O Clube do Regime nos Trinta e Cinco Anos da Independência de Angola

O governo de Angola convidou (ou melhor pagou dois milhões de USD) o clube de futebol conotado com o regime colonialista, para disputar um jogo de futebol contra a selecção angolana, no âmbito das comemorações dos trinta e cinco anos da independência. Ora o dito clube, de nome Sport Lisboa e Benfica, foi, como é sabido, um dos instrumentos de propaganda do regime fascista e colonialista do Estado Novo, contra o qual milhares de angolanos combateram e morerram. O convite provocou uma onda de indignação sem precedentes em largos sectores da sociedade civil angolana. Durante todo o dia, ouviu-se e leu-se, em toda imprensa, falada e escrita, não conotada com o governo, vozes discordantes, que consideraram o convite uma afronta.

ADENDA: (alguns comentários justificam uma adenda a este post. O tom do primeiro parágrafo é irónico e provocador, e portanto, não pode ser lido literalmente. O autor, por acaso, angolano, benfiquista, cabo-verdiano e português – por ordem alfabética- , optou pela ironia para expor ao ridículo algumas teses quanto à pretensa filiação salazarista do grande Benfica, mentira nojenta que faz escola em alguns  sectores da sociedade portuguesa. Quanto ao que se segue é mais sério e factual. Pode ser lido literalmente e pretende explicar a dimensão universalista deste grande clube através do exemplo angolano. As desculpas a alguns que leitores pela forma grosseira e tosca com que aqui se utilizou uma figura de estilo tão nobre, mas também tão difícil, como a ironia)

E no entanto, através de uma análise mais atenta dessas vozes, pôde-se constatar que as críticas envolviam  os valores monetários, muito mais do que  a escolha do clube. De facto, e não sem razão, interrogava-se muita gente como é que num país com tantas disparidades sociais, o Estado se propunha gastar tanto dinheiro num jogo, ainda para mais sabendo-se que o treinador francês Rene Hervin, se tinha recentemente despedido dos comandos da selecção, porque a federação angolana de futebol não tinha dinheiro para lhe pagar o salário.

Responsáveis governamentais pela organização das celebrações vieram a terreiro justificar-se de que dispunham de cerca de 10 milhões de USD para o conjunto das celebrações e que, por outro lado, parte dos custos envolvidos na deslocação do Benfica terá sido suportado por empresários locais que nutrem uma particular simpatia pelo clube português, entre os quais se destaca o antigo CEMGFA general João de Matos, sobejamente conhecido pelo seu benfiquismo . Ou seja, feitas as contas, o jogo teria custado aos cofres do Estado “apenas” um milhão de dólares o que representava 10% do orçamento total para a comemoração.

O enviado especial do Aventar em Luanda, tentou recolher ao longo do dia do jogo (ontem dia 10) vários depoimentos de representantes da sociedade civil angolana, que nos fornecessem pistas que pudessem esclarecer os nossos leitores quanto ao aparente paradoxo de se convidar o suposto clube de eleição do regime salazarista no âmbito desta celebração.

Um antigo combatente do Mpla na luta de libertação (que nos pediu anonimato por hoje ser um elemento muito crítico do partido a que pertence) explicou-nos existiram vários factores. Em primeiro lugar, as vitórias europeias do Benfica nos inícios dos anos sessenta, coincidem com o início da luta pela independência. Ora não só jogavam vários negros, como a estrela daquela equipa da Tuga era um negro – referia-se a Eusébio- mas sobretudo era capitaneada por outro negro – o Coluna. Para ele, este facto tinha um significado simbólico profundo naquele contexto histórico, o negro não só era o melhor como também podia mandar.

Por outro lado, sublinha o antigo guerrilheiro, o adepto português do Benfica possuía uma cultura mais adaptada ao contexto africano. De facto, enquanto o adepto sportinguista era muito elitista, por vezes arrogante, os portistas (para além de serem em muito menor número) expressavam-se de uma forma muito rude, por vezes malcriada, o que em Angola é muito mal visto. Não quer dizer, que não houvesse boas e más pessoas em todos eles, sublinhou, mas de facto, de uma forma geral o benfiquista era menos arrogante que o sportinguista e expressava-se de um modo menos rude que o portista, factores que iam ao encontro da mentalidade do africano.

