A elegância da cegueira

“Pedro Passos Coelho – Pelo que fez nestes quatro anos. Foram anos para muita gente de sofrimento e miséria. Mas tudo teria sido pior sem a tranquilidade e constância do primeiro-ministro. Não houve nada que a esquerda não dissesse sobre ele: não houve insulto, nem calúnia, nem mentira que não saísse da sua habitual grosseria e desonestidade. Passos Coelho aguentou tudo e transmitiu ao país, no meio da catástrofe em que o meteu o PS, alguma confiança e algum ânimo. Merece o nosso respeito.” – Vasco Pulido Valente em “Os Melhores do Ano” – publicado na edição de hoje do Jornal Público.

Vasco Pulido Valente, ele próprio, de pena em riste, a escrever enquanto molha o 1001º Sonho da noite em Vinho tinto de Chipre.
Quem ler estas palavras ficará a imaginar que Passos Coelho, aquele que tudo aguentou, que tudo desmoronou, que tudo omitiu, que tudo trapaceou, que tudo escondeu, que economicamente tudo rompeu, foi de facto um grande Estadista, estoico até à medula. Arrisco-me porventura a dizer que Pulido Valente pintou aqui o quadro de Churchill durante o ano de 1942. Mas não, foi mesmo o retrato mais desonesto da figura que, 4 anos depois, deixou o país com mais um menino gordo nas mãos, cujo guião de reformulação foi tantas vezes expressado com boçalidade mas nunca foi executado, com uma dívida a atingir 130% do PIB (mais 69 mil milhões em relação ao que já tinha em 2011; quase tanta como a criada em 6 anos pelos governos de Sócrates) com menos 500 mil residentes, com uma Segurança Social falida, com uma educação de Cá-Cá (ou será Kaká), com uma procura interna de soma negativa, com menos umas quantas dezenas de milhares de empresas, com salários médios desvalorizados em 20% tendo em conta o salário médio de há 4 anos atrás, com um Sistema Nacional de Saúde que mais parece uma máquina de mortandade, completamente asfixiado e destruturado, com uma cultura de chinelo, com 35% de desemprego jovem, com 15% de desemprego real, com 20% da população a viver em situação de pobreza, Miséria ou mesmo emergência social, com 1 milhão de trabalhadores precários. And so on.

Pulido Valente foi provavelmente um daqueles a que Passos não foi aos bolsos. Foi provavelmente um daqueles que não viu um familiar morrer nas urgências de um hospital. Foi provavelmente um daqueles que não soube como alimentar, vestir ou dar educação aos filhos. Foi provavelmente um daqueles que em 2011 não perdeu o emprego e nunca mais pode regressar ao mercado de trabalho pelas limitações tão genuínas que este impõe aos que são considerados como “velhos”. Deverá ser assertivo referir que Pulido Valente não passou fome durante este 4 anos. Nem fome nem sede. Se o tivesse passado não estaria aqui a tentar afirmar que quem passou pela miséria, teria passado bem pior se não fosse a galhardia do primeiro-ministro que não teve medo de insultar os portugueses enquanto era confrontado com a realidade pela esquerda e não insultado como é habitualmente timbre da direita quando os factos começam a fazer escassear os argumentos.

Vasco Pulido Valente é um idiota e dos idiotas só comem aqueles que partilham da sua idiotice.

Comments

  1. Konigvs says:

    É curioso esse sujeito escrever no Público, jornal que foi ameaçado de ser silenciado pelo tutor do mesmo menino ex-primeiro-ministro que ele tanto defende.


    • Já ninguém se lembra. Assim como ninguém se lembra que o tutorando do Vasco Pulido Valente, o Pedro Lomba, também foi contratado pelo governo ao Público.

  2. Nascimento says:

    Vinho tinto?do Chipre? Mas então o treme -treme com voz enremelada, não é só whiskie?

  3. José Chorão says:

    Vasco Pulido Valente é bem representativo do estado de degradação intelectual e moral a que desceram os comentadores políticos.
    Se existe falta de qualidade generalizada na classe política portuguesa,a situação é mais dramática, ainda, nesta chamada classe de comentadores. Cada um mais desonesto, ignorante, manipulador, demagogo…que os outros. Abençoado comando que nos permite mudar de canal (ou não ler o Público).
    Precisávamos de novos políticos, saídos do povo que trabalha e não das Jotas partidárias; mas também precisávamos de novos comentadores políticos, saídos das pessoas honestas e íntegras. Que as há, sim.

    • Konigvs says:

      “Abençoado comando que nos permite mudar de canal” e dar a perceção de que temos realmente o poder de escolha. De poder escolher sempre a mesma linha ideológica de manipulação e de formação de exércitos de mortos-vivos verdadeiramente submissos.

      • José Chorão says:

        Tem toda a razão.Mas o comando também nos permite desligar a maldita caixa. Conhece a frase de Mark Twain? Dizia ele “Desde que apareceu a televisão tenho aprendido imenso: sempre que alguém a liga eu vou para outra sala ler um livro”.
        É isto.

        • Victor Nogueira says:

          Mark Twain ? No tempo dele nem se sonhava que haveria de ser inventada a TV

          • José Chorão says:

            Tem toda a razão, evidentemente. Obrigado pela chamada de atenção. Foi confusão minha com o autor. Aqui fica a correcção:

            “Acho a televisão muito educativa. Toda as vezes que alguém liga o aparelho, vou para outra sala e leio um livro.”
            Groucho Marx


  4. VPV é um Cavaco Silva que leu mais uns livros e não escreveu roteiros.


  5. Antonio Gramsci explicou tudo isso numa das suas teorias. Deixo aqui o mote para o meu próximo post no Aventar.


  6. É preciso haver lata