o pequeno pecador

Retirado do meu livro de 2008: A ilusão de sermos pais

Wagner – Die Walküre: “The Ride of the Valkyries” (Boulez)

Olhos felizes, sorrisos brilhantes. Silêncio no beijo. Respeito na carícia. Uma mão doce a percorrer o corpo. Suavidade, ternura, sedução. Silêncio: uma criança está a ser projectada. O imaginário de dois, transferido a um entre momentos de sedução, brinca e pensa: como é que será, os teus olhos, a minha boca, o teu andar? A felicidade prometida no Jardim do éden, a felicidade que nasce nesse primeiro encontro? Quando um corpo chama o nosso, faz sentir a nossa pele rizada, a querer correr dentro da outra uma e outra, e outra vez, com doçura, com respeito, com a alma a brilhar [166]. A paixão. O amor. O presente dos novos, o futuro dos velhos. A lembrança dessa outra pessoa que nos faz sentir a alma quente e terna, a cabeça perdida, ideias que iluminam e aquecem a tarde de um Domingo de Inverno. O Jardim de

éden. O paraíso antes, durante e depois do tema que nos leva a estas ideias: a glória de sermos pais…um dia, em breve. Já: «  À partir du moment oú on est deux (couple), on est déjá trois, même si l”enfant n”est pas encore pensé consciemment. Il y a toujours dans le désir d”avoir un enfant un besoin personnel á assouvir »[167] A afectividade apaixonada faz-nos sentir a urgência de nos projectarmos e eternizarmos dentro de um outro ser humano, porque o nosso amor é tão grande, que dois não são suficientes para poderem guardá-lo. Eis o motivo desta frase e de todo o texto que citei no princípio da Lição IV.

A afectividade apaixonada é um conceito pouco usado entre os analistas que procuram uma outra parte do texto citado, para podermos começar no Jardim do éden. Eis o motivo do meu título. A realidade contextualiza o amor, trava a paixão e faz andar pela vida como se o cuidado de olhar nos olhos do outro pudesse perder-se ao entrar um terceiro na relação a dois. Um terceiro desejado pelo par, parte de si próprio, plenitude dos laços de ternura com espaço afectivo para os cobiçar para nós e guardá-los dos outros, sentimentos mútuos de paixão materializados num novo ser,que passa a ser querido, mas dentro de uma grandiosidade que apenas García Márquez é capaz de descrever para uma emoção, como o amor que descreve á Mama Grande, sem romance, sem a primeira sedução que muda para outras hierarquias: ” Poco antes de las once, la muchedumbre delirante que se asfixiaba al sol, contenida por una elite imperturbable de guerreros uniformados de dormanes guarnecidos y espumosos morriones, lanzó un poderoso rugido de júbilo. Dignos, solemnes en sus sacovelas y chisteras, el presidente de la república y sus ministros; las comisiones del parlamento, la corte suprema de justicia, el consejo de estado, los partidos tradicionales y el clero, y los representantes de la banca, el comercio y la industria, hicieron su aparición por la esquina de la telegrafia. Calvo y rechoncho, el anciano y enfermo presidente de la república desfiló frente  a los ojos atónitos de las muchedumbres que lo habian investido sin conocerlo y que solo ahora podian dar un testimonio verídico de su existencia. Entre los arzobispos extenuados por la gravedad de su ministerio y los militares de robusto tórax acorazado de insignias, el primer magistrado transpiraba el hálito inconfundible del poder…la mama Grande estaba entonces demasiado embebida en su eternidad de formaldehído para darse cuenta de la magnitud de su grandeza…estaban asistiendo al nacimiento de una nueva grandeza. Ahora podía el Sumo Pontífice subir al cielo en cuerpo y alma…” [168]

Esta transferência do amor á mama grande para o encantamento das actividades do imenso grupo social é uma análise da paixão que acontece entre seres humanos. A Mama Grande era amada, temida, esperada, respeitada, obedecida, desenhada, a sua palavra era um Edito á Justiniano, as suas ideias eram lei e não havia rapariga que puder mexer sem o seu conhecimento nem homem a agir sem a sua autorização. Como o bebé que nasce na ideia dos pais, sem os pais cultivarem primeiro um carinho calmo e sereno entre eles, que possa levar a separar duas actividades que os teóricos e a lei esquecem: a de pais e a de cônjuges, como me ocorrera um dia escrever[169]. Os pais são os ancestrais das crianças, devem-lhe carinho e cuidados, alimentos, estudos e novas ideias, dentro de uma relação que, até hoje me parecia eterna; os cônjuges, são apenas os amantes de olhos nos olhos que podem durar até ao dia da morte de um deles, podem ou não ser pais das mesmas crianças, ou podem, recorrer á nova instituição denominada divórcio, lei que não existe para separar a paternidade da filiação, excepto nas heranças, mas não na consanguinidade. Um matrimónio pode ser desfeito, uma paternidade dura até que permaneça na lembrança do último parente conhecedor dessa paternidade – maternidade, ou as fotos, ou a árvore genealógica, no carinho e na lembrança. Na materialidade dos afectos. O que o autor nos ensina é a passagem de sensações e carinho de uma actividade a outra.

É o que Guthrie nos diz no texto francês até agora comentado: «Travail de séparation. Les parents confrontent l”enfant imaginaire á l”enfant réel. Un processus de deuil commence. L”enfant existe. Le processus de deuil doit être achevé á l”accouchement. L”enfant naítra réel, autonome et différent. La femme pense á son accouchement, craint les douleurs, le risque de l”enfant mort-né, ou anormal ». O trabalho de separação mencionado é uma realidade, um golpe da realidade, o começo da análise da diferença entre a criança imaginária, idealizada pelos progenitores para complementar uma falta de acompanhamento entre os pais, essa ideia de Criação que parece estar no pensamento de todas as culturas, como Alice Miller e Françoise Dolto analisam: o luto pela criança aparece, começa, porque o ideal não existe mais e o que nasce passa a ser um problema quer para a casa, quer para a vida social e, ás vezes, o motivo do afastamento dos cônjuges por serem progenitores [170]

