Um dia destes, acordamos em 1984

Cartoon via Madrid me Mata

Pensava eu que Espanha era um Estado laico, e não uma daquelas tiranias teocratas onde o comum cidadão pode ser preso por satirizar figuras religiosas, cuja simples existência não reúne sequer unanimidade. Anda a Europa às aranhas com Orbáns e quejados, e eis que um cidadão espanhol, o actor Willy Toledo, se vê na situação de ter que responder perante um juiz por, alegadamente, ridicularizar Deus e a Virgem Maria. Não sei bem porquê, mas vem-me imediatamente à cabeça imagens de fundamentalistas islâmicos a pedir a cabeça de cartoonistas que ousam ridicularizar o profeta Maomé e outros símbolos do Islão.

Não é a primeira e, pelo andar da carruagem, não será a última vez. E estas porras são contagiosas. Da música ao teatro de fantoches, a Santa Inquisição dos tempos modernos tem sido implacável, e a Amnistia Internacional já veio expressar a sua preocupação pelas restrições que a liberdade de expressão enfrenta em Espanha. Aqui e agora, na Europa Ocidental que se horroriza em permanência com a censura praticada a leste.

O caso de uma estudante espanhola, Cassandra Vera, condenada a um ano de pena suspensa e proibição de exercer cargos na função pública durante 7 anos, por ter feito piadas com o atentado que vitimou o dirigente franquista Carrero Blanco, choca os mais sensíveis. Um estado que oprime quem satiriza um tirano presta-lhe homenagem. E não, não estamos a falar do Irão, da Venezuela ou da Arábia Saudita. Não estamos sequer a falar da Hungria ou da Polónia. Estamos a falar de Espanha, uma democracia liberal que integra a União Europeia desde 1986.

A liberdade de expressão é um direito fundamental e um dos pilares da União Europeia. Porém, perante esta sucessão de casos de opressão, que trazem à memória o obscurantismo de outros tempos, nem uma palavra da União. Da União que ainda na passada semana despoletou um processo de sanções sem precedentes contra a Hungria, um processo que de resto acabará por bater numa parede chamada Polónia, que já avisou que usará o seu direito de veto para proteger o regime autoritário de Viktor Orbán. Vivem-se dias sombrios, naquele que é o último bastião daquilo que resta da democracia. Um dia destes, acordamos em 1984.

Cartoon via Mundiario

Comments

  1. Ricardo Silva says:

    Estamos a falar da Maria? Aquela que pôs um par de cornos ao Zé?


    • …..mau gosto, fasquia baixa, !! …..assim não, R. Silva, um mínimo de respeito pela crença de outros é preciso !!!!!!!!

    • Paulo Marques says:

      Não, isso foram más traduções. O facto disso obrigar as mulheres a ser púdicas durante séculos não é uma coincidência histórica.

  2. Miguel Bessa says:

    Antes de mais criticar TODAS as violações da liberdade de expressão. TODAS.

    Mas ver alguém de esquerda que insulta de fascista, homofóbico, xenófobo (enfim aquele leque de insultos que todos conhecem) para cima tudo o que não é extrema esquerda a criticar uma ridícula ida a tribunal (não é sentença nem despedimento ou algo do gênero) por exercício de liberdade de expressão.

    Se fosse contra o Islão era da mesma opinião? Ou era xenofobia?
    Equiparar ir a tribunal com levar com atentados como sendo a mesma coisa?
    Realmente na música a inquisição tem atuado, basta recordar o “sexismo” do Chico Buarque (?).
    A amnistia internacional o que diz dos casos em que atores ficam sem trabalho porque vão representar uma minoria da qual não fazem parte? Pensei que representar implicava não ser a pessoa que se representa!

    Desculpe mas se há censura de algum lado é da esquerda, marxista cultural, politicamente correta! Vir falar de 1984? É brincadeira? As atuais “people of color” já mudaram de termo identificativo quantas vezes em 60 anos? Novilíngua?!

    • António Pedro Pereira says:

      Este Miguel Bessa é o novo controleiro direitolas do Aventar?
      É que a sua atitude,sempre contra todos e contra tudo, faz-me lembrar o troll que se assina como José.
      A esta gente nada lhes escapa.

