Síndrome do sobrevivente – a culpa de continuar a existir


Alguns amigos discordam do tom cáustico que muitos de nós têm usado na crítica à cobertura televisiva da tragédia de Pedrogão Grande. Por mim, admito que algumas das abordagens que aqui tenho feito têm sido algo duras, já que considero esta questão fundamental, e de um alcance que está longe de se limitar a estes eventos. Nesse sentido, julgo, até, ter sido contido. Para além de a maioria dos repórteres fazer um trabalho de manipulação das consciências na mais grosseira linha tablóide – enquanto nos estúdios se trata das tarefas de manipulação mais tecnicamente política – quase todos jogam um jogo muito perigoso ao insistir em remexer nas emoções e feridas emocionais das vítimas com, por vezes, o entusiasmo de um torturador.

Os sinais de dificuldade em assumir a própria sobrevivência e o sentimento de culpa que se vai instalando no espírito de muitas destas pessoas pode ter consequências a longo prazo gravíssimas. O chamado “síndroma do sobrevivente”, amplamente estudado, sobretudo no pós-guerra e a propósito dos sintomas psíquicos apresentados por muitos dos sobreviventes – o caso das vítimas do Holocausto é o mais notório -, pode gerar nos que sobrevivem a uma calamidade, uma guerra ou, até, um despedimento colectivo a que se escapa, um quadro que leva à auto-culpabilização, com sintomas físicos, psíquicos, comportamentais cujas consequências podem ser funestas.

Não aceito nem acredito que os repórteres não saibam disso. Por isso, não há perdão para muitas das técnicas de interrogatório – meço as palavras – que utilizam quando cercam as vítimas, de microfone em riste. O título que chegou a figurar na capa do Público a propósito de uma tragédia familiar de um homem que perdeu a mulher e duas filhas mas salvou-se e salvou outros familiares num outro carro – “Mário mandou mulher e filhas para a morte” – penso dar a medida do que estou a tentar transmitir e explica porque, apesar de tudo, considero, como muitos dos meus amigos, ter sido contidos e sóbrios nos termos usados.

É que a desorientação, a inconsciência, a boçalidade que têm perpassado por muitos dos trabalhos de reportagem – designadamente a repetição até à náusea de entrevistas às vítimas mais desesperadas – , não são só tendenciosos e profissionalmente indigentes. São perigosos. Muito perigosos.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    O nosso jornalismo está para a comunicação social, no sentido lato, como o eucalipto está para a floresta. Digamos que o mau jornalismo, sendo uma praga, tem causa profundas, lá no fundo da irracionalidade humana, tal como as raízes do eucalipto vão buscar a água de que necessitam, muitos metros abaixo do solo, secando tudo à sua volta.
    Hoje o jornalismo depende das audiências e da agenda política do patrão. O resto é tudo mentira.
    Tal qual, o eucalipto depende da rapidez e da multiplicidade com que se desenvolve e reproduz, para ser cortado ao fim de poucos anos, (lá está, as audiências), e da agenda comercial do patrão, por ex: as celuloses.
    Mas contrariamente às celuloses, que querem o eucalipto intacto e “são”, para o mau jornalismo, o importante é que ele arda. Seja o eucalipto, o pinheiro bravo, ou outra espécie qualquer.
    Que o fogo pegue, e pegue bem! De preferência com muitas vítimas! Se estiveram a estrebuchar de dores, melhor ainda! Se estiverem moribundas, tentar que falem, nem que sejam as suas últimas palavras! Ou que se pronunciem a quente, sobre o cadáver do familiar é amigo, que jaz aos pés. Enfim, a negação da racionalidade, porque o que interessa é a adrenalina do pânico com cheiro a tragédia, a morte.
    Já que não conseguimos acabar com o mau jornalismo, afinal, ele só existe porque nós o alimentamos, quanto mais não seja com aquela “costela voyeur” que todo o ser humano tem, vamos ao menos tratar do eucaliptal, colocando-o na sua verdadeira grandeza, para que não seque de vez, tudo à sua volta. Incluindo a nossa razão.

    • Carlos Silva says:

      De facto ninguém achava graça nem acreditava se a notícia em letras garrafais fosse: ” aldeias poupadas por tempestade de fogo devido a atuação coordenada dos serviços de segurança” ou ” dia mais quente do ano: zero mortos!” mas devia fomentar-se uma cultura das boas práticas e até haver prémios de produtividade por bons resultados: “zero reclamações” e neste caso “zero mortos”! ( talvez o zero seja subestimado por causa da nossa cultura futebolística pois “zero” é sinónimo de fracasso, erro e de não marcar golos!)

    • Luís says:

      “O nosso jornalismo está para a comunicação social, no sentido lato, como o eucalipto está para a floresta.”
      Bem comparado.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Não se preocupe com isso. Há também o síndroma do “politicamente correcto” de que se usa e abusa nesta sociedade e que mais não é que ausência de coluna vertebral. E por isso, muitos agentes vão passando entre as gotas da chuva sem se molharem.
    A verdade existe para ser dita e não para ser torneada.
    Há cerca de 30 anos que vimos assistindo à depredação da floresta por razões que estão super identificadas.
    A eucaptalização das florestas tem vindo há largas dezenas de anos a ser denominada de crime, pelas consequências que vem incutindo ao panorama florestal, incluindo os incêndios e a secagem das veias freáticas.
    Há dezenas de anos que os papagaios políticos vêm falando de políticas de ordenação e de prevenção. Há três dias o actual presidente e o actual primeiro ministro vieram falar na necessidade do ordenamento territorial. Estas declarações só podem sair de quem é desmiolado, de quem vive noutro país ou de quem pretende cobrir erros de amigos do passado e também do presente.
    Gente incapaz de assumir uma responsabilidade.
    Esta classe política perdeu há muito a vergonha e não merece que percamos muito tempo com eles.
    Os repórteres seguem exactamente o mesmo caminho: copiam modelos e usam e abusam dos sentimentos primários das pessoas. Outra classe de abutres. É a imagem do morto, do sangue, do cemitério, do desastre. E, alguns deles, intitulam-se de “jornalistas”.
    Esta gente está lá para fazer aplicar uma linha redactorial e sabem que serão despedidos se o não fizerem. O que interessa é o “share”, tal como ao político só interessa o voto.
    E, desta forma, estas duas espécies de abutres vão vivendo. Mas a responsabilidade é inteiramente nossa, votantes, leitores e compradores de jornais e assistentes de televisão.
    Compete-nos fazer uma escolha de gente séria e, infelizmente, a maioria dos Portugueses não quer ou não sabe o que fazer…

    • Será que “A Geografia serve antes de mais para fazer a guerra”? Qualquer pirómano ou indivíduo criminoso que chegue a Portugal ( e até mesmo do próprio país) se se quiser divertir é muito fácil: basta consultar as previsões do IPMA das temperaturas para cada localidade e da observação local selecionar a floresta mas próxima de estradas e a que tem mais entulho. É esta fragilidade e vulnerabilidade que arrepia! Até podia ter sido um ato terrorista impossível de averiguar pois o fogo apaga as provas. Há populações encurraladas sem o saber, o território que habitam as faz prisioneiras. Era como se Hitler enviasse tropas para combater a Rússia sem avaliar o impacto do “General Inverno”.

Trackbacks

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