Este tipo de análise fazme pensar a ideia central da nossa cultura o nosso comportamento e o comportamento regulamentado quer pela lei, quer por textos sagrados que, dentro da cultura, têm força de lei. O próprio Wilfred Bion começa a analisar as formas pelas quais uma criança pode passar a ser um torvelinho no meio dos outros e no meio dos adultos. Se lembrarmos bem, Bion propõe que todo ser humano é uma finitude ou é finito, um 0, do qual se parte para aprender com a experiência. Por outras palavras: nas formas religiosas de entender a mente de Wilfred Bion, todo ser humano está subordinado a grupos, de cuja experiência aprende, como definia ao ser ainda discípulo de Melanie Klein nos anos 40 do Século passado [171]. Texto no qual propõe que o entendimento dos fenómenos sociais são possíveis na medida de que o inconsciente é revelado entre todos e fazem História ou consciente, o que denomina a Quinta Hipótese. é a ideia para entender as formas de tratar as pessoas, entre as quais as crianças que, como Klein[172] já propunha, funcionam melhor em grupo, especialmente do mesmo tipo de origem. O infinito pode ser trazido ao finito por meio do grupo, como explica em outro texto já citado, Learning from experience de 1962. A criança é essa finitude que dentro do grupo familiar pode ter memória e perder a ideia de plenitude e omnipotência que as caracteriza, quando separadas da sua família. Se assim não acontecer, a criança pode desenvolver uma neurose uma histeria para chamar a atenção dos seus adultos. Quase era possível afirmar a partir do texto citado de Klein, que em grupo há possibilidade de entender a realidade que existe para a menina que relata no seu texto de 1946. A criança exibe um comportamento que ela denomina posição paranoide, relativa ao facto de não se sentir amada pela mãe, não ter acesso ao seio e ao seu alimento, e que é através do jogo e da brincadeira com ele – a criança é um menino – que consegue entender o sentimento de perseguição que os grupos lhe causam. Porque as crianças têm um superego – uma memória de si próprias e um auto estima bem maior do que a dos adultos, sem ter vergonha de confessar o que não lhe parece claro. Este facto faz mal ao adulto, incapaz de sentir uma realidade perante si sem ter que disfarçar por motivos de interacção social. é preciso recordar que os factos se desenrolam na época da guerra, ao pé do que Freud denomina Thanatos[173], é dizer, o princípio não refutado da procura do prazer e da alegria, de vida, que crianças como Richard está a procurar. Bion, desenvolve a ideia de que as crianças dentro do jogo de História desenvolvem o problema muito complexo e preocupante para os pais de trazer o infinito para si e desenvolver o sentido do poder e da omnipotência, que causa estragos entre a população não apenas infantil ela própria, bem como entre crianças e adultos. A criança não obedece ás ideias dos seus pais por pensar que estão enganados e eles, os mais novos, têm a razão. O próprio Bion desenvolve uma ideia a partir deste facto e a sua hipótese do saber 0 ou infinito e o saber finito que as pessoas têm e diz que ter grupo, é ter uma mente e a criança, que entre eles, tem um grupo mais semelhante entre si do que os grupos adultos. Os adultos têm uma epistemologia de opção de cálculo e lucro, como mencionei no Capítulo II e a criança tem em conta a emotividade e o que pode ganhar com uma manipulação da mesma[174]. A mente da criança fascina Bion, que de imediato retira mais um saber sobre os mais novos rebeldes com os adultos: “When two characters or personalities meet, an emotional storm is created. If they make a sufficient contact to be aware of each other, or even to be unaware of each other, an emotional state is produced by the conjunction of these two individuals, these two personalities, and the resulting disturbance is hardly likely to be something which could be regarded as necessarily an improvement on the state of affairs had they never met at all. But since they have met, and since this emotional storm has occurred, then the two parties to this storm may decide to “make the best of a bad job” [175]. Esta citação acrescenta ideias sobre o nosso jovem pecador. Porque o texto de Bion permite, muito embora não tenha falado directamente e exclusivamente de crianças, dar uma ideia bem mais importante do que Klein já tinha definido ao falar das reacções próprias dos mais novos: o afastamento de uma forma de comportamento esperada destes pequenos, normalmente de união com adultos, subordinação aos mesmos e aceitação do que os mais velhos dizem. Das análises feitas por estes eruditos, é possível aceitar a afirmação de Bion que refere que a verdade é um facto contingente – não fixo, não provado – mas fundamental. Fundamental porquê? Porque reflecte a forma cultural de entender o contexto da verdade que está definido pelo acontecer histórico que resulta da passagem do inconsciente á História e do consciente ao factual quotidiano. Como diriam Freud e Bion: o primeiro, a verdade é o prazer; o segundo, a antítese de escolher o sofrimento para entender a verdade do infinito e poder preencher os Alfa e Ómega da realidade quotidiana. Conceito vazio na cabeça dos mais novos, que acabam por tomar os seus posicionamentos, bem longe do que os adultos iludidos esperavam na ilusão da paixão, como foi descrito ao começo, quase como num conto de fadas. A procura do sofrimento, de que fala Bion,para explicar a verdade, não é gratuidade: permite o crescimento mental na procura de saber encontrar um caminho alternativo á frustração. Se Freud falava de Eros e Thanatos, Klein de posicionamento paranoide e esquizoide – note-se bem, não de paranóia ou esquizofrenia – Bion de procurar alternativas á frustração, podemos concluir perante estas três ideias básicas para a terapia dos nossos dias que o acusar os pequenos de querer matar ao pai, ter ciúmes da mãe, sentir perseguição da família, pretender omnipotência, são realidades bem mais positivas que revelam uma mente infantil capaz de crescimento e não de doenças ou dos modelos neuróticos que Alice Miller critica no seu livro sobre O saber proscrito, várias vezes citado[176].

é fascinante aplicar o saber de Freud, Klein e Bion ao entendimento de um ser humano que, nos seus curtos anos, é considerado um pecador. As análises revelam a possibilidade, a realidade diria eu, de seres que, desde a sua existência dentro do líquido amniótico pensam, sentem, têm emoções, choram, decidem. Aprendem a optar a ter autonomia. Sobre esta temática, a melhor análise e o texto Inveja e Gratidão de Klein, base das ideias de disciplina religiosa de Bion no seu Attention and Interpretation, debate que define o comportamento como ideias partilhadas, ou em harmonia ou em desencontro, por muitos, uma religião como o autor denomina, sem entrar pela teologia ou o Direito canónico ou a catequese, procura como John Locke[177] no seu um Tratado sobre a Tolerância baseado nas suas observações de crianças e sobre teologia, que era o seu domínio,[178] apenas usa o método e o estudo de crianças em clínica.

Não é o caso de Bion nem o de Freud ou o de Klein, entre outros. Sim, usam os elementos da teoria cultural, cuja lógica da cultura é a religião, mas a definição é diferente. Enquanto os Locke, os William of Ockam, os Henry Bergson, outros, incluindo os economistas Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, Marquis de Condorcet, François Quesnay, Adam Smith, James Mill, Alfred Marshall, Lord John Maynard Keynes, até o Socialista David Ricardo em 1823, procuram um saber do real na base de uma religião orientada pela divindade, pelo totem que colabora com o lucro e ajuda a guardar a mais valia retirada ao operariado dos seus povos, como tenho analisado no meu livro no prelo A Dádiva, essa grande mentira social. A mais valia na reciprocidade, Afrontamento, Porto, e menciono no Capítulo 1 deste texto. Bem longe do caso, claro está, de émile Durkheim e Marcel Mauss, fundadores do Marxismo-leninismo francês e colaboradores de Revolução Soviética, como é possível ver em todas as suas obras. Freud por seu turno define religião como foi dito e, no entanto, baseia-se na mesma para entender a mente e a procura da felicidade na interacção social que Bion define em 1970 como ” um pensamento de modelos de seres humanos, criaturas de intencionalidade que transcende as necessidades físicas imediatas e permite actos pessoais de compensação como a meta emocional e cognitiva que procura o ser humano, para acrescentar que usa a notação 0 para indicar a realidade última, representada por termos como realidade última, verdade absoluta, a deidade, o infinito, a coisa – em – si[179]“Esta deidade não é ritual nem faz milagres, apenas um conceito que indica que entre todos os seres humanos, há uma procura de saber para fazer – contrário a Aquino em 1275, ou Averröes dois Séculos antes entre os Muçulmanos que já tinham tudo definido pela cultura revelada e o denominado Direito natural, estes intelectuais estabelecem um diálogo com uma mente em branco, e denominam divindade a procura do fazer a seguir ao entendimento dos factos. Não é em vão que Freud denomina um dos seus textos – revisto por ele em francês – Psychopatologie de la vie quotidienne[180], muito embora analise a masculinidade de Moisés e a sua capacidade de ditar leis e obrigar a cumprir. Ou o comentário de Melanie Klein de ser indiferente a religião e filosofia, mas nada oposta a análises que permitem, como já referi.

