Não pensemos em coisas tristes

Dentro de dez anos atingiremos a data na qual se desenrolavam os acontecimentos narrados no já lendário “Blade Runner”.

Parece muito longínqua ainda aquela Los Angeles futurista e ainda mais a possibilidade de criação de “replicantes”, tão próximos aos seres humanos que não só se confundem fisicamente com eles, como conseguiram desenvolver emoções como o amor, a raiva, a inveja, e tantas outras que definem o humano.

Para além da relação ambígua com o criador, o tema central para os replicantes era a mortalidade. Condenados a uma vida demasiado curta, impedidos de saber qual a sua data de fabrico e, consequentemente, a data em que se desactivariam sem que nada pudessem fazer para impedi-lo, os replicantes experimentavam a angústia da sua própria finitude, a frustração pela perda de tudo o que haviam conquistado, a consciência pungente de que nada deles sobraria, e que tudo o que haviam visto e que a sua memória preservava como um tesouro se apagaria sem vestígios.

Quem viu o filme recordará certamente o monólogo à chuva de Rutger Hauer e a bela metáfora da pomba que se desprende e se eleva. A voragem dos dias não convida à meditação sobre a mortalidade.

As semanas correm umas atrás das outras, os meses sucedem-se como naqueles filmes antigos em que se representava o passar do tempo com o desfolhar de um calendário que ia soltando as suas páginas, deixanda-os cair como folhas mortas. Afastamos o negrume com um encolher de ombros. “Não pensemos em coisas tristes”.

Sentada na sala de espera do hospital, à espera de notícias que não chegam, lembro-me estupidamente do Blade Runner. Nada há de mais humano do que esta rebeldia contra a morte.

Comments


  1. Memories! You’re talking about memories!, dizia Deckard (Harrison Ford). Confesso que ainda hoje me deixa abananado o título original da história: Do Androids Dream of Electric Sheep?. Será que os andróides, os replicantes, sonham? E se sim, com ovelhas eléctricas, simulacros de algo que a guerra destruiu mas que os humanos tentam preservar a todo o custo, como aqueles animais domésticos que os donos querem clonar?


  2. Já deve estar mais ou menos entendido que eu sou fã de ficção cientifica. O Blade Runner é um dos meus filmes preferidos, claro. E até tenho as duas versões. Gosto mais do original. Ainda hoje sei de cor esse tal monólogo final. Nunca percebi porque o decorei mas garanto que foi involuntário.O filme de facto é profundo por causa do paralelismo. A questão não é se os andróides sonham, a questão é saber se seremos ou não andróides. Fica a dúvida. Mas a grande mensagem é mesmo essa, a rebeldia contra morte perante a sua inevitabilidade. E o que é que vamos fazer com essa rebeldia.

  3. Luis Moreira says:

    O tempo vai relativizar essa rebeldia, descobrir-lhe virtualidades, apaziguar emoções. Chegamos mesmo à conclusão que nada faz mais sentido à vida. Que importa que parte do mar é que morre na areia…

  4. Luis Moreira says:

    Os textos da Carla têm a singularidade de me fazer melhor pessoa…

  5. Adalberto Mar says:

    Vangelis (ler-se como se houvesse um «u» entre o ‘g’ e o ‘e’ «vang-u-elisse», estudei grego em Atenas e na cama(!!!) durante quase dois anos!!)..este Vang(u)elis que não anda de avião, que não se lava muito, que deu o único concerto na Acrópole, não permitido a nenhum compositor antes, em décadas, sabe, como ninguém, recriar toda a paixão tocante deste filme: «Love Theme» É UM MONUMENTO HUMANO A OUTRA COISA MONUMENTAL HUMANA: a alma! A beleza de Vang(u)elis pode estar, CARLA, absolutamente ligada a hospitais. Carla MARIA FERREIRA DOS SANTOS, eu, ao contrário de ti, adoro hospitais e centros de saúde e farmácias… Sabes porquê: por esse mesmo motivo. PORQUE SIGNIFICAM VIDA, SAÚDE, LUZ E MENOS DOR…e isto porque quando de lá saio, venho todo contente, com a sensação de que tenho mais controle sobre a própria vida e saúde. Por isso, ainda estão relacionados com RENASCIMENTO e ressurreição. Os casos de morte, como as pombas brancas de Blade Runner- (que foi traduzido de uma maneira tão pobre, simplista e insensível para português de «Perigo Eminente!!) que observei no hospital, como a despedida de um jovem amigo de 27 anos que morreu de HIV 1 e 2, são bloqueados pela minha mente. E mesmo momentos atrozes, horríveis, como o meu internamento com uma brutal crise de síndrome vertiginoso de Menière (de que sofro), quando regressei desfeito e em pedaços de Atenas, (faz agora 4 anos em Maio, que me parecem mais e ainda 4 dias ou horas!!), e quando nessa semana do meu regresso /em que presenciei a morte da mãe de quem eu amava, um amigo jovem e com «a vida em ordem» se matou, atirando-se da ponte (faz agora precisamente 4 anos também)… só nessas alturas «O hospital, aliás hospitais, pois andei 17 dias continuamente em crise a correr e a ser levado por familiares, amigas e vizinhos para hospitais, em plenas crises, até o médico otorrino de Coimbra ter pegado em mim e me afastar de tudo e de todos , levando-me de vez e isolando-me, internando-me em Junho no HUC de Coimbra, só nessas alturas é que Blade Runner e hospital não ligavam bem…MAS AGORA, À DISTÃNCIA DESSES 4 ANOS, quando vou lá, e fiquei «cliente» dos HUC (porque me trataram bem) já vejo e ouço o LOVE Theme do Vang(u)elis, pois vejo já tudo como romance, drame d’amour, nostalgie du passé et de la turbulance des grandes passions greco-latines, e, sobretudo, já sinto que tive a minha dose de «agapi mou, kardoula-mou imme treloz gia sena e de kosmoz mou, filaikia filaikia mou, pedaiki mou!!! FORAM TEMPOS BELOS, COM HOSPITAIS , SEM HOSPITAIS, COM AS POMBAS DO VANGuELIS mas sobretudo com o DRAMA GREGO sobre as costas..COMO DIZIA A LOLA FLORES «PARA OLVIDAR PARA SIEMPRE!!»QUANDO ESTIVERES DOENTE, pede infos aqui ao dalby..Tudo de hospitais. Medicamentos ..tudo..Quando estou doente vou a diversos sitios ao mesmo tempo para saber o que cada um diz..POBRE ADSE..Vou aos HUC, a Clipovoa, ao hospital da Prelada, ao da Arrábida, e já descobri que o da Boavista tem acordo com a ADSE, faço analises e exames, Tac s e tudo o mais, como um louco..mas depois ando sossegado!!!dalbyAgapi MOU!dalby

  6. Barry (Nexus 6) says:

    Todos esses momentos irão se perder no tempo, como lágrimas na chuva…

Trackbacks


  1. […] Braga, que me fez ler o Philip K. Dick, e do João José Cardoso. O Blade Runner trouxe-me, ainda, mais um texto da Carla. Obrigado, Roy […]

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