A máquina do tempo: ainda as origens do fado

 

 

Nesta bela gravura de Rugendas (1802-1858), o pintor alemão que durante três anos viajou pelo Brasil, recolhendo preciosos testemunhos dos costumes populares,  vemos escravos dançando o lundum. Há cerca de duas semanas atrás, publiquei aqui um texto sobre o fenómeno da canção urbana, falando das similitudes entre o fado e o tango. Quando recordava o pouco que se sabe sobre as obscuras origens da chamada «canção nacional», aventei entre as hipóteses que os especialistas têm vindo a explorar, aquela que é a mais comummente aceite – a de que o fado nos chegou nos barcos de torna-viagem que trouxeram de regresso a corte de D. João VI que, durante as invasões francesas, esteve refugiada no Rio de Janeiro, para ali tendo transferido a capital do reino.

 

Segundo essa teoria, o fado teria sido criado a partir de uma dança muito popular no Brasil (no início do século XIX), dança em que se misturavam elementos de danças populares portuguesas e de outras trazidas de Angola pelos escravos. Era um bailado que podia ser acompanhado de canto e a que as gentes chamavam «fado». Já em Portugal, este fado brasileiro e o lundum, foram-se mutuamente influenciando até se fundirem, dando lugar àquilo que veio a ser a canção nacional.

Foi um fenómeno explosivo, rápido que, como um incêndio de Verão, viajou da corte aos bairros populares e a partir destes se espalhou por todo o País. Hoje, o fado já não é lisboeta, canta-se, e muito bem, no Porto (de onde têm vindo excelentes intérpretes, como a magnífica Maria da Fé), no Ribatejo, onde adquiriu ritmo e sonoridade própria. Terá desencadeado o fenómeno do fado coimbrão, mais ligado à música beirã. É a canção nacional. Chama-se fado, fatum, destino… Começou nos saraus do Palácio de Queluz, viajou para as alfurjas, lupanares e tabernas da Mouraria, e agora com uma nova estirpe de cantores e cantoras aristocratas parece querer voltar aos salões.

 

O curioso é que já no princípio do século XX, antes de ter completado cem anos, já o fado era considerado uma canção tradicional. A estúpida «tradição» dos touros de morte em Barrancos tem cerca de oitenta anos e essa barbaridade é defendida nessa base – é uma herança cultural do povo barranquenho. Estranho país o nosso, fundado há quase nove séculos e onde as falsas tradições pegam de estaca em duas ou três gerações.

 

Mas, enfim, voltemos às origens do fado. Estava a falar do lundum, ou lundu. Há quem defenda que a sua proveniência é da África Ocidental e que teria chegado a Portugal, vindo de Cabo Verde, com as primeiras levas de escravos, ainda no século XV. Há a tal tese, mais difundida, da proveniência angolana. Indiscutível é a mistura de ritmos e cadências africanas e europeias, integrando os ritmos ibéricos, jotas, fandangos, e corridinhos, com o estalar de dedos a marcar compassos.

 

Pergunto se mornas, coladeras, fado, samba, lundum, maxixe, não terão origens comuns. De notar que, nesta matéria, só faço perguntas. Mensagens que meto em garrafas e atiro ao oceano da blogosfera – quem sabe se um especialista, um dia, não dará resposta a estas questões? Desde que, há uns anos atrás, no «Ponto por Ponto», me convidaram para falar sobre o D. Afonso Henriques e depois me fizeram perguntas sobre o fado, fiquei com esta obsessão.

 

Como exemplo, deixo uma excelente interpretação de Edu Miranda e do seu trio na execução de um fado em ritmo tropical. Como podemos apreciar, não existe qualquer espécie de incompatibilidade. Será que o fado original seria (mais ou menos) assim?

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Comments

  1. Fernando says:

    Na minha opinião de leigo, todavia amante, acho que o choro, essa bela música carioca, também passa por aqui. 


  2. Muito provavelmente. Não fui exaustivo na enumeração das músicas com possível origem no lundum. É curioso verificar que o tango tem um percurso genealógico semelhante – África – América. O fado, não se ficou por estes dois continentes e veio para a Europa.


  3. E o fado agora alindou-se com mulheres magníficas  Ana Moura, Joana Amendoeira, Cristina Branco, Catia Guerreiro, Mariana Arnault e tantas outras, a cantar belos poemas de poetas portugueses. Mas quanto à sua origem, um belo dia em Barcelona, fui a um espectáculo de Flamengo. Entabulei conversa com o cantor mais velho a quem convidei para a minha mesa (aqui foi para impressionar a namorada) e disse-lhe que ele cantava como a Amália (já na altura em que a Amália lançava sons e não palavras ), ele concordou dizendo que era óbvio que o flamengo com aquele cantar arrastado e a lançar sons, mais do que palavras, e os próprios assuntos cantados, remetiam para a mesma origem.


  4. As tais mulheres bonitas são, de uma forma geral, as aristocratas de que falava. Temos além das mulheres bonitas, o Nuno da Câmara Pereira, e todos os Câmaras… é o tal regresso do fado aos salões. O flamenco não sei se tem origens comuns. A não ser que aceitemos uma das teses que dá a ocupação muçulmana como raiz desses géneros musicais. Ando a ver se alguém esclarece.


  5. Essa geração já não é actual. Hoje temos fadistas homens como o Camané que se atreve a cantar o António Variações junto com a banda ” Os humanos” (um espectáculo fabuloso) e que tem trinta e tal anos. Mas esta geração deixou as  fadistas de bairro ( com excepção de Mariza e uma ou outra)e apareceram estas mulheres cultas. A Cátia é médica, a Ana é veterinária, e assim por diante…


  6. Gosto moderadamente de fado. Uma noite inteira a ouvir fados é um suplício. E tantas noites que tive de passar na Adega Machado, no Senhor Vinho (da Maria da Fé) e outras casas, com colegas estrangeiros que não dispensavam uma noitada de faduncho. Mas tenho-me apercebido da transformação da origem social dos fadistas e na mudança qualitativa que, sobretudo as letras, tiveram. Inclusivamente, muitos dos nossos melhores poetas foram musicados. houve uma renovação apreciável.


  7. Eu tambem não aguento muito fado. Não gosto, especialmente, do ambiente passadista e marialva.Mas estas mulheres fazem muito pela poesia e pela cultura das pessoas que ouvem fado.As letras, no geral, são óptimas.


  8. Ótimo post! Obrigado por compartilhar! 🙂

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