Como é que o Miguel Sousa Tavares tem autoridade?

Depois de ouvir isto vindo da boca de MST, só me apetece vomitar. Não é a primeira vez que esta alma (será que a tem?) penada ataca os professores com leviandades e verdades criadas por ele lá no alto da sua cátedra.

Não vou questionar a legitimidade desse senhor para dar a sua opinião nas televisões. Muito menos divagarei sobre os motivos pelos quais ele é considerado uma figura importante – e com algo de valor a dizer – na nossa pequena sociedade.

Questiono apenas as suas afirmações. Ele sabe o que é ser professor e dar aulas há décadas sem qualquer promoção? Ele sabe o que é ter um trabalho que ano após ano nos manda para o desemprego sem nunca termos a certeza de que teremos trabalho no ano seguinte?

Eu sou professora. Fiz a licenciatura mais tarde do que o «normal», portanto, entrei na «carreira» mais tarde do que a maioria dos meus colegas. Porque nunca quis ficar a trabalhar muito longe de casa, tenho-me sujeitado a trabalhar como professora de AEC. Como professora de AEC, aufiro um salário de cerca de 270€ mensais.  Por vezes, consigo acumular esse trabalho com outros, mal pagos e pelos quais passo recibos verdes. Num mês muito bom, consigo ganhar cerca de 500€. Pago Segurança Social porque passo recibos verdes. Pago transporte para os locais onde trabalho, que são diferentes e distantes uns dos outros. É que, para poder ganhar o fantástico salário de 500€ mensais, tenho que aceitar todo o trabalho que aparece, até turmas pagas a 3,75€/ hora. Tenho que fazer planificações e preparar aulas, como os outros professores.

Para trabalhar em AEC, algo bastante específico, tenho que fazer formação (paga com o meu grande salário), já que quero ser a melhor profissional possível para com os meus alunos.

Para trabalhar a recibos verdes, tenho que preparar aulas. Nos casos dos cursos intensivos, tenho que preparar os alunos em tempos curtos, fazer exames e corrigi-los. Tudo isto no «meu tempo», que o patrão não me paga essas horas, que são de trabalho para ele. Será que o senhor Miguel Sousa Tavares aceitaria trabalho pago com estes valores e nestas condições? Não creio.

Aquando da minha segunda gravidez, porque tinha cursos profissionais na escola, fui dar as últimas aulas já estando de baixa por gravidez de risco, porque não queria que os alunos ficassem «pendurados» sem poderem concluir o curso teórico antes de entrarem em estágio profissional. Nessa altura, dava aulas numa escola e trabalhava como formadora. Por estar grávida e ter tido a criança, fui mandada embora de ambas as instituições onde dava formação. Claro que, sendo trabalho a recibos verdes, ninguém me disse que me despedia. Simplesmente não me voltaram a chamar para dar formação. Entregaram o trabalho a outras pessoas. Isto, apesar de eu ter feito tudo para concluir os cursos que estava a dar, uma vez mais, trabalhando quando estava de baixa médica e logo na semana depois da minha filha nascer.

Como a minhas filhas agora já estão crescidas, tenho concorrido para leccionar a nível nacional, mas sempre a alguma proximidade de casa. O meu marido é também professor, nunca sabemos o que o futuro nos reserva e temos que dar apoio às crianças. Este ano lectivo, trabalhei como professora de AEC em duas escolas, professora contratada de Francês numa escola, professora contratada de Inglês noutra escola e em institutos, com diferentes níveis e ambas as línguas que lecciono. Muito disto em acumulação. Tive dias seguidos sem ver as minhas filhas porque saía de casa às 8 da manhã e chegava quase à meia-noite. Com trabalho para preparar para o dia seguinte. O senhor Miguel Sousa Tavares sabe o que é trabalhar assim? Sabe o que é ter filhos a chorar ao telefone a pedir para não irmos trabalhar? Tudo isto para ganhar pouco mais de 800€ mensais e, para além do descontos feitos pela escola, ainda pagar 62€ e uns cêntimos de Segurança Social mais os gastos nas deslocações. Nem falo na comida, normalmente como uma sopa e uma sande, para não gastar dinheiro que faz falta em casa.

Se os professores progridem tão mais rapidamente do que todos os outros funcionários públicos, onde estão a minhas promoções? Onde está a progressão de carreira do meu marido? É que eu ainda não vi nada, só ouvi o senhor MST falar…

Quanto à comparação com as operárias de Rabo de Peixe, nem vou falar. Esses são os argumentos de quem não tem nada para dizer, de gente que não sabe do que fala, que não pensa. O facto de haver patrões exploradores, como eu também tenho no privado, é motivo para retirar os direitos de todos os outros trabalhadores? É que, a ser assim, é fácil. Ora bem, como as operárias de Rabo de Peixe ganham o salário mínimo nacional e nunca são promovidas nem têm aumento de salário (o que não é verdade, porque o salário mínimo nacional vai aumentando, pouco mas aumenta), todos os patrões deviam fazer o mesmo, não promover os seus empregados e não lhes pagando mais do que o salário mínimo nacional.

