depois de uma vida plena».

A Companhia Maior tem dois anos de idade e residência no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa. Depois de A Bela Adormecida, de Tiago Rodrigues, e de Maior da coreógrafa Clara Andermatt, os actores e as actrizes deste grupo ensaiam agora Iluminações, que se estreia amanhã no Pequeno Auditório do CCB e continua em cena nos dias 4, 5 e 6 de Novembro.

Com a encenadora Mónica Calle, 46 anos e também participante neste espectáculo Iluminações, os intérpretes da Companhia Maior pensam e falam da mortalidade. “E porventura vão mais longe do que alguma vez pensaram ir, despindo-se em palco num gesto que é também metáfora dessa ideia cara a Calle de o intérprete se revelar a si mesmo — e ao outro — inteiro verdadeiro”.

Quem puder, vá ver! Parece que farão digressão nacional, neste que é o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre as Gerações.

Parabéns a todos estes actores e a todos os que estão na génese deste projecto maravilhoso e deveras inspirador para todos.

As citações selectivas de Helena Matos

Helena Matos indigna-se porque os especialistas nacionais durante o pico da gripe correlacionaram a anormal mortalidade ocorrida este ano com a crise, o custo da electricidade e as taxas moderadoras, uma ideia amalucada, classifica. E indigna-se porque o Público de ontem refere um estudo preliminar que assinala esse incremento em 12 países europeus.

Com a proverbial distração da extrema-direita só se esqueceu de citar esta parte do artigo:

O excesso de mortalidade tem sempre “uma explicação multifactorial, mas a hipótese que parece mais plausível é a das características do vírus”, reforça o presidente do INSA, José Pereira Miguel. “Ninguém pode afastar os efeitos da crise, mas os fenómenos sociais demoram mais tempo a produzir efeito”, nota Pereira Miguel, que diz que vai ser necessário aguardar mais alguns meses até que o estudo sobre as causas da mortalidade esteja concluído.

Também é possível que não tenha lido até ao fim, mas aí estaria a fugir às suas responsabilidades.

Sem metafísica

E tu, preferias uma morte súbita ou ter tempo para preparar-te?

Eu pestanejo. Aclaro a garganta. Hesito com um “Bem…”.

Que diabo, na antevéspera de Natal, que raio de pergunta é esta?

Lembro-me de que há dias ouvi um podcast já com algumas semanas do “Questões de moral”, do Joel Costa, que era uma curiosa e muitas vezes divertida reflexão sobre a morte. Também ele aflorava essa questão, e até aventava que as suas últimas palavras poderiam vir a ser “Teve piada”.

Os compradores de última hora, entontecidos pelo circuito de hamster nas ruas da Baixa, roçam os ombros nos nossos mas nada ouvem da conversa.

Pergunto se preferias uma morte súbita ou ter tempo para preparar-te? [Read more…]

Não pensemos em coisas tristes

Dentro de dez anos atingiremos a data na qual se desenrolavam os acontecimentos narrados no já lendário “Blade Runner”.

Parece muito longínqua ainda aquela Los Angeles futurista e ainda mais a possibilidade de criação de “replicantes”, tão próximos aos seres humanos que não só se confundem fisicamente com eles, como conseguiram desenvolver emoções como o amor, a raiva, a inveja, e tantas outras que definem o humano.

Para além da relação ambígua com o criador, o tema central para os replicantes era a mortalidade. Condenados a uma vida demasiado curta, impedidos de saber qual a sua data de fabrico e, consequentemente, a data em que se desactivariam sem que nada pudessem fazer para impedi-lo, os replicantes experimentavam a angústia da sua própria finitude, a frustração pela perda de tudo o que haviam conquistado, a consciência pungente de que nada deles sobraria, e que tudo o que haviam visto e que a sua memória preservava como um tesouro se apagaria sem vestígios.

Quem viu o filme recordará certamente o monólogo à chuva de Rutger Hauer e a bela metáfora da pomba que se desprende e se eleva. A voragem dos dias não convida à meditação sobre a mortalidade.

As semanas correm umas atrás das outras, os meses sucedem-se como naqueles filmes antigos em que se representava o passar do tempo com o desfolhar de um calendário que ia soltando as suas páginas, deixanda-os cair como folhas mortas. Afastamos o negrume com um encolher de ombros. “Não pensemos em coisas tristes”.

Sentada na sala de espera do hospital, à espera de notícias que não chegam, lembro-me estupidamente do Blade Runner. Nada há de mais humano do que esta rebeldia contra a morte.