Marcelo é… Marcelo!


Muito boa gente que há bem pouco tempo desconfiava de Marcelo, acusando-o de levar o governo ao colo, tece agora loas ao valente puxão de orelhas que o Presidente da República deu a propósito da última tragédia, exigindo ao Primeiro-Ministro que tirasse consequências políticas. Alguns apoiantes da geringonça, principalmente os socialistas, ficaram com um pé atrás, uma vez que o PSD atravessa uma fase de incerteza até às eleições internas. É verdade que Marcelo já foi próximo de Santana Lopes, aliás integraram mesmo com José Miguel Júdice, Durão Barroso ou Nuno Morais de Sarmento, a chamada Nova Esperança, que ajudaria a eleger Cavaco Silva em 1985. À época defendiam o fim do bloco central, contra João Salgueiro. Como um eucalipto Cavaco acabaria por secar tudo e todos à sua volta, diz-se que Marcelo à última hora até teria hesitado nesse apoio, prevendo que a ascensão do professor de Boliqueime lhe prejudicasse as ambições, mas isso são teorias de conspiração.
Facto é que após o fim do cavaquismo, Marcelo foi líder do PPD/PSD, Rui Rio o seu secretário-geral e Santana Lopes o principal rosto da oposição interna ao professor de Direito. Mas Marcelo e Rio haveriam de se desentender durante esse período, em parte quando o antigo autarca do Porto afrontou o aparelho laranja, dominado por caciques, condicionando depósitos bancários, sacos de votos, militantes mortos e outras práticas pouco recomendáveis para um partido que se diz democrático, mas que era fértil em chapeladas eleitorais nas disputas internas. Isso também explica em parte porque muitos notáveis estão hoje com Santana Lopes contra Rui Rio, não é que sejam indefectíveis de Santana, têm contas a ajustar com Rio.
Marcelo impôs a candidatura presidencial contra a vontade de Pedro Passos Coelho, que o foi obrigado a apoiar, bem sei que em política a memória é curta, mas não foi assim há tanto tempo. Não precisa do apoio do PPD/PSD se quiser recandidatar-se, não tem adversário natural no espaço do PS, o único credível seria António Guterres, mas esse está indisponível, pelo que Marcelo pode hoje fazer o que quer, para mais liberto de responsabilidades governativas, basta aparecer regularmente e dizer presente quando pretende marcar posição, foi exactamente o que fez, sem que isso signifique estar a ajudar A ou B na disputa pela liderança do principal partido da oposição. Marcelo entra hoje no eleitorado de todos os partidos, à esquerda ou à direita ninguém é imune. Quem o poderia enfrentar em eleições presidenciais? Louçã? Jerónimo de Sousa? Paulo Portas? Não iriam além do seu eleitorado natural, no PSD ninguém se chegará à frente, resguardam-se tacticamente para um futuro pós-Marcelo, no PS será igual. Salvo se até 2021 algo de muito extraordinário acontecesse, o que não é de todo previsível. Uma eventual derrota eleitoral do PS em 2019 até poderia baralhar, mas nada indica que tal possa vir a suceder, talvez nem os mais acérrimos apoiantes de Santana Lopes ou Rui Rio acreditem verdadeiramente nisso.
Pelo contrário, a manutenção da geringonça até 2019, uma eventual vitória do PS, com ou sem a actual solução governativa, servem como uma luva aos propósitos de reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa. Apesar de não ter manifestado tal intenção, não sejamos ingénuos nem alimentemos tabú, não acontecendo qualquer imprevisto, o professor avançará na devida altura. Verdade que afirmou publicamente que o ideal seria um mandato único de 7 anos, mas isso não existe na Constituição da República portuguesa. Marcelo preparou a sua eleição durante anos, através da sua homilia televisiva dominical, o partido já lhe havia falhado uma vez, elegendo Cavaco Silva as naturais ambições políticas de Marcelo e não só, foram fortemente condicionadas. Não, Marcelo não irá em circunstância alguma prejudicar-se para favorecer o PPD/PSD, para mais quando já tem estendida a passadeira vermelha até à reeleição. Verdade que deu um safanão ao amigo António Costa, mas também acabou por lhe dar uma ajuda, livrando-o da amiga que estava a prejudicar o governo. O pior que poderia acontecer a Marcelo seria mesmo a queda do actual executivo, mas antes que a teimosia de António Costa o levasse a um ponto de não retorno, Marcelo tratou de recolocar o combóio no carril, nem faltando uma moção de censura do CDS/PP que desempenhou um papel de idiota útil, permitindo aos parceiros da geringonça censurarem um dos partidos da oposição em vez de reiterarem a confiança no governo. Claro que para o CDS/PP também contou a busca de visibilidade na disputa pela liderança da oposição, aproveitando um bom momento, perante o impasse que se vive no PPD/PSD. Nada de novo, só poderá ficar surpreendido que não conhece Marcelo, o homem faz política desde os anos 70…

Comments

  1. José Feliciano Cunha de Sotto Mayor says:

    ora aqui tenho que dizer… que é tal e qual o almeida diz.

    ah, e neste momento, mesmo disponível o guterres não teria hipótese. marcelo continuou em campanha depois de eleito.

  2. JgMenos says:

    Fica por dizer:
    – que Marcelo esperou que a ministra e o Costa fizesse a sua avaliação pública da segunda desgraça.
    – que muito justamente avaliou que foram comunicações imbecis e obscenas, que nenhuma medida governativa poderia remediar.
    – donde, decidiu bem ao dar-lhes nos cornos forte e feio.

  3. Excelente análise, António!

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