Pontas soltas

Berardo, no pico da crise acionista do BCP, chegou mesmo a ser considerado pelo comentador Marcelo Rebelo de Sousa a figura empresarial do ano.

 

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Boa noite, Ana.
    Há um texto muito bom do jornalista Pedro Tadeu, no DN, sobre esta gente e este episódio recente.
    O Bruno, hoje, nas suas incursões filosóficas, não querendo repetir-se aos demais, aborda também a ideologia da decência, numa classe política e empresarial cada vez mais indecente.

    Vou plasmar o artigo do Pedro Tadeu. Ele diz lá tudo.

    JOE BERARDO É CULPADO DE QUÊ ?

    (Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 15/05/2019)

    O senhor Comendador

    Um exército de comentadores, jornalistas, economistas e políticos rasga as vestes pela falta de respeito de Joe Berardo, pela desfaçatez de Joe Berardo, pela petulância de Joe Berardo, pelo riso alarve de Joe Berardo.
    E o que é que Joe Berardo, tal como Ricardo Salgado, tal como Zeinal Bava, tal como tantos outros que passaram pelas várias comissões de inquérito que já escalpelizaram os vários escândalos financeiros do país, acabaram por tornar claro nas declarações que fizeram aos deputados da Nação? É que aquilo que agora lhes é apontado como condenável e criticável foi, simplesmente, a normalidade do funcionamento do regime: foi a normalidade do regime político/jornalístico, foi a normalidade do regime económico/financeiro e foi a normalidade do regime jurídico/legislativo.
    Quando Joe Berardo responde “perguntem aos bancos…” à questão sobre como conseguiu receber milhões de euros em créditos sem ter de entregar garantias, está a explicar aos deputados como era a normalidade do funcionamento do regime económico/financeiro.

    Quando Ricardo Salgado justificou com um parecer de três reputados juristas a legalidade do recebimento de 14 milhões de euros a título de “liberalidade” de um empresário agradecido, estava a demonstrar ao país como era a normalidade do funcionamento do regime jurídico/legislativo.

    Quando Ramalho Eanes e Jorge Sampaio condecoraram Joe Berardo; quando Cavaco Silva condecorou Zeinal Bava; quando a maioria dos políticos e tantos jornalistas portugueses de economia e política, com bravas exceções (que as houve e, a alguns, prejudicou-lhes mesmo as carreiras) disseram e escreveram, anos e anos a fio, toneladas de elogios a estas pessoas; quando competiram num frenesim de bajulice a estas pessoas; quando esconderam as notícias negativas, mesmo as mais insignificantes, sobre estas pessoas; estava a decorrer em velocidade de cruzeiro a normalidade do funcionamento do regime político/jornalístico.
    A direita adora dizer que são filhos dos desmandos do antigo primeiro-ministro, suspeito de corrupção, José Sócrates, os escândalos que levaram Joe Berardo a ir pavonear graçolas ao parlamento, Ricardo Salgado a altivar-se ofendido pelas suspeitas dos deputados e Zeinal Bava a magicar graves falhas de memória durante o interrogatório da comissão de inquérito. É mentira.

    Os escândalos financeiros que causaram prejuízos de milhares de milhões de euros, que os portugueses estão a pagar e vão continuar a pagar durante muitos anos, são filhos de décadas de construção de um Estado onde a promiscuidade entre a política e a finança passou a ser regra.

    Essa promiscuidade começou com a recuperação dos grupos económicos destruídos no período revolucionário do pós 25 de Abril, aprofundou-se com a privatização da banca e dos seguros, mecanizou-se com a chegada dos fundos europeus e a cultura de fraudes que lhes atrelaram, agravou-se com os negócios do euro e do crédito barato.

    Essa promiscuidade institucionalizou-se com a utilização das empresas públicas, das fundações, das financeiras e dos institutos como porta de traficância de gente que produziu a técnica, a legislação, as políticas, o pathos, a ética e a consolidação do novo regime, a que chamaram “democracia ocidental” e hoje, mais globalizados, apelidam de “democracia liberal”.
    Durante dezenas e dezenas de anos, muitos e muitos viveram à conta desta ecologia da esperteza saloia, do favor trapaceiro, da aldrabice caucionada com carimbo jurídico, mediático, técnico e político.

