Tumor maligno da democracia

É o partido cujo vice-presidente afirma que o jornalista é o tumor maligno da democracia.

Um prémio Nobel da Paz bem entregue

O Prémio Nobel da Paz deste ano foi entregue aos jornalistas Maria Ressa e Dmitry Muratov, pelo corajoso trabalho no ambiente hostil dos regime autoritários das Filipinas e da Federação Russa, respectivamente. Neles, presumo, o Comité Norueguês homenageia todos aqueles que lutam pela liberdade de expressão e de informação, que lutam pelo jornalismo livre, nesta era da fake news, de manipulação em massa da opinião pública, de normalização do discurso de ódio, da ignorância arrogante daqueles que atacam os jornalismo porque viram a verdade absoluta num qualquer vídeo no YouTube, postado por um chalupa qualquer, e de ditadores branqueados com epítetos como “iliberal”. O trabalho do jornalismo, mais do que nunca, é fundamental para combater o retrocesso democrático, em particular no Ocidente onde muitos achavam ter chegado ao “fim da História”. Não chegamos. E a luta continua! Viva o jornalismo, vivam as liberdades de imprensa e de expressão!

A Deontologia vai de Expresso

Segundo o nosso leitor A. Rebelo Reis, o actual director do Expresso, João Vieira Pereira, acumulou o jornalismo com a assessoria enquanto responsável pela estratégia de comunicação da Federação Portuguesa de Golfe.

Este nosso leitor apresentou uma queixa ao Conselho Deontológico da Carteira Profissional no passado dia 10 de Março:

Serve este email para apresentar participação contra João Vieira Pereira, atual diretor do jornal “Expresso”, por prática de atividade incompatível com a profissão de jornalista.
Entre 2012 e 2016, João Vieira Pereira integrou a direção da Federação Portuguesa de Golfe (FPG), presidida então por Manuel Agrellos, como é facilmente comprovável neste Relatório e Contas da FPG:

http://portal.fpg.pt/wp-content/uploads/2017/09/RelatorioContas-2014.pdf

Na apresentação da candidatura, Agrellos admitiu que o então diretor-adjunto do Expresso e também diretor da revista “Exame” ficaria “responsável pelo desenvolvimento da imagem e divulgação da Federação Portuguesa de Golfe”:

http://portugalgolf.pt/paginas_212/noticias_varios_8_2012_04_02.htm

Tal situação colide com o art.º 3 do Estatuto do Jornalista: “O exercício da profissão de jornalista é incompatível com o desempenho de: (…) Funções de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem (…)”
De igual modo, parece não respeitar o artigo n.º 11 do Código Deontológico dos Jornalistas: “O jornalista deve recusar funções, tarefas e benefícios suscetíveis de comprometer o seu estatuto de independência e a sua integridade profissional.”
Alguém admitiria que um diretor do Expresso ou de outro jornal de referência fosse, por exemplo, membro da direção da Federação Portuguesa de Futebol, ficando responsável pelo “desenvolvimento da sua imagem e divulgação”?
Na mesma altura em que João Vieira Pereira era diretor-adjunto do Expresso e membro da direção da Federação Portuguesa de Golfe, o semanário distribuía um suplemento de golfe que chegou a noticiar a participação do seu diretor-adjunto num torneio de golfe patrocinado pelo jornal:

https://docplayer.com.br/33047696-Uma-equipa-do-expresso-vai-pela.html

Em 2016, João Vieira Pereira foi candidato a vice-presidente da Federação Portuguesa de Golfe na lista liderada pelo antigo ministro da Saúde Luís Filipe Pereira. A votação acabou, porém, por ser vencida pela lista adversária, liderada pelo atual presidente, Miguel Franco de Sousa.
Face ao exposto, solicito à Comissão da Carteira Profissional de Jornalista que abra o competente processo de contraordenação para avaliar se a atividade desenvolvida por João Vieira Pereira durante o período em que integrou a direção da Federação Portuguesa de Golfe (2012/2016) é ou não compatível com a atividade de jornalista.

Melhores cumprimentos,

A. Rebelo Reis

Nos últimos tempos sucedem-se notícias nada agradáveis para o jornalismo em Portugal. Não sei se repararam mas, por exemplo, os telejornais da noite dos dois canais privados (SIC e TVI) misturam, cada vez mais, informação com peças “jornalísticas” a promover os seus programas de entretenimento.

