Postcards from the Balkans #03

‘Strawberry cakes forever’ e outras revelações

10557314_10204716135609551_601455223790232725_nOs lugares perfeitos não têm história. Um pouco como as pessoas, se as houvesse perfeitas. No entanto, estou quase certa que Ljubljana não é uma cidade perfeita. Tenho pouco tempo para o saber. Praticamente não vou além do centro e perco-o, de certeza, ao centro. Das coisas. Das estórias, quero dizer.

Mais do que faço nos lugares imperfeitos, ponho-me aqui a reparar em tudo, muito bem. Nas pessoas, nas janelas, nas paredes, nos parques, nas ervas e nos pequeníssimos malmequeres. Ljubljana é uma cidade cheia de parques e jardins, do grande Tivoli e da colina do castelo aos pequenos recantos, cheios de árvores e sombras. Não está demasiado calor, no entanto. De manhã decido ir à procura do quarteirão do parlamento, onde estão também os ministérios, as embaixadas e – o que mais me interessa – os museus, especialmente a Galeria Moderna.

Atravesso a ponte dos Sapateiros, viro à direita e logo à esquerda e estou de novo no parque Zvezda. Aqui, do lado esquerdo de quem sobe, um magnífico edifício da Universidade de Ljubljana. Meto pela rua Vegova cheia de escolas e cabeças de eslovenos ilustres. Uma rua muito sossegada e verde. Encontro ao fundo um monumento, escrito em francês, uma homenagem ao ‘soldat sans nom’. Há umas galerias de arte, pequenos museus, um teatro de verão, com um belo pátio. Sento-me na esplanada de uma praça. Os pardais voam muito depressa e, de repente, pousam por longos segundos nas mesas e nas cadeiras. Vários me visitaram a mesa. Foi por causa deles que levantei a cabeça, para acompanhar o voo e prever a próxima visita, e dei de caras com o nome da praça: Francoske Revolucije. Está então explicado o ‘sous cette pierre/ nous avons deposè tes cendres/ soldat sans nom‘.

Abandono os pardais, também eles sem nome, aos seus voos revolucionários e avanço pela rua Golpozska, já com a sensação de estar um pouco perdida. A rua Golpozska leva-me até uma zona cheia de grafitis. Num deles, a parede pergunta(-me): ‘can a man, dying of thirst, forget about water?‘. Noutra parede, um – provavelmente – romântico esloveno confidencia(-me): ‘I think I love her‘ e, mais adiante, alguém, justamente, podia ter sido eu escreve(-me): ‘it’s all crazy‘.

Se Ljubljana não fosse uma cidade perfeita, talvez eu não reparasse nos grafitis e não me perdesse em conversas com as paredes. Realizo que a conversa acabou por ir longe de mais e que, realmente, mas sem alarme algum, me perdi. Estou num pequeno jardim. Passa um grupo de pessoas a quem pergunto pelo Parlamento… uma das senhoras diz que tem de por os óculos, para ver o (meu) mapa. Vê o mapa e pergunta-me, ligeiramente indignada, onde é que o arranjei. Digo que me o deram no hotel. Acha que é um mapa tão mau que ela mesma já não sabe onde estamos. Finalmente parece descobrir o nosso paradeiro entre as minúsculas ruas do mapa e diz-me que vá logo ali à direita e depois de novo à direita. Assim faço. ‘Hvala‘*.

Chego à rua Subiceva, onde, se não andasse a ouvir as paredes com atenção, teria chegado muito mais cedo. Ando um bocadinho, atravesso outro parque e ali está o Parlamento. Tem a porta ornamentada com dezenas de estátuas. Agumas são verdadeiramente bonitas. Escolho a de um homem que segura uma criança e dou-lhe o braço. Uma família de pedra, salvo eu, e assim mesmo tenho os meus dias. Rodeio o edifício e vejo, numa entrada lateral, um monte de câmeras e pessoas e microfones. Há um italiano que pergunta a um dos homens o que se passa. Sei que é italiano, porque depois hei-de falar com ele. Tem um cunhado a passar férias em Sagres e diz que ‘è un bel posto’… mas então o que se passa ali é que os jornalistas esperam pelo o anterior responsável do partido social-democrata esloveno. Pelo menos é o que diz o repórter sentado no chão ao italiano. De qualquer modo, agora não me interessa.