A análise do presente texto pretende salientar a liberdade que existe entre adultos e crianças no que diz respeito ao comportamento. A criança manifesta um pensamento autónomo, o adulto está contextualizado pelas necessidades de complementar a sua vida social na base da crença e do sentimento de fé. A criança procura o infinito, o adulto complementa o finito, como refere Georges Devereux[181]. O terapeuta húngaro discípulo de Marcel Mauss e analista dos Mohave nos Estados Unidos, enuncia muito claramente uma proposição que permite a criação da análise etnopsicológica da infância: “Le monde extérieur existe; Il est plus commode de supposer que le monde extérieur existe”[182] Qual a brincadeira do fundador? “…toute étude trop poussée d’un phénoméne. […]… le détruit…[183]” A questão é simples. Perante um facto, é preciso encontrar uma outra alternativa que prove este facto: há a forma de comportamento social de um grupo, mas há também as regras, os fundamentos concretos que constituem a realidade desse agir. é o caso não só dos Mohave, estudados por Devereux[184], mas o de qualquer ser humano como podemos inferir das palavras do próprio autor que diz que um ser humano pode dizer que faz o que faz, mas que como em mecânica, ideia á qual estava ligado por amizades, é preciso ter a constatação, e essa é trazida ou entendida na medida em que as normas de comportamento são relatadas. Mas, corresponde ao observador viver e conviver com, no caso de Devereux, os Mohave, para entender o sentido das normas, as palavras, a sua semiologia. Tal como se faz na análise dos mais novos que ele estuda ao analisar sentimentos e ao entender os motivos das trocas, bem como as preferências afectivas dos habitantes da etnia, na qual mora vários anos, até entender as formas analíticas dos nativos para entre eles, se entender e é o que tenta explicar ao mundo externo, mas não tem consequências.

O mesmo se passa no caso de Malinowski e as suas análises dos habitantes das Ilhas Kiriwina, na Melanésia. A Diferença é que Malinowski faz etnografia, enquanto Devereux também faz psiquiatria que, por causa de entender o real, e pelas análises feitas com Marcel Mauss, é levado a um estudo que, hoje em dia nos é de grande utilidade: juntar duas ciências para entender as normas de conduta. E é assim que as crianças Kiriwina, como as Mohave, têm os seus próprios pecados, que passamos a ver. Malinowski, como os autores terapeutas, debate com outros. Devereux complementa duas ciências dentro da sua própria análise. Eis o motivo que não permitia á Antropologia entender os mais novos: analisar uma norma com apenas uma ciência, a da cultura, não permite ver as alternativas de auto estima e de ego forte dentro das crianças, mais do que entre os adultos. Devereux compara ele próprio com duas ciências diferentes; Malinowski dispõe de apenas para uma e as pessoas ficam relatadas, mas não analisadas.

Os pecados de crianças de grupos sociais diferentes do nosso – e falar de diferente do nosso é já um problema: o nosso grupo é de uma alta heterogeneidade erudita, de capital, de tecnologia, de mais valia, como comentei com os textos de Marx do Capítulo II – são diferentes. Gunther, no seu texto de Infirmerie que tenho usado, introduz todas as ideias do casal que idealiza uma criança e a seguir sofre os resultados de ter, em frente de si, como Bion, Freud e Klein e os outros testemunham, provam, argumentam, uma mente desenvolvida, crescida, que desafia se for preciso aos seus adultos.

Nos casos Picunche que tenho estudado[185]toda criança é descendente de uma família certa, com um pai e muitas mães. Todos eles são parte do que denomino da cultura adequada por receberem cuidados e carinhos da população toda, por estrato social. Um inquilino, isto é, o filho de um trabalhador da terra, não entrariam na casa de proprietários de recursos maiores ou de famílias estimadas descendentes de Conquistadores, excepto nós, Antropólogos…A exogamia é o centro das relações de acasalamento, uma exogamia consanguínea, baseada na lei civil e no direito canónico, até ao segundo grau de parentesco – primos com primos, como se denominam os filhos de irmãos, procuram uma união matrimonial que junte riqueza investida em terras, minas, animais, pesca, barcos. A exogâmia Picunche é de alta conveniência e permite juntar seres humanos que passam a ser parentes, sejam Picunche ou Huinca[186] O pecado do édipo não parece existir e as relações pedófilas, incestuosas, paternas – filiais, são parte do comportamento de um povo clãnico em extinção, que tenta, por todos os meios, guardar a sua História. Factos que constam desde antigamente e que não foi possível comprovaremse por falta de textos escritos[187]. Ou, talvez, por falta de encontrar mais textos escritos, escondidos apressadamente no tempo de expulsão da Sociedade de Jesus do reino de Espanha, do qual os Picunche, sem saber, faziam parte. Como hoje, fazem parte do povo do Chile. O ódio ao pai, os ciúmes da mãe, desejo sexual escondido de um rapaz por causa de uma fêmea do parentesco, entre os Picunche, não me parece ter encontrado apesar de ter analisado o grupo com terapeutas e outros especialistas. A lei, que pune o incesto, é manipulada pelas autoridades Picunche, incestuosas elas próprias.

é-me impossível deixar de relatar o facto de ter ficado surpreendido ao saber que uma rapariga membro do meu grupo tinha sido “violada” pelo pai. E assim, me foi relatado pela maior parte da criançada que, em vista do meu espanto acrescentava todas as histórias possíveis e que analiso com as teorias de Freud e Klein no meu livro do ano 2000, citado e comentado também neste texto. O adultério faz parte das formas matrimoniais e a lei permite – há uma lei para os Huincae outra para os nativos – muito embora o facto seja mantido em segredo ou não referido a estrangeiros como eu, até sermos íntimos ou do Oficial do Registo Civil, do Padre de Paróquia que vive como Picunche, ou de famílias com as quais tenho contacto por ser Doutor – eles não sabem doutorado em quê, se em doenças infecciosas ou qualquer outra especialidade. A masturbação não apenas faz parte dos hábitos, como é pública entre rapazes com ejaculação, e simulada pelos mais novos que desejam ser pessoas de mente crescida. A libido erótica caracteriza as relações dentro destes espaços abertos e desolados, de quilómetros imensos de largura e de isolamento de casas: os vizinhos podem viver numa vila como a que eu analiso, Pencahue, ou como Ranço do Ditador onde passo, ou isoladas a quilómetros de distância. Penso que referi no texto de 1998, o isolamento da Tia Juana, que tinha tido um filho com o seu irmão mais novo que, mal nasceu a criança, desapareceu dentro de um matrimónio de entre os vários que podem ter, excepto com a irmã consanguínea. Se tenho afirmado que o incesto existe, ele é um facto. é preciso ser responsável pela ética das pessoas da mesma casa, sempre em perigo de incesto para a moral, ou o facto é aceite e a criança passa a ser mais um irmão com o nome do avô, ou a rapariga é punida e nunca mais tem um homem com ela, excepto o fruto do seu ventre, que pode ser treinado na vida erótica pela própria jovem mãe.

