A eutanásia e a posição do PCP

Como era de prever, a questão da eutanásia e a posição do PCP sobre o tema – sustentada, goste-se ou não, concorde-se ou não, por textos sobre a matéria que não são de ontem – provocou uma resposta que inibe aqui, imediatamente, qualquer discussão séria. A grosseria campeia – não me refiro à posições discordantes, mas ao modo como muitas delas são expostas – e a alergia à complexidade leva muitos às velhas tretas, entre as quais o argumento, vazio e de uso detestável seja qual for a origem partidária do emissor, de que o partido tal e tal vai votar com a direita – até com o CDS, valham-nos os céus! Como se o fundamento das posições fosse o mesmo, como se isso representasse uma qualquer identificação política, como se não fosse necessário fazer uma análise interna das posições para lhes julgar o valor e o significado. Quem tem pensamento fundamentado sobre o tema acaba por recuar e multiplica-se o argumento da autoridade, entre outras falácias de uso expedito. Só resta o silêncio neste forum e o debate noutros onde o diálogo se faça olhos nos olhos ou em escrita articulada e argumentos procedentes. E com tudo isto, os próprios textos dos projectos-lei em discussão – onde se encontram interpelações importantes e matéria de debate bem interessante – naufragam nesta cacofonia que se produz mais em redor que no centro das questões decisivas. É pena

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Este é o povo que temos. O tal que defende o partido político como defende o seu clube de futebol.
    Faz parte da futebolização da vida nacional, onde 98% dos portugueses são treinadores, comentadores e dirigentes desportivos.
    “Bitaite makers” … para ser moderno.
    A política é uma extensão da bola até nas vigarices.
    O presidente do clube rival é um corrupto, porque compra influências para ganhar. O presidente do meu, faz exactamente o mesmo, mas é um génio que escapa às malhas da dita justiça.
    Na política é assim mesmo. É vê-los agitar as bandeiras de um modo frenético e aplaudir as bacoradas que o chefe do partido diz.
    O português tornou-se num ser imediatista. Pensar dá trabalho.
    Estruturar raciocínios é cansativo.
    Vivam os KFC, os MacDonalds e os Burger King… Isso é progresso.
    Pessoalmente opto, a maior parte das vezes pelo silêncio. Acho que não vale a pena discutir ideias com gente que as não tem. É uma pura perda de tempo. Abro aqui a excepção para felicitar o José Gabriel pelo texto e pela ideia comunicada.

    • João Vieira says:

      A paciência e a inteligência são factores essenciais na política.

    • José Almeida says:

      Estou naturalmentre de acordo. O ser humano parece não estar a evoluir na sua plenitude. Parece que irremedialmente precisa de estar subjugado a qualquer coisa que não controla mas gosta e obedece. Assistimos, de facto, à hamburguerizacao mundo. As democracias estão a transformar-se em ditaduras e as ditaduras (algumas) em regimes responsáveis. Parece que os humanos não gostam de ser livres. Quando não existia informação, procurávamos para a obter. Hoje a informacao é tanta que perdemos tempo em excesso para a depurar. Pareçe que os humanos andam perdidos e necessitam de uma organização ou de uma seita religiosa, política ou (por que não) desportiva para se protegerem, e assim deixarem as suas opiniões divididas entre o seu estado de espírito e o da seita. A inteligência humana, a procura do conhecimento e mesmo a opinião própria parece um desperdício de tempo face à informação disponível de alguém que precisa de vender. Hambúrgueres eu posso deixar de comprar….. mas e o resto como se faz?

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Passámos por ciclos históricos destes. Na Idade Média e mais tarde, no tempo da inquisição. Ciclos de controlo absoluto das ideias e uma obediência cega. O mundo não pensava senão por meia dúzias de cabeças. O mesmo se passa nas ditaduras.
        Daqui concluo que, graças ao imobilismo, estamos a construir com as nossas mãos uma perigosa ditadura da qual não nos damos conta e a que, para já, vamos chamando “democracia”..
        O que se passa é que deixamos que façam de nós autênticos autómatos e a grande maioria, joga o jogo.
        Assiste-se à demissão das pessoas do nobre ofício de pensar para escolher soluções não sejam baseadas no imediatismo. Hoje temos, de facto, acesso a muita informação que nos permitiria, se quiséssemos, separar o trigo do joio.
        A grande maioria dos cidadãos tem-na, mas não a quer.
        Prefere o facilitismo das “receitas importadas”, nomeadamente do outro lado do Atlântico, contribuindo, desta forma, para alijar a sua cultura e civilização de um modo irresponsável.