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Adoro o cheiro a napalm logo pela manhã

“E eu que pensava que a riqueza reside na nossa enorme diversidade. E eu que pensava que todos contam e são iguais. Sou uma utópica, que, provavelmente, nada sabe sobre o que é ser lusitana” – Hermana Cruz, jornalista.

Melhor que ninguém, uma jornalista do Porto sabe bem o que custa esta espécie de insularidade para todos os profissionais, dos mais diversos ramos, em que se vive fora da “capital do império”. Seja no Porto, em Braga, Vila Real, Coimbra, Aveiro ou Viseu. Sem esquecer Faro, Évora ou Beja, só para citar alguns exemplos. Ontem, tomou como exemplo o Porto, o FC Porto. Volto a citar Hermana Cruz: “Nacionalismo assim, carregado de preconceito regionalista e clubístico, mostra-me o que é ser portuguesa”. Mas o futebol é apenas a ponta do icebergue de um país que, hoje, não passa de um arremedo. E o FC Porto é apenas uma vírgula em toda esta história. 

Vamos ao exemplo de ontem em que o FC Porto levou de vencida a Juventus de Cristiano Ronaldo. Por partes.

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Carta Aberta ao jornalista Pedro Tadeu (DN)

O jornalista Pedro Tadeu escreveu ontem, no DN, um artigo sobre jornalismo. Sobre o que se passa no jornalismo actualmente. Citando:

“Desde que esse meu amigo me contou o que se passou com ele, sempre que vejo uma notícia sobre a covid-19 fico desconfiado: “Será mesmo assim ou isto foi uma encomenda?” E quando constato a grande quantidade de peças que estão dentro da área de interesses destes “recrutadores de jornalistas”, quando vejo que essas peças se repetem no foco e na mensagem, exageradamente, nos últimos meses, fico espantado com a minha ingenuidade estúpida: “Como é possível eu ter achado que isto era, apenas, um exercício editorial insensato e incompetente, mas genuíno?” A seguir vem o desgosto: “Como é que a minha profissão chegou a este ponto!?”

Aqui fica a minha carta aberta ao Pedro Tadeu:

Caro jornalista Pedro Tadeu, eu tenho um amigo, não sei se o mesmo, que já nos idos de noventa me contava existirem jornalistas no activo a fazer assessoria de comunicação para privados. Esse meu amigo deparou com altos quadros, dirigentes, de canais de televisão cujas mulheres (ou irmãs ou mesmo primas, a minha memoria já não me ajuda muito) trabalhavam ou eram donas de empresas de assessoria de comunicação e ele, pasme-se, avisava que se o “pedido” viesse por essa mão amiga, a coisa teria direito a telejornal e tudo, veja bem. Isto já em pleno novo milénio e, suponho, não deve ter mudado assim tanto. E advogados comentadores nos media que, simultaneamente, tratavam dos problemas pessoais dos seus entrevistadores? E o mesmo se diga no tocante a médicos? Já ele me falava na confusão entre o que era pessoal e o que era profissional. Nisso e nos políticos que conseguiam ser, simultaneamente, informadores do jornalista A ou B e articulistas no mesmo jornal ou comentadeiras na mesma televisão. Uma festa. Ou, usando as palavras desse meu amigo (será p mesmo?), um festim.

Caro Pedro Tadeu, pelo que percebi do seu amigo e juntando com o meu, desconfio que não se fique apenas pelo Covid, ao que parece já não se pode confiar em praticamente nada do que se vê nos noticiários tal a confusão entre o que são noticias e o que são apenas encomendas. É claro que aqueles 15 milhões não ajudam nada. Isso e a propriedade actual dos meios de comunicação. De qualquer forma, obrigado pelo seu artigo e que nunca nos faltem os amigos.

Com os melhores cumprimentos.