Para conhecer estes factos, públicos entre os membros de um povo da montanha, tive que ter a paciência de ver, ouvir e calar até saber dos factos por espreitar conversas e atacar a seguir as pessoas mais amigas, com a minha descoberta. Como tive que atacar um número de docentes a terem relações com discentes adolescentes, que na Europa e no Chile é denominado homossexualidade, até reparar, para minha lição e grande vergonha, que a relação entre adultos e rapazes era parte dos rituais de iniciação para assegurar a continuidade do grupo…excepto se, como diria Freud no texto citado de 1907, a opção do mais novo é pelas pessoas do mesmo género e, ou praticam a prostituição, ou procuram outro companheiro com o qual vivem dentro da vila. Sobre estes casos, nunca houve mais comentários que os que eu próprio despertei com as minhas inquirições de trabalho de campo. O pecado mais corrente entre uma população que orienta o seu comportamento pela libido erótica definida por Freud, é a luta entre pessoas ciumentas, como presenciei no caso de um rapaz que vivia com outro, mas também tinha filhos com uma rapariga sua vizinha. As facas dão voltas entre todos eles, bem como socos e raivas e desprezos e bisbilhotar.

Que parece ser? Um povo com a ilusão de serem pais, apenas por serem pais uns dos outros? Ou um povo Histérico?[188]Ou um povo que procura o prazer definido por Freud em 1895 como objecto de vida e que, como afirmava em 1886 com Charcot em Paris, precisava de psicanálise para curar emotividades perturbadas, como diz Freud ao definir o conceito?[189] Quer Géza Róheim, já referido, quer Gilbert Herdt[190], quer ainda o analisado Georges Devereux, têm experimentado aplicar a teoria psicanalítica a povos não Ocidentais, sem maior resultado. Como experimentou Maurice Godelier[191] no seu livro de 1981 e que acabou na análise do comportamento ocidental sobre sexualidade e filiação. é esse o elo analítico de Malinowski, que debate o complexo de édipo, que passamos a estudar, em conjunto com as ideias sobre o édipo Ocidental e o anti édipo da Melanésia, entendido por meio das formas complementares da cultura, ou análise a partir de duas ciências que suplementam o saber das normas, como referia Georges Devereux nos seus textos sobre os Mohave[192].

Bronislaw Malinowski, Polaco – Austríaco, que refunda a Antropologia Britânica, interessa-se pelas formas de troca de povos sem mercado e, antes ainda, pelas formas de organizar a reprodução em grupos sociais não europeus, ao escrever a sua tese doutoral em Antropologia em Londres, em 1913, sobre The Family Among the Australian Aborigines[193], certo de que era uma família monogâmica, nuclear e regida pela lei que governava a Melanésia, a Coroa Britânica. Em procura de prova certa, compara – o método que cria – estuda um outro, denominado The Natives of Mailu, de 1915[194]; em ambos os livros fala de pais e filhos, rituais de iniciação e, especialmente, a autoridade pater famílias, no seu ver, aí existente. Era a época em que existia a ideia do mundo estava a mudar assim como as formas diferentes ou semelhantes do acasalamento para a reprodução humana – conceito usado por Malinowski pela primeira vez e definido por ele e usado sem citação até hoje. E o mundo começou a mudar, o Rei da nova Alemanha, declara a guerra, Malinowski é um inimigo e é transferido para a Austrália para trabalho de campo. A sua surpresa é grande ao reparar que a família Australiana, na época em que nenhuma família escapava á análise feita ou por Durkheim ou por Freud, ou pelos alemães como Thurnwald no Estreito de Torres, Boas no Canadá, os Ingleses Haddon e Seligman, mais tarde Gregory Bateson entre os Iatmul da Nova Zelanda, Reo Fortune entre os Dobu Kiriwina, Raymond Firth com os seus parentes maori da Nova Zelanda, Ruth Bennedict entre os Japoneses e entre os índio Pueblo do México, Margareth Mead primeiro entre os Dobu e a seguir entre os Mundugumor e Arapesh da Polinésia, todo o mundo corre para ver como é que era e como vai deixar de ser. E Malinowski encontra a família Melanésica de uma forma muito diferente daquilo que se tinha falado. O seu primeiro objectivo, foi tentar entender se era possível funcionar de forma económica sem mercado, ideia retirada do seu Mestre Marcel Maus e do mestre do seu Mestre, émile Durkheim, que mais tarde tiveram que reconhecer que não existia grupo social sem troca, como refiro no meu livro de 2002 e no que está no prelo sobre a Mais Valia na Reciprocidade, esse conceito Freudiano de 1906 que refere a troca de amamentar e de carinho entre a criança e a sua mãe, até á idade dos seis meses, como já referi que analisou Melanie Klein. Um conceito emotivo e romântico, que Malinowski retira dos textos de Freud de 1906 e de 1913 e aplica ás relações de mercado como um dar para receber e devolver, como a mãe que dá o leite, o bebé recebe e em troca, dá carinho e ternura. [195]  Análise que nem Malinowski nem a sua escola ia fornecer, apesar de ter estudado de forma importante as trocas que o Kula permite: objectos, pessoas, aliança para a defesa, ataque em caso de guerra, carinho, acasalamentos, emotividade, ou uma forma especial de carisma, denominada mana. Um mana que existe entre os que mais sabem, sejam homens ou mulheres, adultos ou crianças, jovens ou pessoas de mais idade. Esta troca leva Malinowski a duas grandes descobertas: a primeira e que caracteriza a Antropologia Britânica, que o estudo dos seres humanos não é feito como o fizeram os seus mestres anteriores, que nunca foram ao terreno, era necessário partilhar o dia a dia das pessoas e entrar pela vida dos Massim da forma que eles permitiam: aberta, amiga, fraterna, sem segredos nem de tipo íntimo. O Diário de Malinowski assim o diz[196], nunca pensou que os seus relatos seriam tornado públicos quase 50 anos após a sua morte.

A análise do Kula entre os Massim, permite a Malinowski estudar as famílias e a sua forma de serem geridas. Entre nós, o acasalamento tem sido monogâmico, seriado ou não, com adultério ou sem ele, como pedofilia ritual ou emotiva. Entre os Masssim, o autor começa por colocar um problema, após ter abandonado o estudo da economia – um comércio, como diz na página 204 do texto que uso. E o problema aparece já no Prefácio do seu texto de 1926[197]: “Le probléme central de la psychanalyse est celui de l’influence que la vie de famille exerce sur l’esprit humain. Elle nous montre comment les passions, les chocs et les conflits que l’enfant éprouve et subit dans ses rapports avec son pére, sa mére, ses fréres et sÅ“urs, aboutissent á la formation de certaines attitudes mentales ou de certains sentiments permanents á leur égard, attitudes et sentiments qui, tantôt subsistant dans la mémoire, tantôt englobés dans l’inconscient, influent sur toute la vie ultérieure de l’individu, dans ses rapports avec la société. J’emploie le mot « sentiment » dans le sens technique que lui attache M. A. F. Shand, avec toutes les implications importantes qu’il comporte dans sa théorie des émotions et des instincts » E começa logo por debruçar-se sobre o primeiro problema, o famoso problema de édipo e acrescenta : « C’est ainsi que le sociologue estime que le probléme du complexe n’est pas purement psychologique, mais qu’il comporte aussi deux chapitres sociologiques: une introduction faisant ressortir la nature sociologique des influences familiales, et un épilogue contenant l’analyse des conséquences que ce complexe comporte pour la société.[198]

