Contra-informação

O fim-de-semana começou agitado para a espionagem nacional. Eram 08:03h, ainda o dia mal tinha começado, e eis que surge uma publicação no site do Expresso a dar conta de uma colaboração (secreta) entre as secretas portuguesas e a americana NSA. A notícia refere que não houve partilha de dados relativos a escutas e que esta parceria incide, fundamentalmente, nos países africanos onde – espantem-se (ou não…) – “a intelligence portuguesa é muito valorizada”. Se eu já tinha ficado espantado com a descoberta, esta semana, do cérebro de Miguel Relvas (o de Margarida Rebelo Pinto continua a monte), não posso esconder a surpresa que foi saber que as nossas secretas são muito valorizadas lá fora. Alguma coisa do aparelho de Estado que seja!

A resposta do SIRP demorou 3 horas e 26 minutos a chegar (secreta que é secreta não pode estar fechada ao Sábado de manhã). Em comunicado enviado ao Expresso, o secretário-geral do “sistema” que coordena as secretas portuguesas desmente a notícia do semanário alegando “que não existe qualquer cooperação institucional através do SIS e do SIED com a National Security Agency (NSA), tal como já foi referido por diversas vezes e por diversos meios”. O Governo subscreve a posição da chefia das secretas. Mais uma conspiração do Expresso…

Assunto encerrado? Nada disso. A direcção do Expresso só precisou de 6 minutos para reagir: “O Expresso reitera integralmente a notícia publicada este sábado sobre a partilha de informações com a NSA, podendo garantir que essa partilha foi regular e teve como principal objeto os PALOP, entre outros assuntos”. Eles não só não estão a conspirar como pelos vistos sabem “coisas”.

Balsemão é um homem bem relacionado. Se o Expresso diz que sabe coisas, é porque deve mesmo saber. Para além disso, o antigo primeiro-ministro já teve os seus atritos com as secretas no passado. E com um senhor “reformado” das secretas na Ongoing. E ganhou sempre. O que saberá O Expresso/Balsemão, que o tenha levado a assumir uma posição de força ao sublinhar que pode garantir a veracidade da informação publicada no seu jornal? E, a ser verdade, que tipo de informação poderão ter as secretas portuguesas que a poderosa NSA não consiga obter por si só? E, por fim, quem está a mentir? O Expresso, que afirma poder garantir (apesar de ainda não o ter feito) que a “parceria” existe, ou o Governo, que já na passada Sexta-feira, dia 8, tinha assegurado ao Parlamento, pela voz do incontornável Rui Machete, que essa “cooperação institucional” não existia? Estaremos perante mais uma mentira deste Governo ou será este um novo episódio da novela na qual o próprio governo faz figura de otário? Afinal de contas, o secretário-geral do SIRP reporta directamente a Passos Coelho.

Seria bom que este episódio insólito não caísse no esquecimento, algo infelizmente tão habitual em Portugal. Sócrates teve os voos da CIA (quem ainda se chateia com isso?), e agora Passos tem um caso “Snowden-Tuga” em mãos. Nós cá continuaremos a assistir ao confronto de contra-informação que, regra geral, leva a conclusão nenhuma. Pelo menos oficial. Daqui a uns meses já ninguém se lembra disso. Afinal de contas, as parvoíces deste Governo são tantas e tão regulares que a generalidade da opinião pública já as aceita como algo “normal”. Talvez seja esse o nosso problema.

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  1. […] Expresso continua sob forte ataque por parte de poderosas forças nacionais. Depois do episódio do passado Sábado com as secretas, desta vez foi o  imperador Jardim que decidiu cortar […]

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