A “culpa” do jornalismo

[Miguel Carvalho*]
Ah, e tal, o jornalismo é o principal culpado do resultado de André Ventura. Sempre a dar-lhe voz, a fazer pé de microfone, a execrá-lo ou a pensar no próximo bitaite incendiário que virá dali, pois sempre virá alguma coisa.
Bem, sou capaz de concordar que Ventura e o Chega têm tempo de palha em demasia. Digo tempo de palha porque uma boa parte da antena está sempre a salivar com zaragata.
Mas o que sugerem: que o jornalismo se demita da sua responsabilidade de investigar, de escrutinar, de contrastar, de trazer a público aquilo que leve os cidadãos a tomar decisões mais responsáveis e aprofundadas, mesmo se escolhem não o fazer?
O que sugerem: que fiquemos sentadinhos a ver o andor passar e fazer de conta que não há um entertainer político hábil que ocupou o espaço de sucessivas irrelevâncias partidárias, do esquecimento a que foi votada parte do País, do ressentimento acumulado por tanto submundo engravatado e promessa por cumprir?
O que sugerem: que o jornalismo abdique de prestar um serviço público, independentemente da sociedade valorizar esse esforço, ainda por cima em tempos de recursos esganados?

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Coitadinho do Ventura. Alguém pegue nele ao colo e lhe dê muito miminho, que o jornalista mau fez dói-dói ao bebé

Os adeptos do Chega, tanto os mais ferrenhos, como aqueles que começam as frases com “eu não voto neles mas…” estão irritados com o timing da reportagem da SIC, dedicada ao partido de extrema-direita. Já eu prefiro saudar o Pedro Coelho, um dos melhores jornalistas de investigação deste país, que, ao contrário da narrativa repetida pelos adeptos do Chega, nunca poupou partido algum e já deixou em maus lençóis, várias vezes, os poderosos aparelhos do PS e do PSD, antes e depois de eleições. A reportagem sobre o caso BES, “Assalto ao Castelo”, por exemplo, é absolutamente destrutiva para o PS e para o consulado Sócrates. Já antes se havia também debruçado sobre o caso BPN, onde, claro, não poupou o PSD e o cavaquismo.

Podia continuar a enumerar exemplos, do Pedro Coelho e de outros excelentes jornalistas de investigação, como Paulo Pena ou José António Cerejo, mas seria inútil. O adepto do Chega não se interessa por dados objectivos, porque o Chega, tal como o catolicismo ou o islamismo, é uma religião, com enorme potencial para se transformar em fanatismo ideológico, cego e absolutamente imune a factos. Interessa-me, isso sim, sublinhar o seguinte: não há timings para fazer jornalismo. Este documentário está a ser produzido há largos meses, não tendo chegado ao ecrã mais cedo pelo mesmo motivo que tem colocado a nossa vida em suspenso: a pandemia. Não obstante, o jornalismo de investigação não tem que fazer compassos de espera para deixar passar procissões. Tem, isso sim, que informar devidamente o cidadão, para que este possa, no caso da antecâmara de um acto eleitoral, fazer a escolha mais informada possível.

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Pessoas que dizem que os outros têm mas é inveja

A crítica é algo tão desagradável que chega a ser desagradável até para o crítico. O criticado nunca gosta – é como perder um jogo: pode-se disfarçar, pode haver contenção, uma piada descontraída, mas é sempre mau.

São várias as reacções do criticado. Se for educado, será contido, declara que aceita, mentindo em grande parte, mas pensando sempre que a crítica é o fumo que prova a existência de um fogo.

Há, contudo, muitos mais espécimes. Há o criticado que afirma aceitar a crítica, mas. E a seguir ao mas, vêm desculpas não necessariamente esfarrapadas, porque também há desculpas bem vestidas, perfumadas.

Dentro do criticado nitidamente desagradado, há uma grande variedade de raças. Uma delas é o que critica a crítica, reclamando que seja construtiva. Ora, a verdade é que a crítica só é bem feita se for destrutiva – porque a crítica serve para destruir, cabendo ao criticado reconstruir a partir das ruínas.

O meu preferido, entre os desagradados, é o criticado que acusa os críticos de serem unicamente motivados pela inveja. Neste caso, o crítico só critica porque, no fundo, quer ser como o criticado.

Um dos mais conhecidos exemplares desta variedade é José Rodrigues dos Santos (JRS), acolitado por muitos dos seus fiéis. Diante das críticas de que é alvo nas várias actividades que pratica, JRS limita-se a acusar os outros de [Read more…]

Descubra as diferenças entre

isto:

e aquilo:

O Index e a nova Inquisição

Quem nunca ouviu aquela boa velha linha, que vai mais ou menos assim: “só dás valor às coisas quando já não as tens”? Eu já ouvi, várias vezes, em vários contextos e por vários motivos. A propósito dela, da boa velha linha, há algo que, em certos países, se está a perder. Um algo ao qual talvez não estejamos a dar o devido valor, e que, suspeito, estamos em risco de perder. E não é um algo qualquer. É o jornalismo, um dos pilares que sustenta o edifício das sociedades democráticas. Mais ou menos independente, a morte do jornalismo profissional é uma tragédia para a democracia. E está a acontecer. Aqui e agora, na União Europeia dos direitos humanos e da liberdade de expressão.

