O fantasma e a vizinha

Tenho uma vizinha que vive com um fantasma. Em certas noites, quando a lua está na posição ideal, e eu me assomo ao lado direito da varanda, e me debruço um pouco para fora (não é fácil espiar os vizinhos) vejo-a a pôr a mesa para dois. Anda num vaivém entre a sala e a cozinha, mas sem alvoroço, sem sinais de nervosismo, e isso começou por espantar-me porque não a imaginava assim, tão confiante. Na primeira noite voltei para dentro antes de que ele chegasse, envergonhada por estar a espiar a vizinha, mas não resisti a espreitá-la uma última vez antes de ir dormir. E foi então que o vi. Ou melhor, não vi, e assim fiquei a saber que ele é um fantasma. 

A vela ardia ainda no castiçal sobre a mesa e a vizinha dançava no centro da sala. Enlaçava com os braços alguém que eu não via, inclinava a cabeça suavemente para melhor escutá-lo, e sorria, e respondia-lhe, e continuava a dançar. A lua iluminava a sala e da minha varanda via-se bem. Se eu não soubesse, diria que ela dançava só, e falava consigo mesmo, e que os seus braços enlaçavam o vazio.

Não há nada de invulgar em viver com um fantasma, nenhum motivo de espanto. De certa forma, talvez até todos o façamos. O fantasma da vizinha pode ser tudo o que ela quiser, pode contar-lhe histórias de vidas que não teve, porque ela nunca saberá a verdade, pode inventar para si mesmo um passado de glória e bravura, ou de infelicidade e sacrifício, ou de burlesca comédia, conforme ela preferir. E todo esse diálogo não será mais do que a antecâmara de um futuro que não pode acabar porque para eles não haverá fim.

Às vezes cruzo-me com a vizinha na rua. Vejo-a caminhar apressada, sempre ansiosa por regressar a casa, preocupada com os estragos do vento no molho de lírios que traz da florista,  e apetece-me perguntar-lhe por ele. Quem foi? Um capitão que se afundou com o seu barco numa noite de tempestade, depois de embarcar os seus homens nos salva-vidas? Um boxeador talentoso, morto precocemente num acidente de carro?  Que ganas lhe terão ficado de continuar a viver para assim se rebelar contra esse fim e descobrir, de entre toda a gente de uma cidade, a mulher que saberia escutá-lo, ao cair da noite, e que acenderia a vela no candelabro, e lhe serviria um copo de vinho, e que dançaria com ele até de madrugada, indiferente às cortinas abertas e aos vizinhos indiscretos. Uma e outra vez, a cada noite. Dançar até de madrugada e deixá-lo partir depois.


Comments


  1. Há fantasmas e fantasmas, Carla.
    Eu, por exemplo, conheço um ex-fantasma que corporizou.
    Trata-se de uma mulher, do Porto, escrevia num blogue. Depois virou fantasma durante muito tempo, sem nunca deixar de pairar sobre alguns de nós. Um dia corporizou outra vez e deixou de pairar. Materializou-se. Mesmo. Felizmente 🙂

  2. palavrossavrvs says:

    Talento bendito. Bravo!

  3. adão cruz says:

    Bem-vinda Carla, que surpresa! Ainda que o regresso venha envolto em fantasmas, a realidade expulsá-los-á. Um beijinho

  4. Frederico Mendes Paula says:

    Também há os fantasmas que ainda não se imaterializaram. Estão ali como se não estivessem e quando se imaterializarem nem se dá pela sua falta. Acho que muita gente vive com esse tipo de fantasma

  5. Carla Romualdo says:

    Fantasma mas não alma penada 😉
    um abraço a todos

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