Um jovem intelectual, docente universitário, por sinal adepto do FcPorto, deu-nos pistas para compreender porque é que passados trinta e cinco anos continua a existir uma forte identificação entre os angolanos e o Benfica. Para além do factor geracional, isto é, a transmissão de pais para filhos, houve na última década, o factor Mantorras. Este jovem nado e criado no contexto da guerra civil, chegou, viu e venceu na Tuga através do Benfica, o que teve um efeito extraordinariamente mobilizador entre a juventude angolana. Para o jovem do Sambizanga (de onde Mantorras é proveniente), do Prenda, do Rangel ou do Cazenga, o exemplo de Mantorras no Benfica, constituía uma das hipóteses fuga à sua condição miserável. Apontámos o facto de que Mantorras foi sempre uma promessa adiada, que, por força das lesões nunca conseguiu cumprir com o seu potencial.

Referiu que aí existe uma postura dúbia: por um lado, muitos acham que o Benfica estragou o Mantorras, culpando-o por todos os males que lhe aconteceu, mas ao mesmo tempo reconhecem o tratamento subsequente que recebeu, quer da parte da direcção, quer, e sobretudo, da parte dos adeptos. Para este jovem portista angolano, grande fâ do Mourinho, a estratégia adoptada por alguns treinadores do Benfica que punham o Mantorras a aquecer sempre que precisavam arregimentar o público da Luz, teve um efeito mobilizador muito maior que as vitórias europeias do FcPorto.  Tocava fundo nos corações dos angolanos, ver na Tuga um estádio de pé a bater palmas, exigindo a entrada em campo do puto do Sambila. E de facto, sublinha, um dos factores da vitória do Benfica em 2004-5, foram os cinco minutos finais com o Mantorras.

Quisemos então ir ao estádio e assistir ao jogo. Deparámos com uma dificuldade insuspeita à partida. Pensávamos nós que a aderência não seria grande. Mas de facto, apesar do custo dos bilhetes (cerca de 10euros, o que é muito para as camadas populares de uma das cidades mais caras do mundo), o facto é que não os havia disponíveis. Felizmente, dias antes tínhamos conhecido pessoalmente o Sr. Mário Dias, antigo dirigente do Benfica, responsável pela construção do novo estádio da Luz, que , sabendo do nosso interesse, teve a amabilidade de poucas horas antes do jogo disponibilizar alguns bilhetes, sem que o tivéssemos solicitado, refira-se. (continua em próximo post)

Comments

  1. Ricardo Santos Pinti says:

    Muito bom! Digno de um excelente correspondente do Aventar.


  2. O Benfica tem, portanto, a culpa de ser um clube de que os portugueses da Metróple e das Colónias gostavam, e de ter tido a sua época áurea nos anos 60? Felizmente o Povo angolano e português não têm desses ódios, e continuam a saber separar amizade, convívio, futebol; da porcaria da Política.

  3. Arminda says:

    É uma ofensa para todos, principalmente para os pretos, que não gostam dos Portugueses.

  4. editor69 says:

    Quando a estupidez tolda a inteligencia…
    o clube do regime opressor e colonialista…e os angolanos celebraram ferozmente os dois golos contra a sua selecção.
    Pois…é!

  5. Miguel Dias says:

    Só uma correcção caro editor69. Os angolanos não celebraram ferozmente. Não houve qualquer tipo de ferocidade naquele estádio, à excepção de uma fugaz entrada da polícia de choque perante a pacífica invasão de campo já no final do jogo, de que aliás não resultou nenhum episódio de violência. Os angolanos celebraram só!
    Quanto ao resto remeto a si e ao comentador G Castro para a adenda entretanto publicada que penso permitirá desfazer alguns equívocos.
    Quanto à senhora Arminda registo que escreve pretos com minúsculas e Portugueses com maiúsculas.