O jornalismo pode morrer de muitas maneiras. A mais comum e eficaz é a morte por autoritarismo. Chame-se o que se lhe quiser chamar: autoritarismo, nacionalismo, democracia iliberal ou totalitarismo. Ou o bolsoliberalismo evangélico, subespécie alternativa e ainda pouco estudada, que destrói o jornalismo ao mesmo tempo que cria páginas no Facebook e no Twitter, com pastores evangélicos que pregam o criacionismo e a teologia da prosperidade, através da qual burlam a ignorância e compram bons helicópteros. Com mais ou menos porrada, mais ou menos exploração, vai tudo dar – literalmente – ao mesmo. [Read more…]

Jornalismo versus Cidadania

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[Salomé Correia]

Um dos trabalhos mais importantes dos jornalistas é verificar a veracidade do que escrevem. Todo este artigo, do texto à imagem escolhida (convenientemente de protestantes que fazem parte do movimento Black Lives Matter) leva quem o leia a pensar que estes protestantes se estão a tornar violentos e a atacar a polícia.

Ora, eu estou cá – eu leio as notícias e vejo vídeos e conheço pessoas que por acaso até têm feito parte de algumas das manifestações.

A primeira coisa a apontar é que estas pessoas que estão, hoje, realmente a ser violentas, são de extrema direita – tendo efectivamente utilizado SAUDAÇÕES NAZIS durante as suas demonstrações. Não vejo isso a ser partilhado. Aliás, no artigo, a única coisa que dizem sobre estas pessoas é: “Alguns membros do grupo de extrema-direita Britain First foram hoje à Praça do Parlamento, segundo relatos dos meios de comunicação social, acompanhando o líder Paul Golding para proteger os monumentos.
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Sobre o insulto gratuito da TVI ao Norte de Portugal

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Sobre o insulto gratuito da TVI ao Norte de Portugal, é preciso, antes de mais, clarificar um aspecto muito importante sobre este caso: não são os lisboetas, ou sulistas, ou whatthefuckever que se acham coisa nenhuma. A TVI não representa o Sul, nem Lisboa, nem porra nenhuma abaixo do Rio Douro. Representa-se a si mesma, com o jornalismo sensacionalista que pratica, com o entretenimento medíocre que transmite. Por vezes, representa também a voz do dono, como quando, no final de 2015, lançou o pânico sobre o hipotético encerramento do Banif, levando imediatamente a uma queda abrupta do seu valor em bolsa, precipitando uma corrida aos depósitos e permitindo ao Santander adquirir a posição do Estado no banco a preço de saldos. O facto do banco Santander ser accionista de referência do grupo Prisa, que, por sua vez, era e (penso eu) continua a ser dona da TVI, não teve nada a ver com o assunto. Se é para conspirar, vamos conspirar sobre coisas sérias, tipo mortes por Covid-19 em massa no SNS, que o governo está a ocultar numa vala comum nas Berlengas, com ajuda do silêncio cúmplice de todos os partidos, OCS’s e dos familiares dos defuntos, todos pagos para se calarem. [Read more…]

Rodrigo Guedes do Caralho

Aqui no Norte, sem qualquer intenção de insultar ou diminuir, dizemos que alguém “é do caralho” quando esse alguém se destaca, seja de que forma for, pela positiva. Não deve a utilização do termo “caralho” ser aqui confundida com a que se pretende quando mandamos alguém “p’ró caralho”, ou quando dizemos que nos dirigimos a alguém como “seu caralho”, pese embora a expressão “seu caralho”, também utilizada com alguma frequência aqui no Norte, possa ter um sentido carinhoso e ser usada para cumprimentar amigos de longa data. [Read more…]

O futuro do jornalismo

“45 Graus” é um podcast de José Maria Pimentel, “economista de formação e curioso por natureza”, onde um convidado e o próprio falam sobre temas diversos.

Na edição número 60, JMP e Gustavo Cardoso, professor catedrático e investigador de Media e Sociedade no ISCTE, falou-se do futuro do jornalismo e dos seus desafios actuais.