      • Rui Naldinho says:

        O AVENTAR é um blogue tutelado por gente civilizada, presumo eu, onde toda a gente pode escrever, da esquerda à direita, desde que não insulte.
        Logo, os Migueis Bessa deste país podem sempre dar a sua opinião, “na boa”.
        Contrariamente, percebe-se pelo tipo de escrita dessa gente, que se o blogue AVENTAR fosse tutelado por eles, a maioria de nós nem uma linha escrevia. Daí o “todas”, estar escrito com letras maiúsculas, como se a narrativa do seu pensamento não demonstrasse precisamente o inverso.
        É só isso que os incomoda. Nada mais.

    • Miguel Bessa says:

      Ora cá estão o “fascista, homofóbico, xenófobo” versão “a esta/ dessa gente”!

      O que vos incomoda realmente é o TODA! Pois há opiniões que são logo catalogadas á nascença e os dois comentários demonstram isso.

      A liberdade de expressão é para toda a expressão! Custa? Continuem a chamar nomes a “essa gente” e a dizer que os tolerantes são vocês!

      • Adão Fonseca says:

        Caro Miguel Bessa,

        Estes comunas confortávelmente instalados nos benefícios da sociedade ocidental que foi fundada nos princípios cristãos tentam destruir tudo por forma a “desconstruírem” a nossa maneira de viver, para assim finalmente instalarem a sociedade Comunista idealizada por eles como a melhor coisa que pode haver. E evidentemente apoiar o islamismo é apenas mais uma maneira de tentar destruir a nossa civilização.

        Mas mais uma vez temos o exemplo de como essa maravilha funciona , basta olhar para a Venezuela. Durante estes ultimos anos aqui neste blog estes comunas cantaram “hosanas” ao seu desejado regima instaurado num pais rico coma a venezuela. E apresentavam as declarações de apoi de “génios” como Stiglitz, Krugman , irrefutaveis com os seus “prémius nóbeis” na mão. Mas como qualquer pessoas que tenha um mínimo de conhecimento histórico e não seja mal intensionado sabia de antemão era só esperar para que a fome se instalasse:

        “Na Venezuela, 87% da população é pobre e 61% vive em pobreza extrema, segundo dados divulgados na quinta-feira pela organização não-governamental Coligação de Organizações pelo Direito à Saúde e à Vida (Codevida).”

        Como dizia um reputado economista americano: ” Deixem os socialistas gerirem o deserto e logo haverá falta de areia”

        Já agora e uma vez que se está a falar de Espanha, quem precisa de um milagre é o vosso querido Sanchez, para que o Senhor transforme uma tese plagiada em original, ou o melhor será falar com o Relvas ou 44 que também tem boas experiencias nessa matéria.

        Adão Fonseca.


        • Não sou comunista nem pretendo defender o comunismo mas já que consegue ter explicações tão simples, de certo que poderá explicar-me as razões porque países não comunistas como o Haiti ou a Nigéria podem também ser miseráveis.

          • Rui Naldinho says:

            Como é óbvio, nem você parece ser comunista pelo que escreve, nem a maioria dos que aqui comentam, o são.
            O problema é que para certas estirpes, quem não pensa como eles, só pode ser comunista.

          • Paulo Marques says:

            “as razões porque países não comunistas como o Haiti ou a Nigéria podem também ser miseráveis.”

            Monetarismo.

        • António Pedro Pereira says:

          E se fosses chamar comuna a uma pessoa que eu cá sei e que não tem culpa de teres nascido sem cérebro.
          Um cérebro dá jeito a todas as pessoas, tenho pena de ti.


          • Chiu… Ele julga que tem um comunista debaixo da cama. Tenha pena dele e não o contrarie.

        • Paulo Marques says:

          “que foi fundada nos princípios cristãos”
          Faltou-lhe o “Apesar de”. E mesmo aí, Cristo era um comuna, esta coisa de partilhar com os outros, proibir a usura, dar a outra face, proteger os mais fracos e por aí adiante não sobreviveu ao primeiro sucessor.

        • Paulo Marques says:

          “Na Venezuela, 87% da população é pobre e 61% vive em pobreza extrema, segundo dados divulgados na quinta-feira pela organização não-governamental Coligação de Organizações pelo Direito à Saúde e à Vida (Codevida).”

          E a Argentina, TImor-Leste, Grécia e outros, depois de seguirem à risca o FMI são um paraíso, e o colapso da Islândia foi horrível de ver.
          Um país que nem os meios de produção da agricultura controlou ser comunista, só na cabeça de idiotas úteis que vão alegremente pagar a falência da banca europeia outra vez.