Outra questão a respeito das senhoras de Rabo de Peixe, cujo direito à greve aceito e penso ser justo, se entraram todas na empresa pela categoria mais baixa, a de Manipuladora, e se nunca foram promovidas, isso quer dizer que a fábrica tem apenas Manipuladoras? Tanto quanto sei, a greve desses operários tem como motivos a «dignificação da categoria de manipuladora», a «progressão na carreira profissional», o fim da «desigualdade de género» e a «contratação coletiva». Uma greve muito justa, portanto. Contudo, a justeza desta greve não tira justeza à dos professores.

Claro que quem não é suficientemente esclarecido ataca professores (a quem considera de um estatuto social superior, porque não têm um trabalho tão fisicamente exigente) com a pobreza das pessoas que trabalham muito mais duramente…

Comments


  1. Nada como o testemunho pessoal para lembrar, aos que falam de “barriga cheia”, que o mundo e a vida dos outros, nunca é aquilo que parece!

  2. António Fernando Nabais says:

    A televisão está cheia de comentadores que falam do que não sabem. Um amigo, face à ignorância que o MST revela sobre Educação, perguntou-se se ele, efectivamente, dominará algum dos assuntos de que fala. Esta já tem uns anos e confirma: https://aventar.eu/2011/03/21/miguel-sousa-tavares-ignorante-irresponsavel-inimputavel-ou-pior/

  3. Paulo Marques says:

    O MST tem o síndrome “nasci de um berço de ouro e nunca tive que lutar por nada que não me fosse dado de bandeja”, pelo que se os outros não têm os mesmo, são preguiçosos. Naturalmente. Quer dizer, se fosse preciso qualidade no trabalho para viver bem, nunca ninguém lhe tinha pago um tusto, por isso já viu bem o quão preguiçosa é, Noémia? Faz menos que ele!

  4. Bento Caeiro says:

    Bla,bla, bla e bla. Mas porque razão hão-de progredir ou serem promovidos? A não ser que o sistema exista para premiar os mais competentes ou para preencher postos de trabalho de maior responsabilidade, a única situação válida a defender são melhores salários.
    A questão – conheço bem a situação – é que a maioria das pessoas (os sindicatos aqui terão muitas culpas) prefere ir progredindo, apenas pelo incómodo de estar em determinado lugar. E, desta forma, cómoda e universal, lá vão melhorando os seus salários.
    Como é óbvio, também é verdade, que assim procedendo jamais deixarão de ser, e como tal tratados, rebanho.
    Contrariamente ao que muitos pensam, a dignificação das profissões, pela apreciação e avaliação condigna dos seus agentes, não se faz desta forma e aqui, repito, tem a ver o tipo de sindicatos que os dirige.

    • Paulo Marques says:

      O problema é que a solução para dignificar as profissões não é precarizando-as, nem é impossibilitar a mudança de carreira (por muitas “novas oportunidades” que façam serem os estados a pagar).

  5. Luís Lavoura says:

    ser professor e dar aulas há décadas sem qualquer promoção

    Há muitíssimos portugueses que trabalham há décadas sem nunca serem promovidos.

    Os professores universitários, por exemplo, na sua maioria entram e saem da carreira como “professor auxiliar”. Nunca são promovidos, porque nunca há concursos para a categoria seguinte.

    Não me parece nada óbvio que um professor, ou qualquer outro profissional, deva ser promovido. É que as pessoas com os anos ganham experiência e saber, mas perdem energia e resistência. Não me parece óbvio que um professor aos 60 anos seja melhor e deva ganhar mais do que um professor aos 30.

    • Mónica says:

      Pois que quem não é promovido e acha que deve ser, que lute também! Os professores universitários nunca fazem greves? Estranho… Em 1989 fizeram uma durante vários meses e não lançaram cá para fora os resultados dos exames nacionais de acesso ao ensino superior até quase ao fim de Dezembro. A 1ª fase de entrada na universidade aconteceu só em Janeiro e só depois se iniciou o ano lectivo. E os alunos dessa altura, eram menos importantes? Aliás num dos sindicatos que convocou essa greve andaria um futuro secretário de estado de Maria de Lurdes Rodrigues! Quanto às promoções os professores têm um estatuto onde está consagrada a carreira docente, que ninguém alterou. Foi com esse estatuto que as pessoas aceitaram trabalhar na profissão. Se o governo legitimamente eleito e após negociação com os representantes da classe concluir que se deve alterar essa carreira, então que o faça! Agora fingir que quer colocar todos por igual na função pública aproveitando um congelamento é truque baixo. Se é para sermos todos iguais eu também quero que o resto dos funcionários públicos tenha de concorrer em concursos a nível nacional, para lugares que não sabe se existem e em oposição a milhares de outros candidatos, quero também que a formação que façam seja feita fora do seu horário de trabalho e que seja paga por eles. Quanto ao passar dos anos o seu argumento não cabe a todos de certeza ou então quer que os professores se reformem mais cedo, o que faz todo o sentido.

