Postcards from the Balkans #01

Entre Zagreb e Ljubljana

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levanto-me em Lisboa às 4h30 da madrugada. Levanto-me como se tivesse dormido e não dormi. Ninguém se levanta à hora a que se deita. No aeroporto a confusão do costume, talvez um pouco menos já que é cedo demais. O voo sai a horas. Chega a horas. O voo, eu e a mala. Mal chego a Zagreb vou para a estação de comboios. Não sei porquê, convenci-me que iria apanhar um comboio rápido e moderno. O que me espera é, convenhamos, bastante melhor que isso. É lento e antigo. Entro num compartimento onde está um casal. O senhor – que novidade, claro, já se sabe que, não sei porquê, nunca chego verdadeiramente a tocar nas minhas malas, quando viajo – agarra-me na mala e coloca-a na grade, por cima da minha cabeça. As janelas do comboio vão abertas. Tenho sono. Mas é bom por a cabeça de fora e rir-me para os girassóis nos campos.

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Nem 1h passou e chegamos à fronteira com a Eslovénia. Uma longa paragem. Entram polícias. Por duas vezes mostro o bilhete e o cartão de cidadão. Pergunto por gestos – está bem de ver que o casal não fala inglês e eu tirando os bons dias e adeus não sei dizer nada em Croata – o que se passa. Os senhores explicam-me que a Croácia não pertence ao espaço Schengen. Eu devia saber, mas não sabia. Finalmente o comboio retoma a sua marcha. Vai, como todos os comboios, deixando para trás, como se os deitasse fora, os campos de milho, as igrejas nas colinas, os girassóis, os cavalos. A certa altura um rio faz-nos companhia. Mas estou do lado errado do compartimento. A Eslovénia começa a parecer-me um país sossegado, quando chegamos a Lujbljana.

O senhor não me pergunta nada e tira-me a mala da grade. Um rapaz tira-a do comboio. Ainda não sei dizer obrigada em Esloveno, digo em Inglês. O tempo está cinzento. Devagar dirijo-me para fora da estação. Há um táxi parado e eu bato no vidro e pergunto ao rapaz – Armin, depois saberei ser este o seu nome – onde é a rua do Hotel Macek e quanto custa levar-me lá. 9€, diz. De acordo, digo. Ele diz: ‘o nome do hotel é gato. Macek é gato’. E depois ensina-me a dizer cão e cachorrinho. Não que lhe tivesse perguntado, naturalmente, mas rio-me e digo-lhe que é útil saber. O rapaz começa a apontar-me os edifícios. Aqui o parlamento, ali a ópera, acolá o teatro, além o edifício mais alto da cidade. E eu agradeço-lhe mas penso que aquele tour não me vai custar só 9€. Digo-lhe que estou cansada, que me leve ao hotel. Responde que me convida para um café. Nem me atrevo a dizer-lhe que quero é dormir… sabe-se lá o que me diria a seguir.

Pára o táxi à entrada de uma zona de peões (já agora zona é ‘cona’) e diz que temos de ir um bocadinho a pé. Agarra na mala e aí vai ele, comigo atrás. Deixa-me mesmo à porta, com a mala e eu digo:’quanto é?’ ‘9€’, diz ele, ‘foi o que lhe tinha dito’. Dou-lhe 12 ou 13. Não tenho mais trocos. Deixa o número num papel, para me levar de volta à estação. Combinado.

O hotel chama-se, então, gato. É muito limpo, como são os gatos e é mesmo à beira do rio Ljubljanica, no coração da cidade velha. Belo sítio. Toda a gente é simpática. Afinal bebo o café, sem o Armin, e ponho-me a andar pela cidade. Que sossego. No centro não há automóveis, só peões e ciclistas. Está explicado. Ljubljana é uma cidade bonita. Faz-me lembrar Salzburgo, ainda que menos monumental. Tenho fome e está a trovejar.

Escrevo: ‘em Ljubljana chove copiosamente. Estou numa esplanada a ouvir uma conversa em castelhano (com dois sotaques diferentes, porém) entre um mexicano e um argentino sobre o que é ser gay na america latina. Estou a comer un english breakfast e a beber uma cerveja belga. Falo em inglês com o empregado. Escrevo aqui (no facebook) em português e já me entendi, no comboio de Zagreb para cá, em Croata’.

Aproveito para louvar a globalização. Esta, quero dizer.

Comments

  1. Fernando says:

    Depois de ter lido tanta merda que por aqui se tem escrito acerca da politica, com insultos de faschista, comuna, neoliberal, palhaço etc., soube bem, foi desentoxicante ler a cronica desta viagem. Obrigado.

  2. Sarah Adamopoulos says:

    Gostei imenso. Só não percebo por que é que a crónica tem um título em Inglês…


  3. Sarah é para manter a tradição (a minha). andam por aí os postcards from romania e as cartoline d’italia.


  4. (queria dizer, com títulos também em estrangeiro 🙂 )


  5. Depois das “cartoline” do ano passado, vou passear de novo através das suas palavras.
    Obrigado e um beijo.


  6. Excelente Elisabete, adorei. São dois países que visito habitualmente em trabalho. Se ainda estiver em Ljubljana, procure um restaurante chamado AS e prove o bolo de morango. É do outro mundo, vale cada cêntimo 🙂

    E não deixe de passar no Lago Bled, é qualquer coisa de fantástico!!! Boas férias 🙂


  7. Pois depois deste belo texto e diálogo fico-me principalmente por Salzburg e os velhos e saudosos comboios com que visitei toda a Austria – uma única sopa que nunca tinha comido e já não recordo bem de caldo e um não sei quê tipo almondega e uma pastelaria de contentar os gulosos mais viciados – Quanto a Salzburg estive um mês em fevereiro 1977 a fazer curso intensivo de planeamento urbano (growth land use and urban planning) com representantes de quase todos os países no Leopolskron Schloss e experimentei pala 1ª vez o que era “globalização” Nem a India faltava – éramos 90 de dois continentes – europa e USA – como bolseira Fullbright – o que o v/ texto me fez recordar passados 37 anos – que bom – Foi depois de espectáculo de ópera em Salzburg que na ceia me apresentaram com muito espanto meu “sardines portugaises” que aqui era “comida de pobre” – o que não sabem tantos, valorizar por aqui da mesma forma que em Brixen (Bressanone) vi nas mercearias alfarroba usada para alimentação dos homens e aqui, só pra cavalos – que le lembre se é que ainda existem Alfarrobeiras no Algarve que o turismo ocupou tão mal e sem o Plano Director que havia sido feito por Ribeiro Telles – 0 1º deste país, mas ignorado, pra mudar para sempre aquela paisagem Edénica que conheci em 1961 ainda imaculada


  8. 🙂

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