Tenho escolhido, de entre os problemas que o autor define, estas duas citações, porque salienta o papel que Freud sempre ignorou, pelo menos até 1930 e O mal-estar na cultura, porque, apesar de ter analisado as famílias australianas, não reparou na sua estrutura por dedicar a sua análise a conceitos psicanalíticos e não etnográficos, como faz Malinowski. A primeira coisa que o nosso autor faz, é distinguir entre Direito Paterno e Direito Maternal, análise não feita pelos psicanalistas. Esta distinção poderia parecer estranha aos leitores de uma sociedade ocidental, especialmente na época do começo do Século XX, a fonte mesma do Pater famílias, quando no Ocidente, como vimos no C I, a mulher não tem direito a mais que a obedecer ao seu marido e aos seus filhos varões. Temos vivido, e em Portugal ainda vivemos, numa sociedade masculina que acrescenta uma feminilidade servil da mulher para com o marido e os filhos varões e que, na actual independência feminina, faz agir de forma autoritária masculina as senhoras, enquanto homens começam a mudar para formas sedutoras de senhoras e pessoas sem autoridade, como tenho referido num texto meu. [199]

Não é bem este tipo de convívio o que Malinowski analisa: “L’attitude de la femme á l’égard du mari est loin d’être servile. Elle posséde des biens personnels et une sphére d’influence, privée et publique. Il n’arrive jamais que les enfants voient leur pére brutaliser la mére. D’autre part, le pére ne contribue qu’en partie á gagner le pain de la maison, obligé qu’il est de travailler avant tout pour ses propres sÅ“urs, tâche qui – les garçons le savent- leur incombera á leur tour, lorsqu’ils seront grands ». [200]Bem se podia pensar que é por causa de a mulher ser a proprietária dos bens, que a sua atitude é de companhia. é mais a estrutura de constituição da família que permite uma relação da forma que descrevo. O acasalamento não existe como entre nós, a forma de se juntarem casais acontece no dia e momento em que uma rapariga sente que no seu corpo entrou um espírito que habita na Ilha dos mortos ou Baloma[201]e que está a espera de vez para recuperar a vida entre os seus. Os Massim acreditam na reencarnação, mas é uma reencarnação clãnica: o acasalamento é extra – clãnico. Cada clã é um grupo de parentes disponíveis para casar com um membro de um outro clã. A relação de acasalamento é previamente tratada entre o irmão da rapariga e um membro de outro clã, o mais velho parente do homem para onde a rapariga deve sair e alimentar o seu corpo com o sémen do marido e assim organizar o bebé que cresce no seu corpo, resultado dos seus banhos de mar ou dos seus passeios pela praia. Por ser uma sociedade matrilinear, a rapariga sai da sua aldeia ou sub – clã, habita na casa do seu marido, têm os seus filhos e estes, na altura da puberdade, saem para a casa do irmão da mãe que faz o papel equivalente ao do pai na nossa sociedade. Passam a ser seus colaboradores e cuidadores na sua velhice e herdeiros dos seus bens e das mulheres que o irmão da mãe pode ter, tal como o homem da sua mãe têm e das quais também têm filhos, que na puberdade saem também, para as casas dos irmãos de sua mãe[202].

A vida sexual das crianças é de grande liberdade e existe a possibilidade de relações amorosas entre eles, seja de plaisanterie, sedução, brincadeira, ou ainda, de juntar os corpos em fellatio, esfregar um com o outro, masturbação em grupo, ou a uma penetração possível – a criança de três, quatro ou mais anos, tem erecção, prazer e orgasmo, como diria Klein na sua teoria meta psicológica já citada [203], embora não tenha ejaculação, esfregam os corpos como vêem fazer aos adultos com que moram. Para entender essa vida sexual parece-me necessário explicar dois factos: a classificação por idades entre os Kiriwina; e o como é que acontece entre nós, como está permitido termos relações sexuais antes do ritual do matrimónio, ou apenas no dia do matrimónio, e nunca durante a época do contrato de compromisso para o matrimónio ocidental?

Entre nós, os tempos têm mudado, especialmente entre 1895 e o dia de hoje. O que Freud diz de sexualidade infantil, é diferente das análises de hoje.[204]Quer Freud, quer Ferenczi, apesar de hoje em dia se dizer que inventaram a sexualidade infantil a partir de um código de comportamento retirado de vida adulta, analisam no entanto o abuso da sexualidade infantil, que hoje em 2004, tem ficado mais do que provada pelos factos da pedofilia, o fecho de Instituições, o acusar de homens detentores do poder politico de uma sociedade, o tráfico de crianças entre países e famílias, a prostituição infantil, demonstram largamente que os textos sobre abuso infantil destes autores não estavam nada longe do real e dos danos que causava. Diz Freud que o desenvolvimento da sexualidade infantil leva até a denominada “ansiedade de castração”. A comparação do que a criança vê entre os adultos e o seu próprio corpo e possibilidades dentro da sua libido erótica, faz com que o mais novo tenha medo desse adulto que pode violar o seu corpo, fisicamente falando. Como Richard relata a Klein na sua análise clínica já estudada por nós. Não existe apenas desejo infantil ou excitação ou necessidades genitais precoces, mas também comportamento infantil em procura de prazer com adultos, como sugar um pénis de um homem adulto até á ejaculação do adulto, acariciar uma vagina ou brincar com corpos de adolescentes, como eu próprio tenho presenciado no meu trabalho de campo, para o prazer de ambos. é o que o analista denomina sexualidade oral ou anal, entre nós não permitida, ritual entre outros grupos[205]. A sensação de angustia do adulto, tem o seu começo na idade infantil, nas brincadeiras de masturbação em grupo, com amigos ou com adultos, como acontece nos factos observados, especialmente de homens novos com crianças que procuram o seu corpo, viúvas a temer gravidezes não desejadas, sucção de pénis que ejacula e outras actividades eróticas da libido[206]. Actividades que acontecem especialmente em actividades rituais e festivas, na altura em que o adulto tem usado drogas que rebaixam as suas pulsões éticas e a criança confia no adulto por não conhecer essas diferenças entre a vida quotidiana e de trabalho ou em família, e a vida solitária, quando o adulto não resiste conter a sua pulsão erótica e penetra na criança, pelo ânus ou pela boca. Penetração que a criança aceita ao pensar que é emotivamente evidente e permitida, especialmente se o adulto é da sua confiança, conhecimento e proximidade emotiva sentimental, como parentesco, filiação e outras já referidas para outros grupos sociais, tentando ignorar o nosso, hoje em tribunal, enquanto muito adulto anda pelos campos da neuroses.

As formas Melanésicas são de uma outra forma. é preciso entender a diferença de idades para ver as possibilidades das crianças Massim e a sua vida sexual que é conforme a idade e a proximidade clânica e os comportamentos culturais Kiriwina. Malinowski elabora um quadro, antes de falar de comportamentos dinâmicos e proibições[207].