    • j. manuel cordeiro says:

      “Há muitíssimos portugueses que trabalham há décadas sem nunca serem promovidos.”

      Bora lá nivelar por baixo.

      “É que as pessoas com os anos ganham experiência e saber, mas perdem energia e resistência.”

      Proponham que se coloquem os jovens que chegaram ao primeiro emprego no topo do salário e que, a partir daí, seja sempre a descer.

      Ah! Esperem lá, há profissões (todas) onde se acumula saber que se paga mais por isso. Exemplos? Experimentem colocar um recém-licenciado a fazer gestão de projecto. Só para dar um exemplo.

  6. Luís Lavoura says:

    Cá em Portugal, como noutros países, há a ideia de que a idade é um posto, que os trabalhadores jovens devem sofrer muito para que quando cheguem a velhos possam ganhar um salário muito melhor, trabalhando muito menos.
    Noutros países acontece precisamente o oposto: as pessoas são pagas em função da sua produtividade e, por vezes, pessoas mais jovens ganham melhor que as mais idosas.

    • Paulo Marques says:

      Os únicos países onde existe essa ideia são na Ásia, na Ocidente é um mito neoliberal. E vendo como saíram do colonialismo, não corre nada mal (embora, claro, tivessem que abandonar o exagero).

      • Paulo Marques says:

        Já nem os políticos se querem “velhos”, a cobertura das campanhas de Macron, Trudeau e outros seriam impossíveis se isso fosse verdade.
        Voltando atrás, pessoas que já passaram por todos os erros que a nova fornada de precários vai cometer não deviam ser um custo, são uma constatação de que não só o trabalho é seriamente desvalorizado, como de quem não tem que pagar pelos erros.


  7. Concordo inteiramente com M.S. Tavares !!
    É um senhor, bem formado e bem informado, tomaram as pessoas que o criticam chegarem-lhe aos calcanhares !

    Sindicatos professores : já vai em 20….quase como na PSP !!!
    Privilégios dos professores que só olham de vistas curtas para o seu umbigo : “Progressões dos professores são três vezes mais rápidas que o resto da função pública” !!!!!
    …e outros, como mais dias de férias durante o ano !

  8. Fernando says:

    “Não vou questionar a legitimidade desse senhor para dar a sua opinião nas televisões. Muito menos divagarei sobre os motivos pelos quais ele é considerado uma figura importante – e com algo de valor a dizer – na nossa pequena sociedade.”

    Não questiona a legitimidade de MST mas devia, se fizéssemos isso regularmente Passos Coelho, que nunca produziu a ponta de um corno na vida, embora, tivesse chamado piegas a quem trabalha, nunca tinha chegado a Primeiro Ministro.

  9. CARMO says:

    Próxima pergunta : Sr Miguel Tavares porquê ė que ainda não sarou essa ferida que tem com os professores? Quem lhe fez tanto mal? Se o fez pense nos outros q o ajudaram.
    Tanta raiva, tanta desconfiança porquê? Quem o traiu?

  10. Ana Moreno says:

    Isto é um mal generalizado: sobre os professores, toda a gente acha que sabe, pode e deve mandar bitates.

    Quando gente „da alta“ vem acusar os “da baixa” de serem demasiado cobiçosos e preguiçosos, lembro-me sempre daquele episódio “se não têm pão que comam brioches“. E este ainda tem o descaramento de usar a palavra “Justiça”.
    Sugeria que o Sr. fosse posto a exercer, com o correspondente salário, e no fim do mês voltasse a ser entrevistado.

  11. Jorge maia says:

    Tudo o que esta senhora diz, não pode ser verdade, é pura treta de ideologia barata atendendo a que a realidade é bem diferente e os professores não podem nem devem ser diferentes das outras classes.

    • António Fernando Nabais says:

      Tem razão: não pode ser verdade. Mas é.

  12. R SANTOS says:

    O MST é fontal e diz o que pensa e pensa que os prof. são previligiados e que visam apenas sacar o máximo do estado. Se fosse o Nogueira toda a galera batia palmas ao profissional do sindicalismo da treta que endromina a plebe do ensino.

    • Paulo Marques says:

      “pensa que os prof. são previligiados”

      E ele é o quê? Vampiro para não aparecer no espelho?

  13. Vila do Conde says:

    Lembro-me duma crónica do saudoso Eduardo Prado Coelho, em que comparou o MST com a avó a falar de futebol…pelos vistos ele e os amigos viam com ela os desafios na Tv só apra se rirem…temos de seguir o exemplo