Conversámos, então, sobre vários aspectos deste tema: fake news e propaganda, modelo de negócio dos jornais, o papel dos privados e o papel do Estado, a importância do jornalismo para a democracia, a necessidade de reinventar o jornalismo. Falámos também das especificidades do mercado dos jornais em Portugal, como a particularidade (que a mim me parece um mau sinal) de quase todos os nossos jornais terem um posicionamento político supostamente ao centro.

Vale a pena a audição.

#60 Gustavo Cardoso – O futuro do jornalismo

Redes

José Meireles Graça

Os senadores da opinião, com banca montada há décadas na sala-de-estar do cidadão distraído, não gostam das redes sociais.

Não foi sempre assim: Pacheco Pereira, por exemplo, alimentou durante anos o Abrupto, até 2016. E não deve ter sido apenas a decadência da blogosfera (que não medi; é uma observação impressionista) a afastá-lo, mas antes a constatação de que todo o cão e gato pode fazer, e faz, blogues.

Miguel de Sousa Tavares espumava há tempos de raiva contra o Facebook. E não é possível ler as caixas de comentários dos jornais on-line sem um sobressalto, tal o primarismo das opiniões, a violência das soluções defendidas para problemas reais ou imaginários, a ausência de gramática ou um módico de cultura geral, e o intenso ódio que se manifesta a propósito da indignação da semana.

Depois, Trump foi eleito com o subsídio do Twitter (uma rede especializada em espirros opinativos) e Bolsonaro do WhatsApp (semelhante grosso modo ao  Facebook, com grande difusão no Brasil). E estes dois, Trump e Bolsonaro, carregam o ferrete ignominioso de não serem de esquerda, nem da direita que a esquerda tolera por não ser de direita – navegamos em pleno escândalo.

(Nota: Antes destes dois já Obama tinha sido eleito com grande campanha no Facebook; a esquerda, na altura, orgulhou-se, achou muito “moderno” e “despojado” e “popular”, mas agora está com amnésia). [Read more…]

“Fake news”

Até lá vem a foto a prová-lo: quem lê o artigo da Sábado fica a saber que companhia aérea Emirates tem um avião forrado a diamantes. A Sábado garante mesmo que a artista paquistanesa é conhecida pelas suas “criações com brilhantes”. Só não diz que a artista cria imagens digitais com cristais à mistura. E, portanto, nunca revestiu nenhum avião com pedrinhas brilhantes. 
O lapso jornalístico teria apenas piada se uma multidão de comentadores se manifeste, minuto a minuto, com o ultraje que é a “ostentação” de riqueza por parte da companhia aérea.  
Ah, a Emirates diz claramente que a imagem é uma criação  da artista Sara Shakeel. Uma criação, a imagem, não a porra do avião… que, claro está, não fez nenhuma viagem “brilhante” entre o Paquistão e Itália.

O Aventar não é de Esquerda

Há dois dias, saiu na SIC uma peça sobre Fake News. Não nos pronunciando sobre o conteúdo da peça, algo que apenas faz sentido em publicações individuais, dada a inexistência de uma linha editorial no blog, não podemos deixar passar em branco uma imprecisão jornalística, nomeadamente a afirmação sobre o Aventar ser “um blog de esquerda“.

O Aventar é, desde o seu início, um blog pluralista, com autores de todos os quadrantes, políticos e não só. Quem lê o Aventar com continuidade, poderá constatar que assim é. Cada autor publica sobre os temas que bem entende e quando acha oportuno. Daí poderá resultar um maior número de posts considerados “de esquerda” – tanto quanto estas categorias ainda sejam referenciais válidos. Apenas artigos assinados pelo autor Aventar constituem posições colectivas de comum acordo.

O Aventar é, há 9 anos, um espaço pluralista, de controvérsia e de saudável debate. E assim continuará a ser.

Incêndio em directo

Fotografia: Pedro Nunes/Lusa@Expresso

Eram 04:30h, mais coisa, menos coisa, e vários canais continuavam a transmitir imagens do incêndio que lavrava na Serra de Sintra. Havia câmaras entre mangueiras, coadjuvadas por jornalistas esbaforidos, e relatos emocionantes sobre a proveniência dos meios de combate. Porque a exploração mediática do negócio dos incêndios não tem limites. É showbiz.

