Síndrome do sobrevivente – a culpa de continuar a existir

Alguns amigos discordam do tom cáustico que muitos de nós têm usado na crítica à cobertura televisiva da tragédia de Pedrogão Grande. Por mim, admito que algumas das abordagens que aqui tenho feito têm sido algo duras, já que considero esta questão fundamental, e de um alcance que está longe de se limitar a estes eventos. Nesse sentido, julgo, até, ter sido contido. Para além de a maioria dos repórteres fazer um trabalho de manipulação das consciências na mais grosseira linha tablóide – enquanto nos estúdios se trata das tarefas de manipulação mais tecnicamente política – quase todos jogam um jogo muito perigoso ao insistir em remexer nas emoções e feridas emocionais das vítimas com, por vezes, o entusiasmo de um torturador. [Read more…]

As notícias e as coisas

As notícias das sarjetas televisivas centraram-se, sobretudo, na busca dos lugares onde não havia bombeiros. “Está aqui o corpo de uma mulher”, zurra uma, “então os bombeiros não lhe ligam nada, não vem cá nenhum?”, relincha outro, “a culpa foi dos bombeiros?”, grunhe outro, “não acha que o primeiro ministro é que devia estar aqui? e o presidente?”, ladra o seguinte. Vamos ligar aos estúdios. Lá, além dos cachorros de regaço habituais, que destilam as segregações opinativas do costume, falam – raras – pessoas que ganharam a legitimidade de quem há muito propõe soluções pertinentes. Volta ao terreno.

Parece que há centenas de bombeiros no terreno, pelo que é cada vez mais difícil aos repórteres encontrar sítios onde não estejam bombeiros, para poderem proclamar que não estão lá bombeiros, sim, onde estão os bombeiros? “A senhora não se sente abandonada?”, guincha o do microfone.

Começam a passar imagens de arquivo, repetindo cenas já dadas e baralhando completamente a percepção da linha temporal dos acontecimentos. Continua a não haver bombeiros. Ouvem-se “personalidades”. Mas não havia bombeiros em lado nenhum, pelo que se pode concluir que os repórteres é que são o heróis destes acontecimentos. Pois se não há imagens de bombeiros em acção, só há sítios onde não há bombeiros… [Read more…]

O inigmático Correio da Manhã

A Correio da Manha TV é tão singular, que, pelos vistos, tem o seu próprio acordo ortográfico. Isso e um gosto sádico-sensacionalista por recuperar temas como o da menina raptada no século passado.

Boicote ao Correio da Manhã

CMH

Via Os Truques da Imprensa Portuguesa, onde vale também a pena ver o video que acompanha o texto em baixo.

O Correio da Manhã ultrapassa todos os limites nos métodos que usa para obter mais audiências. Nos últimos tempos, transmitiu imagens aéreas do funeral de uma criança e ontem, perante os atentados de Nice, passou em loop vídeos com mortos.

Com esta agenda, o Correio da Manhã e o CMTV fazem um boicote à decência. Talvez esteja na hora da decência fazer também um boicote ao Correio da Manhã e CMTV. Mas seria absurdo sugerir à comunidade dos Truques que deixasse de os ver ou deixasse de os ler. Felizmente, em 99% dos casos, não partilhamos os públicos.

Propomos, em alternativa, que sempre que virem aquele famoso microfone vermelho, se dirijam a ele e digam: “É para a CMTV? Então não vou falar…” Podem experimentar formulações diferentes com o mesmo sentido. Acreditem: vai ser divertido!

É fundamental que todos partilhem esta iniciativa para fazê-la chegar o mais longe possível.
É para a CMTV? Então não vou falar…

Imagem via As minhas insónias em carvão

Lixo jornalístico II

CM

Estamos a alertar os cidadãos dos EUA para o risco de possíveis ataques terroristas em toda a Europa, visando grandes eventos, pontos turísticos, restaurantes, centros comerciais e meios de transporte”, pode ler-se no comunicado do governo norte-americano, citado pelo site Independent.

O drama, a tragédia, o horror. Tenham medo, tenham muito medo…

Lixo jornalístico

Doces

O ministro da Saúde quer acabar com a venda de doces e salgados nos hospitais. O Correio da Manhã chama-lhe cortes, que fica sempre melhor e tem aquele odor a austeridade que ajuda à propaganda. Mas o pior, oh heresia, é que o vilão como chocolates. Porque tem tudo a ver. Hoje os hospitais, amanhã o estalinismo absoluto contra a liberdade de escolha alimentar dos portugueses. O drama, o horror, a tragédia. Já imaginaram o sacrilégio que seria um ministro da Saúde fumador que ousasse implementar medidas antitabágicas mais apertadas? Portugal não aguentaria. [Read more…]

Golpe de manchete

professores_campanha

Olha para isto, pá! Olha-me só para este título do Diário de Notícias! Os alunos, ali, prontos para terem aulas, se calhar sentados na sala e tudo, e os professores, esses malandros, vão-se embora, pá, e deixam os miúdos sem aulas! Isto é uma vergonha, é o que é! E para fazer campanha, imagina! Com um bocado de jeito, ainda vão fazer campanha por algum partido que não devem. E isto dos políticos são todos iguais, ainda são piores que os professores. Um professor político deve ser lindo, deve! É que devem estar tanto na campanha como nas aulas. Ler o quê? Ler a notícia? Estás parvo ou quê? Mas então tu achas que iam pôr um título destes, que se está mesmo a ver que estão a chamar malandros aos profes, e iam escrever uma notícia ao contrário? Isto é escrito por jornalistas, amigo! Se não fossem eles, estas coisas não passavam cá para fora. Chulos do caraças, pá! Vou já ligar ao meu puto, a dizer-lhe que não vá para as aulas, que vá mas é para a campanha, pode ser que aprenda qualquer coisa.