        São os cidadãos, na sua inconsciência e imobilismo, fazendo uso da preguiça física e intelectual que arrastam o(s) país(es) para uma situação cujo retorno vai ser muito complicado.
        E há a outra face da moeda. Sente-se que se vive num vulcão, da mesma forma que assim se vivia na idade média, no tempo da inquisição e com as ditaduras. E pergunto-me, como será o despertar?
        Sim, porque as pessoas pensam e pensarão muito mais rapidamente, quando as dificuldades aumentarem, o que não faltará muito. Até lá, as pessoas preferem a preguiça e o oportunismo, alinhando as suas decisões de acordo com conveniências pessoais, em “espírito de manada”… exactamente como o fazem no futebol e na política.

  2. Bento Caeiro says:

    Em tempos que já lá vão, tendo organizado e participado numa manifestação que não queríamos, nem partidarizada nem conotada sindicalmente; tendo nós, para para o efeito, dado a saber esta nossa vontade; qual não foi a nossa surpresa quando vimos ilustres sindicalistas a chegarem-se à mesma; obviamente com o intuito de a instrumentalizarem. Fizemos-lhes, logo ali e mais uma vez, saber que não eram bem-vindos. Em resposta, disseram-nos que haviam sido convidados por dois dos organizadores: assim mesmo. Como resultado, afastámos-nos e passámos a desenvolver a nossa luta de outra forma. Mas posso dizer que a intervenção daqueles intrusos mais não fez que perturbar e atrasar o processo, tendo efeitos imediatos contrários aos pretendidos.

  3. whaleproject says:

    Ver gente de esquerda defender a morte ministrada por quem tem obrigação moral e laboral de salvar vidas pareceu-me o mundo ao contrário.
    E passo a explicar. Os quatro anos de Governos pafiosos contribuíram em muito para transformar os nossos hospitais em verdadeiros pardieiros em que as infecções hospitalares matam quase tanto como as doenças, todos os dias morre gente à espera de consulta, todos os dias há gente que vê doenças tratáveis tornarem-se em situações irreversíveis porque estiveram demasido tempo á espera.
    Depois vem uma certa esquerda defender o direito a “morrer com dignidade” como se houvesse alguma dignidade em levar uma injecção como os cães que estão demasiado velhos ou as vítimas das experiências macabras de Mengele. Enquando essa direita que transformou os hospitais em pardieiros vem arvorar-se em defensora da vida.
    E uma certa esquerda vem insultar quem se manifesta contra. Não me interessa se a civilizada Holanda faz isso, se até um príncipe acabou eutanasiado. Como se diz na vila algarvia onde moro, quem quiser que censure “sou da vila e estou cagando”.
    E estou porque sei que muita gente holandesa vem terminar os dias para cá. Porque são velhos, já lhes disseram que a situação é irreversível, que não lhe vão fazer mais tratamento nenhum, que vai sofrer como um cão para morrer e eles vêm acabar os dias a milhares de quilómetros da terra e das famílias. Porque essa história da eutanásia lhes faz justamente lembrar outros tempos e Mengele.
    Num país com tantas carências, se um médico nos diz que temos uma doença terminal e que não há condições para termos acesso a cuidados paliativos, o que é que fazemos? Ali temos todas as vertentes dos projectos-lei sobre eutanásia: Doença irreversível, sofrimento e consentimento. Acredio que o país passe a gastar menos em saúde com a aprovação que alguns deputados do PSD vão viabilizar em nome da liberdade mas acho que depois de tudo o que sofri neste país mereço melhor, muito melhor, do que acabar como um cão abatido pelo veterinário.Eu e até os idiotas que defendem a eutanásia, que ainda não viram bem o que tal pode suignificar num país em que os cuidados de saúde têm tantas limitações como o nosso. Ou isso ou são uma valente cambada de psicopatas.

    • Paulo Marques says:

      O que faz sentido é ter passado anos a ver a minha avó a esquecer-se de tudo até se tornar um vegetal que por acaso tinha um coração a bater durante meses, isso é que fez um sentido do caralho.

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Paulo Marques:
        Já reparou que no caso de sua avó, não era ela que tinha tomado a decisão?
        E, no seu estado de aparente inconsciência, quem lhe garante que no íntimo a vida era para ela, um bem?
        Não é fácil, é verdade …

        • Paulo Marques says:

          Ninguém sabe, porque ninguém lhe perguntou, mas o Alzheimer demora um tempo cruelmente longo durante o qual há períodos onde as pessoas podem decidir em consciência e com plenitude de faculdades.
          Mas seria sempre decisão dela, não passa pela cabeça de nenhum legislador em lado nenhum que assim não seja.

          • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

            Caro Paulo Marques.
            Escreve …”ver a minha avó a esquecer-se de tudo até se tornar um vegetal que por acaso tinha um coração a bater durante meses…” .
            Com tal redacção não dá para entender que … “há períodos onde as pessoas podem decidir em consciência e com plenitude de faculdades”.
            Foi por isso que intervim.