Désignation des âges
1.         Waywaga (fÅ“tus; enfant jusqu’á l’âge oú il commence á se traíner; garçon ou fille).2.         Pwapwawa (enfant, jusqu’á l’âge oú il commence á marcher; garçon ou fille).

3.         Gwadi (enfant, jusqu’á la puberté; garçon ou fille).

1e Phase: Gwadi : mot générique servant á désigner les phases 1-4 : signifie enfant, de sexe masculin ou féminin, pendant toute la période qui s’étend de la naissance á la puberté.
4.         Monagwadi (enfant mâle). 4. Inagwadi (enfant de sexe féminin).
5.         To’ulatile (jeune homme, de la puberté au mariage). 5. Nakapugula ou Nakubukwabuya (jeune fille, de la puberté au mariage). 2e Phase : Désignations génériques : Ta’u-homme, Vivila-femme.
6.         Tobulobowa’u (homme mûr). 6.         Nabubowa’u (femme mûre)
6a.       Tovavaygile (homme marié). 6.         Navavaygile (femme mariée).
7.         Tomwaya (vieillard). 7.         Numwaya (vieille femme). 3e Phase : Vieillesse.
7a.       Toboma (vieillard honoré).

É possível perceber a diferença entre as pessoas, para entender a vida livre da infância, em relação a sua libido parental, amiga, fraterna e, eventualmente, erótica, que Malinowski descreve na página 48 da 2ª parte do texto e que, antes de debater, vou citar um texto comprido:

« Les enfants jouissent aux íles Trobriand d’une liberté et d’une indépendance considérables. Ils sont émancipés de bonne heure de la tutelle des parents qui n’est jamais bien stricte. Quelques-uns obéissent á leurs parents de bon cÅ“ur, mais cela dépend uniquement du tempérament personnel aussi bien des parents que des enfants: il n’existe ni notion de discipline réguliére ni systéme de coercition domestique. Il m’est souvent arrivé, lorsque j’assistais á un incident de famille ou á une querelle entre parent et enfant, d’entendre le premier dire au second de faire ceci ou cela: c’était toujours une priére plutôt qu’un ordre, bien que cette priére fût parfois accompagnée d’une menace de violence. Le plus souvent, lorsque les parents flattent ou grondent leurs enfants en leur demandant quelque chose, ils s’adressent á eux comme á des égaux. Ici on n’adresse jamais á un enfant un simple ordre impliquant l’attente d’une obéissance naturelle.

Il arrive parfois que les parents se mettent en colére contre leurs enfants et vont même jusqu’á les frapper; mais j’ai vu tout aussi souvent des enfants se précipiter furieusement sur le pére ou la mére et les frapper á leur tour. Cette attaque sera reçue avec un sourire indulgent, ou bien le coup sera rendu avec colére; mais l’idée d’une rétribution définie ou d’une punition coercitive n’est pas seulement étrangére á l”indigéne: elle lui répugne. Lorsque je croyais devoir suggérer, aprés un flagrant méfait commis par un enfant, que ce serait une bonne leçon pour l’avenir que de le corriger ou de le punir d’une façon quelconque, en dehors de tout emportement, mon conseil apparaissait á mes amis immoral et contre nature et était repoussé non sans un certain ressentiment.

Un des effets de cette liberté consiste dans la formation de petites communautés d’enfants, groupes indépendants qui englobent naturellement tous les enfants dés l’âge de quatre ou cinq ans et dans lesquels ils restent jusqu’á la puberté. N’écoutant que leur bon plaisir, ils peuvent tantôt rester avec leurs parents toute la journée, tantôt s’en aller rejoindre pour un temps plus ou moins long leurs camarades de jeux dans leur petite république. Et cette communauté dans la communauté n’agit que conformément aux décisions de ses membres et se trouve souvent dans une attitude d’opposition collective aux aínés. Lorsque les enfants ont décidé de faire telle ou telle chose, de s’en aller, par exemple, en expédition pour toute la journée, les plus âgés et même leur chef (j’ai souvent eu l’occasion de le constater) sont impuissants á les en empêcher. J’ai été á même, voire obligé, au cours de mes travaux ethnographiques, de me renseigner directement auprés des enfants sur eux-mêmes et sur leurs affaires: tous s’accordaient á m’affirmer leur indépendance spirituelle dans les jeux et autres activités enfantines et beaucoup d’entre eux ont même été capables de m’instruire en me donnant des explications sur la signification souvent compliquée de leurs jeux et entreprises.

Encore tout jeunes, les enfants commencent á comprendre les traditions et coutumes tribales et á s’y conformer; cela est particuliérement vrai des restrictions ayant un caractére tabou, des dispositions impératives des lois tribales ou des usages relatifs á la propriété [208].

La liberté et l’indépendance des enfants s’étendent également au domaine sexuel. En premier lieu, les enfants entendent beaucoup parler de choses se rapportant á la vie sexuelle de leurs aínés et assistent même souvent á certaines de ses manifestations. A la maison même, oú les parents n’ont pas la possibilité de s’isoler, l’enfant a de multiples occasions d’acquérir des informations pratique concernant l’acte sexuel. Aucune précaution spéciale n’est prise pour empêcher les enfants d’assister en témoins oculaires aux rapports sexuels des parents. On se contente tout au plus de gronder l’enfant et de lui dire de se couvrir la tête avec une natte. J’ai souvent entendu faire l’éloge d’un petit garçon ou d’une petite fille dans ces termes: « C’est un bon enfant : il ne raconte jamais ce qui se passe entre les parents.» On permet á de jeunes enfants d’assister á des conversations au cours desquelles on parle ouvertement de choses sexuelles, et ils comprennent parfaitement le sujet de la conversation. Ils savent eux-mêmes jurer et employer un langage obscéne avec une maítrise passable. étant donnée la précocité de leur développement mental, on entend souvent de tout petits enfants lancer des plaisanteries graveleuses que les aínés accueillent avec un gros rire. »[209]

A ideia da liberdade sexual não acaba com princípios éticos ou aberrações, definida pelos costumes Massim. Há uma lista de “pecados” já não dos mais novos, mas sim dos adultos. Ou foi omitido por Malinowski, ou os comportamentos mencionados para a nossa cultura não aparecem em parte nenhuma dos textos dedicados a vida sexual dos Melanésicos. E, no entanto, lista dos tabus é dura e deve ser cumprida, como na nossa própria cultura, só que os grupos Kiriwina vivem em espaços pequenos, cada casa é parte de uma família e todos os membros que a habitam, acabam por ser parentes que tomam conta uns dos outros. A vida sexual infantil acaba na adolescência, ao começar a época de poder reproduzir seres humanos e a idade do matrimónio aproxima-se, é dizer, pelos 12 ou 14 anos da nossa cronologia. E a lista dos tabus começa, como refere o autor para os adultos, a partir da página 123 e seguintes do texto, com a ideia de “Aberrações” sexuais”, conceito que me faz pensar se estas problemáticas são mais do autor e a sua cultura, ou advêm dos seus livros de notas de trabalho de campo. Do conjunto de proibições, o autor salienta a mais importante no seu debate Freudiano: a do incesto. Depois de ter esclarecido no Volume 1 que o complexo de édipo é um facto possível no ocidente, define, como vários analistas hoje, o édipo como a proibição do incesto, passível entre pessoas de um mesmo clã[210] ou parentesco, semelhante a nossa definição consanguínea. O que interessa neste texto, é salientar não as semelhanças ou diferenças dos autores, mas entender um conceito que é muito ocidental: a liberdade humana, que não é fazer o que se deseja e quando se quer, mas o convívio dentro de normas respeitadas pelas pessoas e que, a não observância dessas normas entre nós se denomina pecado. Ao qual passamos para finalizar este capítulo, por ser uma noção fundamental para entender o conceito da criança pecadora que não aparece em parte nenhuma dos textos malinowskianos.

