Tributo a Dóris Graça-Dias

doris

 

Está ainda por fazer, creio, uma Taxonomia das categorias de “Amigo” pós-facebook. A vox populi, no que concerne a este tema, não contempla, de forma assertiva, universal e comummente aceite, as novas “espécies” emergentes do conhecimento virtual e das tipologias de “afecto” do “encontro” e relacionamento por meios digitais.

A realidade re(conhecida) pela maioria não fugirá muito das categorias hierarquizadas abaixo, da mais intensa e relevante para a menos intensa e relevante:

Melhor Amigo

Amigo de Criação (dominado pela coincidência geográfica)

Amigo de “situações limite” – militares, bombeiros, etc.

Amigo de Infância, do Secundário, da Faculdade, do Trabalho

Amigos “coloridos”

Amigos “grosso modo”

Amigos “dos copos”

Conhecidos (com empatia)

Conhecidos (com antipatia)

Hostis (por razões várias)

Indiferentes (os restantes)

Esta é uma taxonomia possível, com a paralaxe inerente às condições de género (masculino, no caso), de idade, de “origem” e “integração social” do seu criador. Não esgota, nem o ambiciona, o tema. Muito menos ser exaustiva ou “a certa”. É uma, apenas, e tem um propósito meramente instrumental: é necessária. Serve tão bem, ou tão mal, como qualquer outra, como todas as outras.

A generalização do uso do FB, e das redes sociais, originou novos tipos de relações, interacções, afectos e desafectos, que, se por um lado podem subsumir-se, por analogia, numa das categorias acima, por outro assentam e desencadeiam interacções que, pela própria natureza do meio, não “cabem” nas fronteiras de nenhum dos tipos elencados, em alguns casos por excesso, noutros por defeito, com muitas zonas “cinzentas” que por vezes se sobrepõem, outras se repelem. São múltiplas as possibilidades:

Amigos do FB que conhecemos da “vida real”

Amigos do FB (aqui conhecidos)

– com quem temos grande empatia

– com quem partilhamos a Ideologia, a Cultura ou algum período da nossa Vida. Também as simpatias futebolísticas, religiosas, políticas e outros interesses afins. Isto ou o seu contrário aproximam ou afastam as pessoas, geram animosidades e criam proximidades, conduzem ao “bloqueio” ou “a seguir” (de) indivíduos. Há frequentemente emoções envolvidas, da repulsa à admiração.

E onde param os afectos no meio de tudo isto? A amizade tem muito que ver com a Confiança e os “conhecimentos” virtuais não resolvem esta questão de forma satisfatória. É certo ser possível admirar sem gostar. Ou a inversa. É igualmente fácil gostar dos que frequentemente concordam connosco e vice-versa. Mas esse será sempre um gostar amputado “do Tempo” e, por essa razão, da Confiança.

Eu conheci a invulgar Dóris Graça-Dias no Facebook. Ficámos amigos. Partilhávamos um enorme leque de ideias e divergíamos em algumas outras. Ela expunha sempre o seu pensamento com enorme frontalidade. Eu retribuía-lhe na mesma moeda. Tivemos, por isso, debates acesos, vivos, umas vezes do mesmo lado, outras em trincheiras opostas.

Ela chegou a perguntar-me se porventura iria mantê-la como “amiga”, ao que respondi que muito dificilmente alguma vez viéssemos a deixar de ser amigos. E respondi com grande sentido de responsabilidade e depois de reflectir profundamente sobre o assunto.

Nunca conheci a Dóris fora do FB, o que tem pouca importância. Comecei por admirá-la de forma singular. Depois passei a respeitá-la, mesmo quando discordava. Por fim, passei a sentir-me como se nos conhecêssemos desde sempre e a gostar dela como se esse conhecimento se fundasse em experiências, momentos e confiança do mundo real.

Perdi uma “amiga”, no sentido mais rigoroso do termo: estou de luto. O jornalismo perdeu um indefectível da Deontologia e da Escrita. A Língua Portuguesa perdeu uma das que mais, e melhor, a cultivava. A civitas perdeu uma grande mulher.

Precisava de escrever este texto para me despedir de alguém que ficará sempre comigo de certa forma, dar publicamente conta dos sentimentos e emoções que a Dóris me inspirava e seguir em frente!

Não se trata de um Adeus mas sim de um Até à Vista, Camarada!

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