          • Paulo Marques says:

            O problema é que antes desses meses houveram muitos outros, sendo que a progressão não foi surpresa para ninguém – detecta-se com muito tempo.
            Mas enfim, daqui a uma década é legal e sem fractura, como os outros perigos mortais para a sociedade.

  4. Bento Caeiro says:

    Cambada de psicopatas, que ainda não viram que vão abrir uma Caixa de Pandora, de onde poderão sair todo o tipo de consequências e aproveitamentos.

    A caminho da morgue

    Indo eu, indo eu
    A caminho do hospital
    Indo eu, indo eu
    A caminho do asilo
    Encontrei a eutanásia
    Ai Jesus, que lá vou eu
    Encontrei a eutanásia
    Ai Jesus, que lá vou eu!

    Depois, queixem-se aos deuses.

  5. MReis says:

    Muito bem José Gabriel.

    • Pedro says:

      Caro Caeiro.

      Por mim dispenso que seja a igreja ou o comité central do partido comunista a decidir a minha vida.

      Eu tenho direito a escolher o modo como quero viver e morrer e não é você que vai escolher por mim.

  6. Pedro says:

    O PCP a aliar-se ao CDS contra a liberdade de escolha.

    • José Almeida says:

      Aliar-se? Será que já não sei o significado de aliar-se?

      • Pedro says:

        Aliar significa juntar.

        No parlamento o PCP juntou-se ao CDS para impedir que os cidadãos possam ter a liberdade de escolha da eutanásia.

        Os outros partidos estão a dar liberdade de voto aos seus deputados para que escolham de acordo com a sua consciência.

        Isto faz lembrar a questão da homosexualidade há umas décadas atrás quando nos países capitalistas a opção homosexual já era tolerada, nalguns até respeitada e nos socialistas as autoridades alinhavam pela visão dos conservadores radicais de direita em que continuava a ser considerada uma doença ou até a consideravam “degenerescência” capitalista”.

        Parece que os comunistas têm um problema qualquer com os direitos individuais.

        Até parecem um alter ego da igreja católica.

        O Jerónimo e a Cristas deviam casar.

        Só estragavam uma casa e não chateavam os outros.

        • Fernando Manuel Rodrigues says:

          Bravo. Um elevado exemplo do que pensa sobre a democracia. Muito “orwelliano”. Claro que V. Exa. acha-se “mais democrata” do que os outros.

          • Pedro says:

            Sem duvida que sou muito mais democrata do que quem me quer proibir a liberdade de escolha em assuntos da minha vida pessoal.

        • Fernando Manuel Rodrigues says:

          E obviamente, o senhor não tem problema nenhum. São sempre os outros que têm problemas, porque o senhor tem sempre a razão do seu lado – nunca se engana, e raramente tem dúvidas.

          Típico

          • Pedro says:

            Se eu me engano e tenho dúvidas sobre a minha vida, cabe-me a mim e não ao partido ou á igreja decidir sobre elas.

            Já agora, o Jerónimo e a dona Cristas não querem escolher-me noiva ?

            É que parecem pensar que sabem melhor do que eu o que é melhor para mim.

        • José Almeida says:

          Sim, hoje comecei o dia com alianças….. Aliei café com leite, depois aliei mel a umas fatias de pão torrado q.b. e saboreei. Imagino que tudo esteja aliado no estômago e depois o que não for digerido sairá de forma aliada, espero, até chegar a uma etar qualquer.

          • Pedro says:

            Eu tenho um exemplo melhor.

            A aliança do Hitler e do Estaline para impedir aos povos da Europa de leste a possibilidade de livre escolha sobre os seus destinos.

  7. José Moreira says:

    Caro José Gabriel, não encontro no seu texto razões que permitam distinguir a posição do PCP da do CDS, tal como não as encontro ao ler as posições destes dois partidos!

    Nada contra a liberdade destas organizações tomarem as posições que tomaram, só não concordo com a posição de rejeição do consentimento da morte assistida!

    Sendo que ambas as organizações têm os seus méritos mas que ambas são eivadas de uma resistência à mudança exacerbada.

    • Fernando Manuel Rodrigues says:

      Encontrar encontra, se ler as respectivas posições e a sua justificação. Pode é não concordar com elas. Mas isso são outros quinhentos.

      Quanto à resistência à mudança, lá diz o ditado: “Para melhor, está bem, está bem. Para pior, já basta assim”.

      Nem sempre a mudança é para melhor, e quando assim é, deve-se resisitir.

  8. Pedro says:

    O Passos manifestou-se hoje contra a eutanásia.

    O PCP está em boa companhia.

    Passos, Cavaco, Cristas, Jerónimo…

    O quarteto fantástico contra o direito á livre escolha.

  9. Correcção: Às e não Ás

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