De uma ou outra maneira, entre um ou outro processo, todos vivemos atados a uma mesma estrutura. Normalmente, denominei a este processo o de a hierarquia parental, esse que faz de nós ascendentes e de outros, descendentes. Os adultos teriam a autoridade, as crianças a obediência. Tem-me sido muito simples dizer, na maior parte do meu discurso, que o mundo está dividido em dois grupos, o do adulto e o das crianças. Tudo isso é a verdade, tudo acontece, há os que têm uma epistemologia desenvolvida nas opções da mais valia, há os que têm a epistemologia desenvolvida nos investimentos emotivos de quem confia, porque toma conta, alimenta, agasalha, faz carícias, ouve, cala e responde apenas se é perguntado. Sim, estamos divididos em duas culturas que procuram formas diferentes de encantar o real e de ser feliz dentro da dor de viver. Essa dor que Bion tão claramente define na sua obra, essa dor ao invés da felicidade que segundo Freud o nosso inconsciente procura num Id esquecido pela consciência do dia de hoje, do dia de ontem, da fadiga do trabalho, do desejo insatisfeito, da alegria que não encontramos. Um dia sonhamos com sermos pais, passado um curto espaço de tempo, quando ainda fica muito de nós para viver dentro de um corpo que vai ficando pequeno, como Úrsula Iguarán de García Márquez em Cem anos de solidão, até ao ponto dos tetranetos brincarem com ela como se fosse um anjo de brinquedo a servir aos nossos ideais e imaginário. Esse nosso corpo que pensa, mas que a matéria faz tulheiro e dentro dessa tulha, a criançada que me importa, vai, enquanto desenvolve a sua epistemologia da afectividade e a subordinação que ajuda á aprendizagem e á reprodução de outros e do saber – continuidade da História como desde Flávio Josefo[211]temos ficado a saber, ou Heródoto de Alicarnaso – á epistemologia da opção do lucro e, por lei de vida encontra uma outra alternativa para a sua reprodução, nós, os adultos que fomos pais, passamos a adultos que perturbamos a nova filiação e devemo-nos desabituar do facto e da ideia de sermos pais. Passarmos do amor paterno, ao abandono celibatário, porque nem para seduzir somos capazes de existir, menos ainda para termos companhia, porque a História passa dentro de contextos diferenciados, com conceitos e comportamentos concebido pelos que foram crianças para fazer do tulheiro, um adulto que entende, aceita, cala e não repreende, definição que dou dessa idade do ser humano. Os melanésicos têm a sua casa para celibatários [212] como acontece com os chineses e as suas casas para morrer, com nós os lares da terceira idade, com os Picuncheos grupos do Centro de Tecido, o Tear para entreter aos que já não vendem produtos agrícolas por lhes faltar força para transformar a terra em mercadoria, proibido para o consumo da casa ou valor de uso e transferidos com prazer aos conchenchos (intermediário em Mapudungun)[213]pelo dinheiro de mais valia que dá o mercado. é o dia que a criança passa de pequeno que aprende, a adulto que grita, zanga-se, repreende, pede para ficar isolado para não ter que ver de quem aprendeu, uma solidão desprezível e desagradável….excepto se é o proprietário, o monarca ou o Cardeal Patriarca de Veneza, Constantinopla ou Lisboa. A criança, agora adulto, manda. E não ouve, nem vê, nem cala e responde ainda que não perguntado. O adulto, se cresce á Bion, desenvolve as suas capacidades para procurar seu finito no infinito do prazer freudiano da verdade Bioniana, acaba por aceitar o sofrimento que permite a aprendizagem da verdade da vida, [214] que é o fazer.

Adultos pecadores, reprodutores de pequenos pecadores. Todo ser humano procura a sua liberdade e responsabilidade. é assim que o diz o texto que define o nosso comportamento, e que começa por uma imensa verdade: “A dignidade da pessoa humana se fundamenta em sua criação á imagem e semelhança de Deus (artigo 1); realiza-se em sua vocação á bem-aventurança divina (artigo 2). Cabe ao ser humano a livre iniciativa de sua realização (artigo 3). Por seus actos deliberados (artigo 4), a pessoa humana se conforma ou não ao bem prometido por Deus e atestado por sua consciência moral (artigo 5). As pessoas humanas se edificam e crescem interiormente: fazem de toda sua vida sensível e espiritual matéria de crescimento (artigo 6). Com a ajuda da graça, crescem na virtude (artigo 7), evitam o pecado e, se o tiverem cometido, voltam como o filho pródigo (a 35), para a misericórdia de nosso Pai do Céus (artigo 8). Chegam, assim, á perfeição da caridade.[215]. Esta frase é uma verdade para os que lêem o texto, o aprendem, o praticam e sentem a emotividade da fé como um sentimento de caridade, já definido antes, como a base da relação com outros seres humanos ou da interacção social, como gosto de dizer. Aliás, é a introdução para uma outra verdade de vida em grupo: a liberdade do homem: “Deus [§80]criou o homem dotado de razão e lhe conferiu dignidade de uma pessoa agraciada com a iniciativa e o domínio de seus atos. “Deus deixou o homem nas mãos de sua própria decisão” (Eclo 15,14), para que pudesse ele mesmo procurar seu Criador e, aderindo livremente a Ele, chegar á plena e feliz perfeição[a81]

O homem é dotado de razão e por isso é semelhante a Deus: foi criado livre e senhor de seus actos[a82].

I. Liberdade e responsabilidade

1691          1731     A [§83]liberdade é o poder, baseado na razão e na vontade, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, portanto, de praticar actos deliberados. Pelo livre – arbítrio, cada qual dispõe sobre si mesmo. A liberdade é, no homem, uma força de crescimento e amadurecimento na verdade e na bondade. A liberdade alcança sua perfeição quando está ordenada para Deus, nossa bem-aventurança.

1692          1732     Enquanto [§84] não se tiver fixado definitivamente em seu bem último, que é Deus, a liberdade comporta a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, portanto, de crescer em perfeição ou de definhar e pecar. Ela caracteriza os actos propriamente humanos. Toma-se fonte de louvor ou repreensão, de mérito ou demérito.

1693          1733     Quanto [§85]mais pratica o bem, mais a pessoa se toma livre. Não há verdadeira liberdade a não ser a serviço do bem e da justiça. A escolha da desobediência e do mal é um abuso de liberdade e conduz á “escravidão do pecado [a86]”.

1694          1734     A [§87 ]liberdade torna o homem responsável por seus actos, na medida em que forem voluntários. O progresso na virtude, o conhecimento do bem e a ascese aumentam o domínio da vontade sobre seus actos.