Braga, a cidade do Medo e do Respeitinho

Autarca que foi da “terceira cidade do país”, Mesquita Machado foi ontem condenado a “a três anos de prisão, com pena suspensa, no processo relacionado com a expropriação do quarteirão das Convertidas”.

Como anuncia a condenação os jornais locais?

O jornal da diocese, o Diário do Minho, publica um texto da agência Lusa. Apesar de este jornal estar sediado em Braga, por respeitinho, vai buscar um texto sobre um tema brácaro a Lisboa. É compreensível. O arcebispo e empresário da fé, jorge ortiga, não gosta de alimentar polémicas, um pouco à semelhança do cordato e consensual Cristo.

O Correio do Minho, jornal ex-propriedade da Câmara Municipal, transformado que está num republicatório de boletins camarários e empresariais, não tem uma única linha sobre a sentença aplicada a Mesquita Machado.
O seu director, Paulo Monteiro, ou tem graves problemas de memória ou, digo eu, entende que os bracarenses são estúpidos. Alguns são mas são a minoria.

 

“Semanário de Notícias”

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[Marco Faria]

O “Diário de Notícias” vai acabar tal como o conhecemos. No dia 17 de Junho, passa a semanário com tiragem aos Domingos. Não é só a contradição de um diário ajustar-se a uma periodicidade semanal – teria de chamar-se em rigor “Semanário de Notícias”, mas isso é talvez o menos importante – é todo um modelo que vai mudar.
Eu habituei-me a ler e respeitar o “Diário de Notícias” (e primeiro foi o “Jornal de Notícias”) como publicação com peso histórico, documento vivo, isento ou contaminado nos bons e maus momentos de Portugal.
A culpa é também nossa, dos leitores 2.0, que deixámos de comprar jornais em papel. Mas, ainda antes da crise das tiragens, ocorreu a tomada de assalto de jornais por grupos económicos que, mais cedo ou mais tarde, abandonam os projectos, deixando um rasto de destruição e de muito de vazio.
Talvez seja uma fase temporária e o DN possa vir a reerguer-se como Fénix renascida. Sempre me fez confusão a distância entre directores/editores/administradores e a restante redacção. Há qualquer coisa que não bate certo, e mais estranho é quando um jornal se torna no centro das notícias pelas piores razões. Longa vida ao DN, que tudo é efémero. É uma sensação angustiante ver a desgraça do jornalismo português neste estado. Que parem as pessoas para pensar.

Manual de jornalismo – ou, vá lá, de produção de parangonas

Depois de repetirem 11 vezes a mesma pergunta, mais palavra, menos palavra, a dupla David Dinis e Eunice Lourenço, lá consegui sacar um título para a peça. Não era a parangona aparentemente desejada, como por exemplo “Presidente demitirá Governo se a tragédia se repetir”, mas lá teve que servir.

Incêndios. Marcelo não se recandidata se falhar tudo outra vez

Obama vai ou vem?

O Expresso, que é um jornal publicado num país estrangeiro qualquer, diz que Obama “vai ao Porto”. O Jornal de Notícias, que é um jornal publicado em Portugal, diz que Obama vem ao Porto, que é uma cidade portuguesa. Quem fala verdade?

Pedro Rolo Duarte

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© Global Imagens

Humberto Almendra

Conheci o Pedro como director da Revista “Nós” do Jornal i na qual colaborei como produtor de texto e fotografia freelance. Era um homem transparente, seguro e generoso. Atento talentoso e humilde. Mas aquela humilde que só ilumina os sábios.
Uma excelente pessoa.
Detesto esta merda de ter que saber que as pessoas morrem. Prefiro esquecê-las nas voltas da vida e voltar a elas apenas em breves recordações. Somos nada.
Fodasss.
Está na hora de morrer. Nada mais podemos dar a nós próprios ou à vida depois dos cinquenta anos. Chegamos a um ponto em que não passamos de uma câmara de reverberação até à loucura. Tanta gente que morre com a minha idade.
Fodasss.
Diz-se que somos tão novos. Somos nada.
Parem de se enganar. Eu digo que somos tão velhos como a mais velha das árvores.
Mas, ao contrário delas, desperdiçamos ao longo da vida tantas horas de luz e inspiração. Aquelas folhas verdes e as flores perfumadas que nos enchem a alma. Estas coisas fundamentais e vivas que fazem de nós incompletos mas cheios. Que fazem de nós incomparavelmente melhores. Referências como o Pedro Rolo Duarte. Uma luz. Detesto aquela cena do “descansa em paz. Descansa mas é o caralho.
Toca a despir a alma do corpo e continua a voar pelo universo. Esta terra torna-se demasiado pequena para quem morre. É só isto. Um cemitérios. Que sejamos ao menos tudo para que quando cheguemos ao nada tenha valido a pena.
E o Pedro foi isto. Uma espécie de tudo.