  6. A. Pedro says:

    Miguel,
    os brancos – para utilizar a terminologia e generalização da Arminda (não a minha)- conseguem ser muito estúpidos.
    E eu, já agora e usando a tua ironia, também sou bastante fascista.
    E como não gosto de generalizações, aproveito para dizer que as invasões de campo que vi em África, ao vivo, foram sempre de festa e alegria. Não generalizo porque pode ter havido algumas (que eu não vi) violentas e odiosas. E também nunca vi petardos, pedras e bolas de golfe, por exemplo.


  7. Espero que o LFV tenha enchido os pneus. O país precisa de divisas.

  8. Joao A. says:

    Qual o estádio que foi inaugurado a 28 de maio?
    (não foi o estádio da luz)
    Qual o clube que por duas vezes apenas se qualificou para o nacional da 2ª divisão o que obrigou o ministro dos desportos ou equivalente a alargar a 1ª?
    (não foi o clube que teve dirigentes como Candido de Oliveira e Borges Coutinho.)
    O Ricardo não melhora a reputação avalizando falsificadores da História. Já basta o gajo do Topo Gigio.

  9. Ricardo says:

    Eu não sou nenhum intelectualoide, mas penso. Sou até bastante simplório nos meus pensamentos. Se o clube do regime era o Benfica por ter mais adeptos, cruxifiquem-no… Mas quando vejo certos tipos a referirem-se ao “clube do regime” (especialmente na tv) de uma certa maneira, com um sorriso irónico, isso só quer dizer uma coisa: destilam inveja. Mas inveja do quê? Do que é que têm inveja???

  10. Elias, o Gnomo Coxo says:

    Por amor de Deus! O Benfica ganhou tantos títulos antes do 25/4 como depois. Tudo o que teve sucesso antes do 25/4 é “colonialista” e “fascista”? Quem fez muito sucesso após o 25/4 foi o Porto, metido em tudo o que é corrupção, como todos nós sabemos e está provado e comprovado, só não sendo punido porque este é um país de opereta. Nisso estamos como os angolanos, nas mãos do súcialismo.

  11. Ricardo Santos Pinto says:

    João A., não sei se o seu comentário é para mim, mas parece-me que sim.
    O texto é escrito por um benfiquista que muito prezo e, como ele próprio diz, na primeira parte do texto está a ironizar.
    Quanto ao FC do Porto, que é o clube a que se está a referir, sempre lhe direi que é verdade que uma vez o clube não se qualificou para o Campeonato Nacional e que foram os outros clubes, dada a importância do FC do Porto na altura, que solicitaram a sua integração no Nacional. E não é que no final o FC do Porto sagrou-se Campeão Nacional?
    Quanto ao Rui Guedes, «o gajo do Topo Gigio» (parece-me que um morto mereceria mais respeito, mas enfim…) descobriu, efectivamente, que o FC do Porto foi fundado por António Nicolau de Almeida em 28 de Setembro de 1893, como se pode ver numa notícia publicada no dia seguinte pelo «Diário Ilustrado» de Lisboa. Mas o Rui Guedes também descobriu coisas interessantes sobre o Benfica e o Sporting.

  12. Joao A. says:

    Meu caro Ricardo Santos Pinto,
    não sabia que o Rui Guedes tinha morrido, o que naturalmente lamento, mas não vejo nenhuma razão especial para ter mais respeito pelos mortos do que pelos vivos.

  13. Ricardo Santos Pinto says:

    Ok, João A.
    Tem razão, Elias Coxo. E, pelo caminho, o FC do Porto também comprou as 6 Taças Europeias que ganhou nessa altura.

  14. Elias, o Gnomo Coxo says:

    1 – Até parece que não se compram árbitros nas competições europeias 🙂 O Benfica, quando era o clube do tão internacionalmente odiado regime, ganhou troféus internacionais, apesar da vontade internacional de que assim não fosse.

    2 – Ainda que tenha ganho troféus internacionais de forma limpa (o que duvido), isso não apaga o FACTO de o Porto ser um clube corrupto.

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