Quando o país não está à altura dos seus políticos

Ainda quanto ao tema do Pingo Doce, o comentário com que mais me identifico foi o de Ana Sá Lopes, uma pessoa de esquerda, como ela mesmo se define, no programa da Antena 1 “Contraditório“. Segundo ela, a atitude do Pingo Doce foi “provocadora”, por testar “se estava mais gente no Pingo Doce ou nas manifestações”. E esteve mais gente no primeiro e isso “não foi culpa do Soares dos Santos”. O problema está na incapacidade que o país demonstrou em não conseguir ir para a rua gritar revolta. Em vez disso, as pessoas foram para o Pingo Doce. “A esquerda pôs-se nestes últimos 5 dias a discutir a humilhação. A esquerda é muito paternalista.” E acrescenta que “o problema que a esquerda devia esta a discutir é porque é que teve tão pouca gente gente no 1º de Maio”.

Muita da discussão centrou-se na existência ou inexistência de dumping, na humilhação, no lucro que o Pingo Doce tem mas aquilo que de facto incomodou a esquerda e que ela não admitiu é que as pessoas foram em magote para um supermercado em vez de irem dar voz ao protesto na rua. O povo, tão querido à esquerda, ignorou-a.

Além desta discussão, da motivação política da iniciativa, há que analisar o assunto do ponto de vista do marketing. Em primeiro lugar, poderia o evento ter ocorrido noutro dia, num domingo, por exemplo? Claro que não. Isso seria fazer o mesmo que faz o Continente e o Jumbo. Isto teve o impacto que teve porque escandalizou. Esqueçam a motivação política, esta acção foi um cuidado planeamento de marketing, só comparado com o que a Benetton costuma fazer. Lembremos-nos, por exemplo, de um dos seus últimos cartazes, onde o Papa foi colocado a beijar imã egípcio.

Os católicos, Vaticano incluído, ficaram chocados. A esquerda nem por isso e até teve memória curta agora neste primeiro de Maio. Com efeito, escandalizada com a blasfémia do Pingo Doce, procurou empatia perguntado se teriam gostado se tivesse sido no Natal. Voltando ao marketing, teria esta foto o mesmo impacto se fossem dois outros homens? Outras figuras públicas também foram usadas em cartazes similares mas cá foi esta imagem que deu que falar. Para que a promoção do Pingo Doce tivesse um efeito semelhante, só se fosse no dia de Natal e mesmo assim não seria o mesmo (as compras já estariam feitas).

Quanto à legalidade da promoção, a argumentação não focado o facto de outros supermercados, como o Continente, já oferecerem desconto de 75% em alguns produtos. Esse facto, anterior à campanha do Pingo Doce, não indignou a esquerda, pelo que, novamente, em causa não está a campanha mas sim a provocação. Portanto, senhores de esquerda, esqueçam o preconceito, deixem de olhar para o Soares dos Santos como uma encarnação do demo e procurem perceber porque razão, estando o país numa tão grave crise, as pessoas se fecharam num supermercado em vez de se edukarem no comício.

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