As minhas desculpas

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Pedro Prostes da Fonseca

Já que estamos num campeonato de desculpas, também tenho as minhas a apresentar.
Peço desculpa por ter trabalhado num tabloide chamado Sol, onde a verdade era feita à medida das conveniências.
Peço desculpa por não ter tido a coragem de me ter demitido a tempo e horas desse tabloide – apesar de ter pedido para sair em duas ocasiões.
Peço desculpa por não ter tido a coragem de enfrentar ainda com mais garra o diretor do pasquim, o “arquiteto” José António Saraiva, um extraterrestre que não faz a menor ideia do que seja jornalismo.
Peço desculpa por não ter feito o mesmo com o seu adjunto, o jornalista José António Lima, jogador das sombras, que me deixou sozinho depois de ter feito uma manchete de um texto meu e contra a minha vontade, “obrigando-me” a ir a tribunal defender a minha honra – e claro que às minhas expensas.
Peço desculpa por todos os “jornalistas” que nunca deveriam exercer a profissão, porque nem percebem o que ela é – como se nota pela capa que a revista Sábado fez hoje.
Peço desculpa pelo risco de generalização – pois há “jornalistas” e jornalistas.
Peço desculpa por me abster de participar nos órgãos representativos da classe, por pura descrença e egoísmo.
Desculpas apresentadas, volto costas ao assunto incêndios – que já me fritou a moleirinha que chegue. O oportunismo de se venderem mais uns exemplares de jornais e revistas, à custa de manchar a imagem de terceiros de forma gratuita e cobarde, para mim nunca teve nem terá perdão.

Mapas e desinformação

_incendiosNelson Zagalo

Para compreender o descalabro da desinformação que acontece quando não há Sistemas de Informação e Comunicação no terreno e com equipas preparadas para triar rapidamente o que vai sendo veiculado, fica aqui uma imagem que foi massivamente partilhada, chegando a surgir em vários orgãos nacionais de comunicação social.

A imagem de cima não é falsa, o problema é que não diz respeito a Incêndios ativos na Europa. Inicialmente tinham-me passado a informação de que seria um mapa de Previsão (forecast) de zonas de incêndio, mas essa informação não se confirmou. Não consegui ainda confirmar o local de extração do mapa, contudo ele parece surgir a partir da simulação dos últimos 7 dias passados no EFFIS, tendo depois sido tratada em termos contraste de cor para garantir melhor visualização das manchas de fogo.

Mas, abaixo têm a imagem dos fogos verdadeiramente ativos na Europa, entre 15 e 16, e pode ver-se a diferença abismal do que aconteceu realmente na Europa e em Portugal e na Galiza.
Falta sistemas de Comunicação efetiva às populações que possam garantir informação triada, segura, e evitem os alarmismos como os que foram acontecendo um pouco toda a noite.

PS2: Entretanto adicionei um novo mapa nos comentários com o cruzamento das informações do EFFIS com as Notícias de Incêndios veículadas pela comunicação social europeia, e o mapa reforça o enfoque no Centro e Norte de Portugal assim como Galiza (link direto: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10155063977618602&set=p.10155063977618602&type=3&theater).

FONTES:

O primeiro mapa anda a circular na rede, não se conhece a origem em concreto, mas acredita-se poder ser também do EFFIS mas relativo aos 7 dias passados, depois alterado em cor e contraste para tornar mais visível os focos de fogo durante 7 dias.
O segundo mapa, do EFFIS, diz respeito apenas a 15/16 Outubro 2017.

Descongelamentos, aumentos, feira de Beja, olho do cu

No Público de hoje, está esta nota, que faz parte da rubrica “Orçamento de 2018 explicado em dois minutos”.

Vejamos: primeiro, o Público diz-nos que os funcionários públicos “terão direito a ser colocados no correspondente patamar remuneratório”. Convém lembrar que os funcionários públicos, há vários anos, tiveram direito a congelamentos de carreiras e a cortes salariais. Na realidade, graças a engenharias várias, foi possível fazer com que os mesmos funcionários públicos ficassem mais longe do topo da carreira e passassem a ganhar menos.