1695          1735     A [§88]imputabilidade e a responsabilidade de uma ação podem ficar diminuídas ou suprimidas pela ignorância, inadvertência, violência, medo, hábitos, afeições imoderadas e outros factores psíquicos ou sociais.

1696          1736     Todo [§89]acto directamente querido é imputável a seu autor:

Assim, o Senhor pergunta a Adão, após o pecado no jardim: “O que fizeste?” (Gn 3,13). O mesmo pergunta a Caim[a90]. A mesma pergunta faz o profeta Natã ao rei Davi, após o adultério com a mulher de Urias e o assassinato deste[a91].

Uma acção pode ser indirectamente voluntária quando resulta de uma negligência quanto a alguma coisa que deveríamos saber ou fazer, por exemplo, um acidente ocorrido por ignorância do código de trânsito.

1697          1737     Um [§92]efeito pode ser tolerado sem ser querido pelo agente, por exemplo, o esgotamento da mãe á cabeceira de seu filho doente. O efeito ruim não é imputável se não foi querido nem como fim nem como meio de acção, como poderia ser o caso de morte sofrida por alguém quando tentava socorrer uma pessoa em perigo. Para que o efeito ruim seja imputável, é preciso que seja previsível e que o agente tenha a possibilidade de evitá-lo, como, por exemplo, no caso de um homicídio cometido por motorista embriagado.

1738                A [§93]liberdade se exerce no relacionamento entre os seres humanos. Toda pessoa humana, criada á imagem de Deus, tem o direito natural de ser reconhecida como ser livre e responsável. Todos devem a cada um esta obrigação de respeito. O direito ao exercício da liberdade é uma exigência inseparável da dignidade da pessoa humana, sobretudo em matéria moral e religiosa[a94]. Este direito deve ser reconhecido civilmente e protegido nos limites do bem comum e da ordem pública[a95].[216]

Este texto nem comentário precisa, excepto dizer que é retirado da realidade social, que segue as águas de moinho da procura da liberdade do homem. Mas, como já comentei, essa liberdade é a subordinação á lei que não apenas nos governa, mas que também define cada passo que damos na nossa vida e dá nomes ás pessoas conforme o seu comportamento. A capacidade de raciocinar, de pensar e decidir, é o que traz a liberdade ao ser humano. O problema é, que liberdade… O texto, como todos os outros denominados sagrados que referi, remete a actividade humana para uma metáfora que não vive entre nós, que radica na mente do ser humano e que dita leis por meio de pessoas como Moisés, Elias, Jesus, hierarquias pontifícias, formas de acreditar e que, no fim dos finais, é parte da cultura ou formas de comportamento adequadas ás conveniências da nossa individualidade. E o que é adequado á nossa pessoa, é viver sem pecado, é dizer, sermos capazes de fixar um último bem, uma auto-estima que, em metáfora, está definida como a procura de Deus, muito embora a divindade não esteja definida em parte nenhuma. é aí que Freud e os seus seguidores foram capazes de ver as dificuldades da vida, para além da metáfora e entrar dentro de cronologias e contextos genealógicos, orientados por uma libido erótica que leva á reprodução. Ideia que o texto que comento não refere, antes pelo contrário, retira da materialidade da vida o que a ilusão de sermos pais tinha colocado: factos históricos, com provas complementares para demonstrar a sua verdade.

Este texto define já a criança como uma entidade que, como diz o artigo 1739, página 387, livremente soube rejeitar o amor, é dizer, pecou. O pecado, que tenho definido em outro texto, é a forma de organizar as relações entre os seres humanos: nenhum ser humano publicamente rejeita a empatia simpática a outro. E, no enquanto, a metáfora do texto começa por dizer que nascemos todos já na situação de estar preparados para não amar, para rejeitar o outro ou procurar no outro o que convêm á minha felicidade. é a definição que dou de pecado original no fim do Capítulo II:

1698 O pecado está  presente na história do homem: seria inútil tentar ignorá-lo ou dar a esta realidade obscura outros nomes. Para tentarmos compreender o que é o pecado, é preciso antes de tudo reconhecer a ligação profunda do homem com Deus, pois fora desta relação o mal do pecado não é desmascarado em sua verdadeira identidade de recusa e de oposição a Deus, embora continue a pesar sobre a vida do homem e sobre a história.

(Parágrafo relacionado: 1847)

1699     387         A realidade do pecado, e mais particularmente a do pecado das origens, só se entende á luz da Revelação divina. Sem o conhecimento de Deus que ela nos dá  não se pode reconhecer com clareza o pecado, e somos tentados a explicá-lo unicamente como uma falta de crescimento, como uma fraqueza psicológica, um erro a consequência necessária de uma estrutura social inadequada etc. Somente á luz do desígnio de Deus sobre o homem compreende-se que o pecado é um abuso da liberdade que Deus dá  ás pessoas criadas para que possam amá-lo e amar-se mutuamente.

(Parágrafos relacionados: 1848,1739)

O PECADO ORIGINAL UMA VERDADE ESSENCIAL DA Fé

1700     388         Com o progresso da Revelação, é esclarecida também a realidade do pecado. Embora o Povo de Deus do Antigo Testamento tenha conhecido a dor da condição humana á luz da história da queda narrada no Génesis, não era capaz de entender o significado último desta história, que só se manifesta plenamente á luz da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo[a5]. é preciso conhecer a Cristo como fonte da graça para conhecer Adão como fonte do pecado. E ó Espírito – Paráclito, enviado por Cristo ressuscitado que veio estabelecer “a culpabilidade do mundo a respeito do pecado” (Job 16,8), ao revelar Aquele que é o Redentor do mundo.

(Parágrafos relacionados: 431,208,359,729)

389            A doutrina do pecado original é, por assim dizer, “o reverso” da Boa Notícia de que Jesus é o Salvador de todos os homens, de que todos têm necessidade da salvação e de que a salvação é oferecida a todos graças a Cristo. A Igreja, que tem o senso de Cristo[a6], sabe perfeitamente que não se pode atentar contra a revelação do pecado original sem atentar contra o mistério de Cristo.” [217].

A criança desejada pelos progenitores, chega a este mundo com esta carga de ideias que outros estão a pensar por ela, porque da história da desobediência, é suficiente a que ela própria faz ao longo da sua vida, como para carregar aliás, as desobediências da metáfora da origem bíblica do mundo. O que o texto está a dizer, é a paciência que, como o filho de Deus, Jesus, todo ser humano deve ter com os mais pequenos. E, no decorrer da vida, ao contrário. A racionalidade catequista é uma forma de pensamento que Freud e Klein, embora cristãos – são da cultura cristã, dentro desta cultura, não da muçulmana, chiita, budista, etc., como Weber estuda entre 1904 e 1919 – analisam para entender o que foi primeiro denominado querer matar o pai, como a tábua que apresentei no Capítulo II. Pelas provas clínicas e pelas observações culturais feitas em terreno, cada um de nós tem observado um duplo comportamento: esse que se explica pela lei positiva, dentro da qual está o Direito Canónico, a Catequese, a Patrística e a Teologia; e outra que pouco ou nada entendemos e que, em síntese, é a luta pela emotividade e a felicidade.

como podia ser mal organizada esta criança?

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