O que tem o caso de Ricardo Robles de diferente dos outros

O que tem de diferente é que Ricardo Robles é do Bloco de Esquerda. E um membro do Bloco de Esquerda não podia fazer o que ele fez.
Perguntar-me-ão se um político de Esquerda não pode ser rico só porque defende maior igualdade social, defende os mais carentes da sociedade e ataca os males do capitalismo. Pode, claro, desde que consiga fazê-lo à custa do seu trabalho e não através de esquemas que ele próprio condena publicamente enquanto político.
Como cidadão, Ricardo Robles tem todo o direito de fazer especulação imobiliária, já que a lei o permite. Não pode é fazer especulação imobiliária enquanto, ao mesmo tempo, abre a boca nos comícios contra essa mesma especulação. Demitiu-se pressionado pelos acontecimentos quando nem sequer devia ter aceite o cargo a que concorreu nas últimas eleições.
Para o bem da Esquerda, espera-se que a carreira política de Ricardo Robles tenha terminado aqui. Pode sempre continuá-la no PS, onde se sentirá como peixe na água e onde ninguém o criticará por fazer o contrário daquilo que diz. Onde ninguém achará estranho que enriqueça à custa de cenas manhosas, despejos de senhorios com despedimentos por arrasto e ganhos imobiliários pornográficos em apenas quatro anos.
No PS, no PSD, no CDS… – afinal, é o que esses partidos têm feito, sem qualquer complexo de culpa, desde o 25 de Abril. Quanto ao Bloco de Esquerda, infelizmente, começo a temer que seja igual aos outros.
Não o é, claro. Mas se calhar porque nunca esteve no poder. Dêem-lhe umas décadas a mandar e verão se não se torna igual aos outros. Com o caso da Anita de Salvaterra de Magos, nem foi preciso tanto tempo. É azar que a titular da única Câmara Municipal do Bloco de Esquerda tenha sido acusada pelo Ministério Público de corrupção, com ajustes directos pelo meio, mas é um sinal.
Movo-me por ideias, mas não confio nos partidos e na natureza humana também não. Se calhar por isso é que nunca poderia pertencer a um partido. Os outros são todos iguais – e eu, sou diferente?
Voto há muitos anos no Bloco de Esquerda porque me pareceu ser um partido diferente. Parece que me enganei. Não pelas façanhas de Ricardo Robles (nenhum partido está livre de ter um no seu seio – os partidos da Direita têm-nos aos montes sem qualquer problema), mas pela reacção de Catarina Martins.
Ao defender de forma consciente um especulador imobiliário, só porque era do seu partido, renegou tudo o que andou a dizer nos últimos anos. Teve a oportunidade de sair por cima – retirar a confiança política imediata ao vereador e fazer o Bloco ganhar pontos. Não o quis.
Agora que o seu partido parece estar a preparar a chegada ao poder, ao lado do PS, é capaz de estar na hora de regressar ao PCP – um Partido de quem me separa um oceano. Mas vou votar em quem? No grande educador Arnaldo de Matos?
Começam a escassear as alternativas…

Comments

  1. Carlos Almeida says:

    O quê ?

    Um post do Ricardo aqui no Aventar sem falar do Benfica, do Porto, do Sporting e desse lixo todo do futebol em geral ?

    Estás doente rapaz, ou estás de férias ?

    Estás a ver que o Aventar também dá para tratar assuntos sérios !

    Mas brincadeira à parte gostei do post

    • Ricardo Ferreira Pinto says:

      Isso é injusto.
      Em mais de 2 mil posts que escrevi no Aventar desde 2009, quantos foram sobre futebol? 20, 30? De certeza não mais do que isso.

    • Paulo Marques says:

      Porque ameaças, agressões, assédio, tráfico de droga, tráfico de influência e assassinatos não são coisas sérias.

  2. Carlos Almeida says:

    Boas Ricardo

    “Ao defender de forma consciente um especulador imobiliário, só porque era do seu partido, renegou tudo o que andou a dizer nos últimos anos. Teve a oportunidade de sair por cima – retirar a confiança política imediata ao vereador e fazer o Bloco ganhar pontos. Não o quis.”

    Tens toda a razão. Mas, embora tarde as meninas “liberais” dentro do BE tenham sido postas na ordem pela esquerda do Bloco, o mal estava e está feito. O Fazenda da tua terra e a velha UDP pareciam estar a dormir mas não devem estar. Ou será preciso ir buscar os velhos do Grito do Povo para pôr a canalha liberal dentro do BE, na ordem ?

    Mas se no futuro, as meninas e os meninos forem postas na ordem, a faxaria sempre atenta, virá acusar a Esquerda do BE de tiques Estalinistas. A eles não lhe interessa tigres, mas sim gatinhos mansos e se possível tendencialmente corruptos, para que a malta se esqueça que o P Portas fez o que fez com os submarinos, que o chaparro de Boliqueime estava feito com o dias Loureiro no BPN e agora com o Salgado BES etc etc etc e que essa mafia Laranja que governou Portugal durante muitos anos se fartou de ganhar dinheiro, ilegalmente prejudicando o Estado e os Portugueses

    Quanto ao numero de posts relativos ao futebol, se calhar tens razão e terei sido injusto. Mas eu futebol, PAGO PARA NÃO VER

  3. Rui Alexandre says:

    Mas vou votar em quem? No grande educador Arnaldo de Matos?…pois, porque não? No educador não, no partido que ele representa, e que não esconde os seus podres e há muitos anos tem desmascarado esta falsa esquerda, aqui bem comprovada. Pois, essa de botar em falsas alternativas é o que dá. Temos um horror aos que gritam há anos que o rei vai nu.

