Canções de uma mesma chama de secreta gravidade [Textos sobre música portuguesa V]

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«Um dia vou abrir o frigorífico e vai estar vazio», pensou certo dia Mísia quando, sozinha e angustiada em casa, pensava na crise e no seu futuro. «O que é que eu vou fazer? O que é que eu vou comer?», interrogou-se a cantora melodramaticamente à boa maneira portuguesa: sempre com a fome no pensamento. Assim nasceu o menu de canções que constitui o seu último trabalho, Delikatessen Café Concerto (2013), um jantar musical cozinhado com as suas melhores canções, e um punhado jeitoso de convidados à altura de tão finas iguarias: Iggy Pop, Adriana Calcanhotto, The Legendary Tigerman, Dead Combo, Ramón Vargas e Melech Mechaya. Para eles, e com eles, Mísia serviu canções portuguesas, francesas, boleros e tangos, afastando-se um pouco do seu caminho de fadista, embora não completamente, pois tudo o que canta se transforma de certa maneira em fados.

No final de 2011, Mísia editou Senhora da Noite, uma senhora que esconde treze outras senhoras: trata-se de um conjunto de treze temas, escritos por outras tantas autoras, de Amália a Aldina Duarte, passando por Florbela Espanca, Natália Correia, Lídia Jorge, Hélia Correia, Rosa Lobato de Faria, Amélia Muge, Adriana Calcanhotto ou a própria Mísia, num disco que celebrou o génio criativo feminino e constituiu um regresso ao Fado mais tradicional – tanto quanto a tradição pode casar-se com a modernidade do estilo de Mísia.

Pioneira a fazer aquilo a que a dado passo se convencionou chamar um «novo Fado» – por oposição aos velhos modos da canção nacional, onde apenas e sempre quase só cabiam os materiais tradicionais, nas músicas como nas letras, Mísia é afeiçoada à melhor literatura e poesia de Língua portuguesa, e foram já vários os que escreveram expressamente para que cantasse outras palavras – José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge, Vasco Graça Moura, Hélia Correia, etc. –, tendo outros cúmplices colaborado com ela levando para o seu Fado outros instrumentos para além da guitarra e da viola: o violino, o acordeão ou o piano.

Se as suas ousadias e teatralidade não agradam a todos, indignando especialmente os mais puristas do Fado, que ainda hoje não consideram Mísia uma fadista, a verdade é que ela se tornou um caso sério de popularidade, grangeando o respeito de públicos menos afeiçoados aos cânones preceituais da arte do Fado. Filha da pátria exógena, poliglota e experimentalista (a sua música vive em constante diálogo com todas as formas de expressão artística), Mísia viveu durante cinco anos em Paris, dando um contributo decisivo para que o Fado se tornasse o património da Humanidade que já era antes de sê-lo oficialmente.

Agora que já se pode outra vez ouvir Fado à vontade (depois do black-out dos vários anos pós-1974 em que o género foi mal-amado), a heterodoxia da música de Mísia impõe-se como um dos mais interessantes modelos do que pode hoje ser o Fado: uma canção universal, e não apenas portuguesa, podendo inclusivé ser cantada noutras línguas. Algo que antes de mais define uma maneira de sentir o que se canta, e em que podem caber todas as músicas e letras que contenham essa chama de secreta gravidade: o fadista Jacques Brel, por exemplo, teria gostado de ver a sua Chanson des vieux amants transformada no Fado d’Os Velhos Amantes (gravado por Mísia em 1993, no seu disco Fado). Pois em última análise trata-se de uma mesma luta.

Comments

  1. José Peralta says:

    Sarah Adamopoulos

    Estou de acordo com a quase totalidade do que escreve sobre Mísia !

    Mas, a “heterodoxia da música de Mísia”, se se impõe como um dos mais interessantes exemplos do que pode ser o Fado, como canção universal e não apenas portuguesa, (ele já é “cantado” por japonesas, russas, etc. !!!) essa “heterodoxia”, por vezes, pode carecer de alguma prudência, como é o caso, (na minha opinião, entenda-se !) do famoso Fado Hilário, cantado por Mísia com outro poema, o que a mim não me chocou particularmente, antes achei uma bizarria ( e por aqui, já pode a Sarah Adamopoulos ver que eu não sou um “esclerosado” purista…) !

    Mas o que, digamos, me “incomodou”, isso sim, foi uma interpretação algo desastrosa, talvez por ser cantada numa tonalidade demasiado alta para a tessitura da voz de Mísia que, no “auge” agudo do Fado, revela alguma incapacidade, esforço e insegurança da cantora, tornando-se manifestamente penoso de ouvir !

    E heterodoxia “prudente”, não é exigida aos “fadistas” japoneses ou russos, mas aos Fadistas portugueses, penso não ser despicienda…

    Mas…como digo acima, é a minha opinião !

    • Sarah Adamopoulos says:

      Não me lembro desse fado que refere cantado pela Mísia. Vou à procura dele, se encontrar volto aqui para dizer mais qq coisa.

      • José Peralta says:

        Obrigado pela sua atenção.

        https://www.youtube.com/watch?v=t_LAQD6KIyw

        Fado das Violetas com poema de Florbela Espanca ! Música do Fado Hilário, de Augusto Hilário.

        O arranjo musical é muito bom ! Se fosse tocado meio tom abaixo, talvez fosse mais “confortável” para a Mísia nos agudos.

        Mas, por outro lado, baixar o tom, a “zona” grave talvez ficasse grave demais para a sua tessitura.

        Para homenagear Florbela ( e Hilário ), não sei se a escolha foi a melhor !

        Os meus cumprimentos.

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