Vamos lá a uma parábola: o menino Joãozinho comia, todos os dias, quatro batatas. Um dia, os pais passaram dar-lhe só duas batatas. Passados dez anos, os pais anunciaram ao menino que iria ser aumentado, porque passaria a comer três batatas por dia. Estranhamente, o senhor João (Senhor João? Pois, passaram dez anos!), protestou:

– Chamam aumento a uma reposição? E as batatas todas que eu não comi durante estes dez anos e que vocês andaram a meter ao bolso, que aquilo está cheio de moscas? Nem sequer voltei às quatro batatas… Aumento?! Vocês andam mas é a confundir a feira de Beja com o olho do cu, pá!

Os pais, ofendidos com a linguagem, embatucaram. Realmente, o senhor João deveria ter muito mais cuidado com a linguagem: é que passar a ganhar mais do que se ganhava é, evidentemente, um aumento. Até os jornais de referência, como o Público, dizem que sim.

 

Síndrome do sobrevivente – a culpa de continuar a existir

Alguns amigos discordam do tom cáustico que muitos de nós têm usado na crítica à cobertura televisiva da tragédia de Pedrogão Grande. Por mim, admito que algumas das abordagens que aqui tenho feito têm sido algo duras, já que considero esta questão fundamental, e de um alcance que está longe de se limitar a estes eventos. Nesse sentido, julgo, até, ter sido contido. Para além de a maioria dos repórteres fazer um trabalho de manipulação das consciências na mais grosseira linha tablóide – enquanto nos estúdios se trata das tarefas de manipulação mais tecnicamente política – quase todos jogam um jogo muito perigoso ao insistir em remexer nas emoções e feridas emocionais das vítimas com, por vezes, o entusiasmo de um torturador. [Read more…]

As notícias e as coisas

As notícias das sarjetas televisivas centraram-se, sobretudo, na busca dos lugares onde não havia bombeiros. “Está aqui o corpo de uma mulher”, zurra uma, “então os bombeiros não lhe ligam nada, não vem cá nenhum?”, relincha outro, “a culpa foi dos bombeiros?”, grunhe outro, “não acha que o primeiro ministro é que devia estar aqui? e o presidente?”, ladra o seguinte. Vamos ligar aos estúdios. Lá, além dos cachorros de regaço habituais, que destilam as segregações opinativas do costume, falam – raras – pessoas que ganharam a legitimidade de quem há muito propõe soluções pertinentes. Volta ao terreno.

Parece que há centenas de bombeiros no terreno, pelo que é cada vez mais difícil aos repórteres encontrar sítios onde não estejam bombeiros, para poderem proclamar que não estão lá bombeiros, sim, onde estão os bombeiros? “A senhora não se sente abandonada?”, guincha o do microfone.

Começam a passar imagens de arquivo, repetindo cenas já dadas e baralhando completamente a percepção da linha temporal dos acontecimentos. Continua a não haver bombeiros. Ouvem-se “personalidades”. Mas não havia bombeiros em lado nenhum, pelo que se pode concluir que os repórteres é que são o heróis destes acontecimentos. Pois se não há imagens de bombeiros em acção, só há sítios onde não há bombeiros… [Read more…]

Metam Gibraltar por ele acima

the-sun-gibraltar-up-yoursInstiga o The Sun no seu sempre polido desperdício de árvores.

A insustentável leveza da generalização xenófoba

paulo-dentinhoPedro Pereira Neto


Paulo Dentinho
, na sua qualidade de director-logo-especialista-em-tudo, em directo a generalizar a partir de pessoas que vão a mesquitas para pessoas que são terroristas, falando de “esta gente”. Nada de novo.
Talvez na sua qualidade de português-logo-católico-logo-equivalente-ao-terrorista-cristão-anders-breivik, devesse ter algum cuidado com a ligeireza da generalização xenofobico-doce que aplica a outrém.
Nem vou comentar esta prática de consanguinidade profissional de fazer-se convidar para o noticiário do próprio canal: prefiro deter-me na constatação de que estamos tão bem servidos de pirómanos nas ruas como nas redacções.

Talvez por isso seja tão mais fácil noticiar Wilders em vez de Klaver. Talvez também não seja apenas nas forças de segurança que o pensamento exclusivista tem ganho terreno.