    Durante dezenas e dezenas de anos os protagonistas desta revolução que se seguiu ao fim da Revolução dos Cravos dominaram o poder com a legitimação do jornalismo de influência e a adoração das revistas cor-de-rosa a construírem, em torno desta gente, uma nova aristocracia para o país.

    Agora, para surpresa dos que implantaram e se alimentaram do sistema durante mais de 30 anos, dizem que é crime. Agora, face à revolta generalizada, alertam contra os populismos.

    Sócrates poderá vir a ser condenado em tribunal por corrupção mas não é pai da corrupção.

    Sócrates é filho da natureza do regime que muitos dos nossos líderes construíram, tal como Salgado, Berardo e Bava. Para eles, tudo o que fizeram, os mil e um esquemas que inventaram para sacar dinheiro, os abusos que, aparentemente, tanta irritação provocam hoje em dia nos que antes os veneravam, não eram mais do que a evolução lógica e natural do funcionamento banal da politica e dos negócios.
    Ao ver os mesmos políticos, jornalistas, juristas e economistas, que foram campeões na proteção e promoção da imagem dos “Donos Disto Tudo”, a competirem agora por um lugar na primeira fila no linchamento de Berardo, Salgado, Bava e de todos os outros, faço apreciações de caráter cheias de onomatopeias e palavrões mas fico seguro de uma coisa: rapidamente, quando as coisas acalmarem, depois da necessária limpeza pela Justiça, esta gente irá arranjar um “gestor genial”, um “empresário de sucesso”, um “banqueiro talentoso” a quem se apresentarão para prestar o mesmo serviço que prestaram aos homens que colocaram Portugal à beira da ruína. Porquê? Porque o regime não mudou e, apesar deste abalo, não vai mudar e tudo voltará, lamento, à habitual normalidade.

  2. Ana Moreno says:

    Olá Rui, obrigada, mas não será o final do texto demasiado derrotista? Quem diria, há uns tempos, que chegaríamos a este ponto de exposição pública e condenação de comendadores? Não sou propriamente optimista, mas penso que estes espectáculos têm algum efeito mais durável – mesmo não duvidando da imensa e subtil profundidade dos mecanismos “do regime”. A todos os níveis.

    • Paulo Marques says:

      «Quem diria, há uns tempos, que chegaríamos a este ponto de exposição pública e condenação de comendadores? »

      Alguém que estivesse atento à desregulação financeira obrigatória na união europeia, o que é, infelizmente, o caso de meia dúzia de pessoas em todo o mundo. O que é pior é que, depois de tudo o que se passou nos últimos 11 anos, não se perceber que a escolha é entre a soberania e isto.

  3. Julio Rolo Santos says:

    É tudo verdade o que se diz no artigo de opinião, o tempo mudou mas o sistema inchou. Todos os dias são denunciados novos episódios de crimes economico-financeiros, que quase se torna impossível contornar os seus agentes, a tempo e horas, afim de prevenir males maiores. Quando se dá pela marosca e se tenta agir, a maioria dos bens, obtidos ilicitamente, já se dissiparam. Só a prisão não chega, é preciso ir mais além, como diz a Ministra da Justiça, actuar rapidamente por forma a recuperar os bens obtidos de forma fraudulenta, para que o criminoso não possa gozar uma reforma dourada, com o produto obtido, através de esquemas criminosos. Joe Berardo é um deles mas, ainda há muitos e muito piores do que ele.


  4. ” Qq semelhança com a coincidência…

    Há uma novidade, este ano, nas comemorações oficiais do Dia de Portugal, do Camões, do Éder, das Comunidades Portuguesas e da Madonna em Lisboa. Em vez de uma cerimónia de entrega de medalhas, haverá uma cerimónia de retirada de medalhas às mais altas figuras e personalidades do país.

    “No fundo, trata-se de uma série de figuras e personalidades que se destacaram nas mais diversas áreas, política, economia, artes, mas que depois veio-se a descobrir que afinal fizeram asneira”, explica o presidente da comissão organizadora.

    A cerimónia será em tudo idêntica à cerimónia de entrega de medalhas, mas em vez de ser o Presidente da República a atribuir a medalha à personalidade, neste caso é a personalidade a devolver a medalha ao Presidente. ”

    in / Impr. Falsa


  5. Nota ;:

    Sugestão enviada a João Miguel Tavares : )

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