          • Sobre a Venezuela e América Latina, é importante assistir a esta excelente análise de Boaventura S. S.

            https://www.rtp.pt/play/p1299/e364908/a-ronda-da-noite

            do minuto 15 em diante.

          • Paulo Marques says:

            Espero lembrar-me. É difícil obter factos sobre a Venezuela, há muita propaganda capitalista (acima de tudo), mas também alguns esquerdistas bastante cegos.

          • Miguel Bessa says:

            Nem todos os países pobres são comunistas, mas todos os países comunistas são pobres. Causalidade e correlação são coisas diferentes.

            Não controlou a agricultora mas controlou o petróleo! A maior riqueza natural do país. Claro que num país socialista até ter petróleo é causa de pobreza.

            Colapso da Islândia? É só malta a fugir da Islândia para a Venezuela. Qual é/ foi o país comunista do qual os cidadãos não tentaram fugir?

            Dar a outra face? Comunismo? Só se for num gulag!


          • “Nem todos os países pobres são comunistas, mas todos os países comunistas são pobres.”

            Eu sei que que há falta de melhores argumentos irá tentar convencer-nos que a Republica Popular da China e a Republica Popular do Vietname não são países comunistas.

          • Paulo Marques says:

            O Adão é que foi buscar o comunismo, que se existiu não teve nada a ver com o que Marx descreveu. Foi buscar o papão quando é desvirtuado para anular qualquer crítica ao capitalismo existente, como se não houvesse quem fizesse ou faça diferente com melhores resultados.
            Como é que a Venezuela é comunista se nem a agricultura controla e prende a cotação da moeda a uma moeda estrangeira? E como é que os países a seguir os conselhos do FMI, do Banco Mundial e da OCDE, todos à esquerda da UE, se lixam sempre?

          • Miguel Bessa says:

            Já estamos no ponto do “não é o verdadeiro comunismo”? A Venezuela não é comunista apenas porque não nacionalizou a agricultura? Nacionalizou a induindús que representa possivelmente (não é dado estatístico) 90% do PIB. Não nacionalizou a agricultura porque o dinheiro do petróleo dava para tudo!
            A China antes de abrir ao comércio externo era o que? Lol.
            UAU. O vietnam é o pais comunista de sucesso? Estamos todos desejosos de emigrar para lá.

            Como é lógico as pessoas saem de onde estão mal tentando ir para locais melhores. Este é o sentido de deslocamento das migrações! Porque e que ninguém quer ir para os paraisos economicos comunistas? Porque é que ninguém quer ir para os paraisos de diversidade cultural do islão?

          • Miguel Bessa says:

            PS. A agricultura representa 3,9%. É por não nacionalizar menos de 5% que deixa de ser comunista? O comunismo verdadeiro precisa de controlar os 100% do PIB? Quem quer viver num país em que TUDO o que se produz é do governo? Quem vai trabalhar nesse país?

          • Paulo Marques says:

            Vá olhar para onde surge a inflação nos vossos queridos exemplos e vê o que tem a ver a agricultura. Sendo a procura muito maior do que a oferta, o preço dispara. E deixou de haver oferta porque os EUA pagaram aos produtores para não venderem.
            Se mandar o mercado de câmbio e as regras mundiais do comércio dar uma volta ao bilhar grande é comunismo (invés do controlo dos meios de produção), não vejo em que é que a China não é tão comunista como era, tal como o Japão ou a Islãndia quando impôs a sua solução aos credores.
            Por outro lado, também ninguém percebe a fixação com o comunismo, nem o PCP é contra o capitalismo. Querer capitalismo como o New Deal não tem nada de radical, é só bom senso e matemática.


    • São estranhos os tempos que contemplamos.
      Agora até os fasci… (perdão) os nacionalistas se renderam ao politicamente correcto. Insistem que não são homofóbicos, preferem ser designados como defensores dos “valores da família” (seja lá o que isso for).
      Ou que também não são xenofóbos, são antes defensores da pureza da “cultura nacional” (seja lá o que isso for).

    • Paulo Marques says:

      “Antes de mais criticar TODAS as violações da liberdade de expressão. TODAS.”
      Os estados é que violam a liberdade de expressão. TODOS, em maiúscula, por boas e más razões, porque se não tem o monopólio da violência ainda é pior.

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