  4. Joao says:

    Eu prefiro votar no grande educador. Pelo menos não come na manjedoura.

  5. Rui Naldinho says:

    A ideia de que o BE é um partido puro, expurgado de demónios, é idílica. O caso Ricardo Robles vem acima de tudo demonstrar que a maioria dos políticos, todos eles, têm agendas próprias, para além da agenda política na qual se respaldam. E diga-se em abono da verdade, PS e PSD foram durante décadas os grandes “mafiosos” deste sistema em que se tornou a nossa democracia, mais de interesses, do que da comunidade em geral.
    Depois vem a transumância entre dirigentes políticos e os próprios partidos, com contratações dignas do mundo do Futebol.
    Votar no BE não é votar num coisa asséptica, inodora, bactereologicamente pura. Votar no BE, hoje, é mandar o PS ou o PSD às urtigas, e tirar-lhes qualquer hipótese de terem cada um deles per si, uma maioria absoluta. Só isso, já faz toda diferença.
    Dessa forma vou continuar a votar no BE, e acho uma enorme piada quando me perguntam à esquerda, votar em quem?
    Mas alguém acredita, para além daqueles que têm interesses de classe ou económicos a defender, que haja um eleitor neste país a votar num partido qualquer por confiança no seu projecto político?
    Desenganem-se. Votam contra alguém, votando noutro alguém.

    • Paulo Marques says:

      “a maioria dos políticos, todos eles”
      A maior parte das pessoas. Esta é só das menos relevantes que alguma vez ouvi.

    • Ana A. says:

      “Votar no BE, hoje, é mandar o PS ou o PSD às urtigas, e tirar-lhes qualquer hipótese de terem cada um deles per si, uma maioria absoluta. Só isso, já faz toda diferença.
      Dessa forma vou continuar a votar no BE, e acho uma enorme piada quando me perguntam à esquerda, votar em quem?
      Mas alguém acredita, para além daqueles que têm interesses de classe ou económicos a defender, que haja um eleitor neste país a votar num partido qualquer por confiança no seu projecto político?
      Desenganem-se. Votam contra alguém, votando noutro alguém.”

      Rui Naldinho, faço minhas as suas palavras!

      E o mais caricato desta polémica em torno do caso Robles, é que parece que a Direita está tão eufórica por se ter “descoberto” que o deus (BE), afinal, tem pés de barro!
      Pois tem! Mas há-os que além dos pés, estão cobertos de barro até à ponta dos cabelos!

      • Rui Naldinho says:

        Como eu a compreendo, Ana!Infelizmente, cada vez mais as nossas escolhas são entre o mal menor, e a violação permanente da nossa dignidade, apoiados por um bando de escribas contratados a preceito, quais catequistas da pobreza regeneradora do ser humano.

      • Miguel Fonseca says:

        A empresa de que Catarina Marins é sócia e cuja sogra e marido são os gestores recebeu 137000€ do QREN. Quando não tem hospedes faz usufruto da mesma. Ou seja, casa á borla.
        Para quem defende a saida do Euro e tanto fala contra a EU andar sempre de mão estendida parece-me bastante incoerente, mas cada um acredita no que quer.

        • Rui Naldinho says:

          Por essa ordem de ideias, ninguém votaria no PS, no PSD e no CDS, (gostava que você se assumisse, já que descobriu esses demónios no BE), onde negócios como o que refere, a ser verdade, são amendoins.
          A minha casa custou-me 200.000 euros, antes do euro 40.000 contos. Isso é alguma coisa!?
          Há apartamentos em Lisboa com quarenta anos a custar 1.000.000 de euros.
          Se bem me lembro, PSD e CDS são aquilo a que eu chamaria na nossa democracia de “predadores do Sistema”. O PS parece uma “raposa”. Sempre que pode e apanha alguém distraído, vai ao galinheiro.
          Falar num negócio de 137000 euros, só pode ser brincadeira depois de terem falido a Banca, a PT, etc, etc

  6. Maria João says:

    Tudo o que penso sobre este assunto está aqui. De facto não podemos ser abolicionistas e ter escravos na Sanzala.

    • Rui Naldinho says:

      Subscrevo integralmente o seu comentário. E acho feliz a figura de estilo usada.
      No entanto, e isto nada tem a ver consigo, enoja-me ver os maiores esclavagistas da Tugalândia, com os seus paineileiros avençados, insurgirem-se contra um pretenso tresmalhado duma ovelhada que se presume séria.

      • Carlos Almeida says:

        Mas o problema é que na Esquerda não pode haver ovelhas tresmalhadas e a evidente progressiva “Podemização” do Bloco iria fatalmente levar a isso. Felizmente que ainda existe gente dentro desse partido que não vai em modas, embora tenha esperado tempo de mais para actuar. Ou então foram as meninas que não ligaram aos alertas feitos pelo Fazenda.
        Mas se não ligaram têm que ser responsabilizadas por isso, porque tinham a obrigação de saber que a direita e o PS andavam à procura de uma aberta para atacarem.
        Quem prega uma politica, tem que ser o primeiro a cumpri-la.
        Se não, vai dar força aos que dizem que os políticos são todos iguais

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