Avanço pelo outro extremo do jardim que cruzei há pouco, encontro a Ópera, a seguir, do outro lado, o Museu Nacional da Eslovénia. Passo. Procuro a Galeria Moderna, não o Museu Nacional. A Galeria Moderna aparece logo ali, na fronteira com o parque Tivoli. É branca e sóbria. Logo à entrada do jardim uma escultura chamada Manifestantes I, de Drago Trsar. Não conheço – é mentira, descubro depois, um pouco mais tarde – nenhum artista esloveno.

Entro na Galeria. Silêncio. Fresco. Compro o bilhete (barato. tudo aqui, à exceção do café e bebidas em geral, parece ser a preços equivalentes aos portugueses) e vou avançando pelas salas. A exposição permanente é uma maravilha (mais a mais devem estar 5 pessoas no museu, excluindo os vigilantes). Começa-se com o modernismo, passa-se ao expressionismo, depois o movimento avant-garde, a arte da resistência, o realismo socialista, o neo-construtivismo e, por fim, o retro-avant-garde e a cultura alternativa. Fico encantada com algumas obras, mas apaixono-me instantaneamente por um quadro de France Kralj: ‘crianças do campo e da cidade’. Gosto particularmente da sala devotada ao movimento OHO que basicamente procurava a fusão da arte com a vida quotidiana (‘it is necessary to investigate the life of the people before someone dare to represent it‘). Para uma socióloga, está tudo dito.

Visito a exposição temporária, do fotógrafo Bozidar Jakac, um andarilho, no seu tempo e que retratou, entre muitas outras cidades, coisas e pessoas, tão comoventemente, o movimento dos partisans na Eslovénia, de 1943 a 1945. Ainda visito uma sala minúscula no piso inferior, dedicada a algumas obras de Gabrijel Stupica (aqui está um pintor esloveno que conhecia, como não?), que faziam parte da anterior exposição temporária.

Saio satisfeita da Galeria Moderna e avanço, com fome, pela avenida Cancarjeva. De repente, à direita, dou de caras com o Jazz Club Gajo, o mesmo que procurei sem sucesso – o meu guia tem, portanto, a morada errada – ontem. Entro. É uma imensa esplanada sob as àrvores. Não se come, pelo que decido voltar mais logo e continuo pela mesma rua até à avenida Slovenska, que atravesso, para depois virar à direita. Apesar de saber por onde devo ir, vejo um arco e uma ruazinha, depois dele, ladeada de relva e árvores e, claro, atravesso-o. Ainda bem, é uma ruazinha – uma ‘passagem’, melhor dizendo – muito bonita e de repente encontro o AS. O mesmo AS que ontem me recomendaram, desde Portugal, dizendo ter o melhor bolo de morango do mundo. O AS tem muito bom aspeto. Sento-me e, já sabendo que vou comer o bolo de morango, peço uma salada.

O bolo de morango do AS é magnificamente impossível de descrever. Provavelmente é mesmo o melhor bolo de morango do mundo. Pelo menos, nunca comi nenhum tão bom. Fica a recomendação. Depois do arco, que encontram a meio da avenida Slovenska, do lado direito em direção ao jardim Zvezda, é sempre em frente. Há umas bicicletas que em vez de cesto têm caixas de madeira ‘Veuve Clicquot’. Não há que enganar.

Podia contar o resto do dia, com o mesmo pormenor, mas prefiro que fiquem a pensar no bolo de morango, a derreter-se na boca. É melhor isso que contar dos namorados, de pedra e de silêncio duro, ao jantar. Acreditem. Ljubljana, afinal, (não) é a cidade perfeita.

Comments


  1. Desconheço de todo se Ljublijana é ou não a “cidade perfeita”…ou tampouco, se tem o melhor bolo de morango do mundo, mas pela descrição magnífica dos pormenores geo-culturais que enfatizou, a Eslovénia fica seguramente, na minha “lista” de países a visitar!
    Adorei o seu texto! 🙂


  2. excelente Elisabete 🙂 estou a adorar o passeio à distância!!!

  3. joao lopes says:

    ja estive na eslovenia,fiz a viagem de carro e passei a fronteira vindo de trieste(italia),e aconselho vivamente a visitar as gigantescas grutas na zona dos alpes “julianos”,logo imediatamente a seguir à fronteira com italia.de qualquer forma,boa viagem


  4. A legenda escrita e fotográfica impecável de uma cidade que apetece.


  5. sim, é uma cidade encantadora 🙂

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