Postcards from the Balkans #13

Lei è italiana? o un viaggio sul treno tra Spalato e Zagabria

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Raras vezes me senti tão contente em abandonar um sítio, como hoje, ao sair de Split (Spalato em italiano). Contente como em feliz. Nem a mala que arrastei até à estação me pesou, nem o sol me queimou. Leveza, alívio, contentamento profundo, foi tudo o que senti. Ainda sinto, agora que estou já em Zagreb (Zagabria, em italiano), cidade que em duas ou três horas apenas me parece encantadora, humana e acolhedora. O hotel é maravilhoso (Art Hotel Like). O quarto onde estou tem uma pequena mezzanine e uma decoração muito bonita. Tem uma janela enorme que dá para o cruzamento entre a rua Vlaska e a rua Draskovica. O centro é logo ali e reina a calma. A cama é fofa e branca e, portanto, estou nas nuvens. Até ver. É certo que depois de Split qualquer sítio me pareceria o céu.

Ontem o rapaz do Marvlvs pediu-me que lhe mandasse um livro em português do Pessoa, disse assim mesmo, ‘do Pessoa’. Depois de tanta simpatia, claro que lhe envio um livro do Fernando Pessoa, já que aquele belo bar não tem nenhum livro em português. Gostei genuinamente do bar, do cão chamado Baka, do jazz contínuo, de todos os livros dentro dos quais me trouxeram a conta e, sobretudo do rapaz. Gosto sempre de quem fala várias línguas. Alguém que se preocupa em aprender várias línguas é certamente alguém que quer compreender melhor o mundo. E isso é uma das características que mais aprecio nas pessoas. Acreditem que não as há, destas pessoas, por aí os pontapés.

O melhor de Split a seguir ao Marvlvs, ao velho Baka e ao rapaz poliglota que gosta de Pessoa, são os gatos. Ainda ontem o disse. Os gatos de Split oferecem-se a uma festa, ou duas, dão turrinhas, fazem-nos companhia. Mais humanos que os donos dos hotéis, dos restaurantes e dos cafés. Geralmente nada pedem em troca por se deixarem acariciar. Hoje cruzei-me com vários, generosos, todos.

Depois de um bom pequeno almoço e de umas deambulações finais pelas estreitas ruas de Split, arrasto contente – como já disse – a mala até à estação. O comboio é às 13h40. Entre Split e Zagreb são 256 km que o comboio (um intercity moderno, com apnas duas carruagens o que, uma vez mais demonstra o desprezo que os povos desta zona têm por tal meio de transporte) fará em seis horas e quinze minutos. Demasiado tempo, é verdade, para tão curta distância, mas a linha é antiga, há muitas montanhas de permeio… seja como for, a paisagem compensou amplamente a minha decisão de vir de comboio. Depois de me ter deslocado entre Sarajevo e Mostar e entre Mostar e Split de autocarro, transporte que habitualmente abomino, era mais que chegada a altura de voltar ao meu amado comboio.

Na estação, poucas pessoas. Num banco ali próximo, duas raparigas conversam e levo algum tempo, tal a confusão de línguas na minha cabeça, a perceber que é em português que falam. Não apanham o mesmo comboio que eu. No meu comboio viajam franceses, croatas e suíços. Italianos, estranhamente, nem vê-los. Devem ficar todos junto à costa, portanto. O comboio é limpo, sossegado e fico contente quando me apercebo da sua lentidão. A paisagem é tão bonita, primeiro com o mar, depois com as montanhas e os vales, que leio pouco mais de 100 das 400 páginas de ‘A ponte sobre o Drina’ (Ivo Andric). Entretenho-me com o que acontece fora das janelas, sobretudo.

Tenho o livro pousado no banco ao meu lado quando a senhora vem verificar os bilhetes. Pergunta-me: ‘italiana?’. Respondo que não, que sou portuguesa. Diz que pelo livro pensou que fosse italiana. Digo eu que o livro é em português mas que, como deve saber, o escritor é bósnio. Diz que sabe, claro e sorrimos. A partir daí sorri-me sempre que passa no corredor. Acabo por dormitar, apesar do muito café que já bebi. Bebo outro. Mas o comboio embala-me irresistivelmente e adormeço até Gracac, onde ficamos parados uns bons 20 minutos.

Acordo com a ausência do suave balançar do comboio e com a falta do ruído que o acompanha. A maior parte das pessoas saiu para a plataforma e anda de cá para lá, fumando ou simplesmente esticando as pernas. Saio também e o comboio é tão pequeno que parecemos, ali na plataforma de Gracac, um grupo de excursionistas. Voltamos para as carruagens, depois de ter passado o comboio entre Zagreb e Split. O nosso comboio retoma a sua marcha. Mais 3 horas até Zagreb. Quando regresso o meu lugar está ocupado por um senhor. Digo-lhe que estava ali sentada antes. Responde que aquele é o lugar dele e tem razão. O meu estava desde o início ocupado por um rapaz croata. Não faz mal, há mais lugares e sento-me noutro. O homem pergunta-me: ‘é italiana?’. uma vez mais digo que não, que sou portuguesa. ‘Ah’, diz ele, ‘vi aqui este livro, parecia italiano o título’ e lê o título com sotaque italiano. Eu digo-lhe o título em português e acrescento que se o livro fosse italiano seria ‘il ponte sopra il Drina’. Diz-me que sim, que é verdade e depois dá-me o título em croata: ‘na Drini Cuprija’. ‘Hvala’ digo eu e retomo a leitura deste belo livro, que é a história de uma ponte e de tudo em torno dela. Uma ponte praticamente inabalável, indestrutível, como um símbolo de resistência e força que permanece ao longo dos séculos.

Vou ora a ler, ora a contemplar a paisagem até Zagreb. Quando chegamos, um dos rapazes que trabalha no comboio tira-me a mala da grade e pergunta-me de onde sou. Conversamos ali de pé, perto da saída. Pergunta-me se viajo sozinha. Sim, respondo eu (tantas vezes a mesma pergunta). E não me sinto sozinha? Raramente. Quase nunca. Sorri-me e tira-me a mala para a plataforma. Agradeço e desejamo-nos mutuamente boa sorte.

Cá fora apanho um taxi. O taxista mal fala inglês. Ainda assim faz-me muitas perguntas, sendo a primeira, claro, se sou italiana. Não, não sou italiana, sou portuguesa. ‘Oh, Portugal, que belo país’. Digo que sim, que é. Pergunta-me de onde venho, se as férias estão a acabar. É verdadeiramente simpático e não me aldraba no preço. Tenho esta teoria de que uma cidade se conhece, em boa parte, pelos seus taxistas. Ou de que começamos a gostar delas através deles. Até agora, no que a esta teoria diz respeito, tenho-me enganado pouco. O taxista deixa-me à porta do hotel, dizendo-me ‘welcome to Zagreb’. E não sei se é disso, mas sinto-me realmente bem vinda.

Comments


  1. Gosto do romantismo que a viagem de comboio (lento) sempre proporciona.
    Vejamos o que nos diz de Zagreb…
    Beijinhos.

  2. Fernando says:

    Um hotel e’ sempre um “bocadinho” melhor do que um hostel.
    Continuação de umas boas ferias. Estou também a’ espera das minhas ferias, cujo verão começa la’ para o fim do ano……


  3. também eu mfc. De Zagreb, até ver, direi apenas o melhor. Beijinhos.


  4. depende Fernando. seja como for, este é maravilhoso. boas férias, quando começarem. as minhas estão quase a acabar. 🙁

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