Não faltam tentações para as mulheres sérias

Temos a janela sempre aberta, até fazem pouco de nós, as acaloradas, mas chega-se a uma idade em que é mesmo assim. E porque temos a janela aberta ouvimos a música dos vizinhos o dia inteiro. Naquele dia, era uma colectânea de êxitos dos anos 50 e 60 e passamos a manhã a ouvir o «Oh, Carol» e o «Sweet Caroline», que são canções que até dispõem bem. Só que depois o vizinho trocou o disco por uma colectânea do Elvis. Ui, o Elvis, disse a Filomena.

Começou a tocar o “Hound Dog” (conheço-as todas), e foi então que o espírito dele, do Rei, subiu por entre o quarteirão de escritórios, entrou-nos pela janela, muito pesadão, com o fato branco e a capa (capa!) dos concertos de Las Vegas, quando ele cantava com olhinhos de carneiro mal morto, e se lhe via o suor a pingar para cima das quarentonas na primeira fila, e lançava ursos de peluche para a plateia. E então as paredes do escritório estremeceram, o chão começou a vibrar, as pastas de arquivo saltitaram nas prateleiras, o fax começou a despejar páginas e páginas em branco, e o espírito do Elvis materializou-se naquele espaço entre as secretárias onde metemos a máquina do café.

Saudou-nos com um gesto com a mão e o reflexo do sol no relógio prateado dele deixou-nos cegas como toupeiras. Era um Elvis gordo, castigado pelas pastilhas e pelo álcool, pela falta da Priscilla, que se cansou de dormir sozinha. Mas ainda era o Rei, e ainda sabia fazer aquele trejeito com o lábio carnudinho e abanar as ancas rechonchudas.

Pigarreou, ajeitou o microfone, e ali mesmo, em pleno escritório, mesmo ao lado do armário onde guardamos as caixas do papel de cópia, a dois passos das secretárias, sob o olhar incrédulo de todas nós (ainda bem que o Sr. Fonseca está de baixa), levantou os olhos e começou por dizer-nos que talvez não nos tenha tratado tão bem quanto devia, e talvez nem sequer nos tivesse amado tantas vezes quanto podia, e que bem poderia ter feito tantas pequenas coisas, se tivesse tomado tempo para isso, mas, que diabo!, estivemos sempre na cabeça dele.

A Filomena desmaiou por essa altura, foi sempre fraquita com os homens, por isso acabou tão mal casada, mas a Albertina e eu aguentamos firme, sem lhe dar trela, eu a meter nos envelopes umas cartas que tinham que seguir nesse dia, e ela a separar uns requerimentos. O rei desunhou-se, suou como um condenado, reluzia-lhe a testa tanto quanto o relógio, mas nós fizemos de conta, e o espírito, que também deve ter o seu orgulho, não duvido, lá se foi, tal como tinha vindo, pela janela aberta. Vai emborinha, vai, disse a Albertina, quando viu o último pedacito de capa a escapulir-se pela janela.

É o que eu digo sempre, não faltam tentações para as mulheres sérias.

Comments


  1. bem escrito,sua ” balzaquiana”

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