A Educação e os contabilistóides

Segundo parece, em Touguinhó, no concelho de Vila do Conde, os oito alunos inscritos no primeiro ano do Primeiro Ciclo (primeira classe do Ensino Primário, para os menos informados) terão de se juntar aos alunos dos segundo e terceiro anos da mesma escola, o que fará com que, na mesma sala, haja três níveis diferentes.

Para que pudesse haver uma turma de primeiro ano, teria de haver um total de 19 alunos. Os pais estão compreensivelmente preocupados com a situação.

Desde 2005, graças à mentalidade contabilistóide que tomou conta do mundo, a Educação tem sido alvo de um conjunto de medidas que, através da política do facto consumado, serviram para dificultar a vida das escolas, sem que os cidadãos se preocupem verdadeiramente com o assunto. O cidadão, mais propriamente o portuguesinho, fica satisfeito se os professores forem pisados, até porque não passam de inúteis em greve permanente.

Ter na mesma sala de aula alunos de níveis diferentes só cabe na cabeça de gente que não considera a Educação uma área fundamental. Não deveria haver a possibilidade de haver sequer dois níveis, quanto mais três, como estará prestes a acontecer em Touguinhó, o que nem sequer deverá ser caso único.

Os idiotas mais antigos desprezarão este problema, lembrando que até eram quarenta dentro da mesma sala, sempre com duas classes diferentes – no mínimo –, para não falar de que conseguiram excelentes notas, apesar de andarem descalços, haver uma sardinha para dez e levarem com o cinto do pai diariamente.

Os idiotas modernos da secção contabilistóide  lembrarão a necessidade de conter os custos, sendo toda esta situação consequência da baixa natalidade. Os da secção eduquesa, aliados implícita ou explicitamente aos anteriores, farão referência à necessidade de um ensino individualizado, uma vez que cada aluno é, no fundo, um nível, pelo que o professor deve limitar-se a estar, permitindo que as crianças e os jovens construam o seu próprio saber e outras boas ideias que são frequentemente pervertidas em nome do deslumbramento acéfalo com a novidade.

E quem é o mexilhão? É o aluno. O leitor pensou que a minha resposta seria “o professor”. Nada disso: o professor é a rocha que ainda vai valendo ao mexilhão. E o mar enraivecido? É simples: os políticos e inércia dos cidadãos.

Comments

  1. Carlos Almeida says:

    Por acaso a mesma coisa acontecia em 1951/55 na minha escola e em muitas outras de certo.
    Nesse tempo era assim, mas passado que foi mais de meio século é preocupante

    • Rui Naldinho says:

      É verdade. Lembro-me bem desse tempo. Nomeadamente no interior do país e nas zonas periféricas das grandes cidades, locais onde não existia saneamento básico nem água potável, a televisão era no café da esquina, o telefone público e o correio na mercearia do Ti Barnabé, pais e filhos dormiam no mesmo quarto, fabricando eles os irmãos destes, ao som sussurrante dos que já neste mundo, na sua ingenuidade, achavam que a cegonha não fazia aqueles gemidos da mãe, durante a noite.

      Depois veio a telescola, em 1965, mas isso já é “modernidade”. Mesmo assim os mais pobres tinham de se pendurar nos remediados.

      Eu sei que muita gente tem saudades desse tempo. Porque nesse tempo só os ricos é que se endividavam.
      Há gente assim. Gente nostálgica.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Investigações recentes mostram que Portugal, em pleno século XIX, perdeu o comboio da modernização, via industrialização, por três razões:
    1 – Um estado que nunca investiu na educação nem na formação das pessoas.
    2 – Uma classe capitalista que assumia que a formação dos seus operários era directamente proporcional aos problemas reivindicativos que teria que suportar.
    3 – Um povo apático cuja iliteracia atingia os 90%.

    Por outro lado Oliveira Martins, nos discursos que ia fazendo na Assembleia dos Deputados, apontava a deficiência e as consequências que delas adviriam.

    Passados 140 anos assistimos à mesma película, possivelmente não na forma, mas no conteúdo.
    1 – Assistimos ao modo como os professores são tratados pela classe política e como a sua função é desvalorizada.
    2 – Assistimos a uma importante fatia da população secundar os ataques feitos aos professores, num meio onde as ligações políticas, causadas pelo obscurantismo salazarista e continuado, em democracia, por personagens políticos com responsabilidades, são mais que evidentes.
    3 – Assistimos, ainda, a uma boa fatia do povo a misturar a (já) digerida má vontade contra um determinado partido, com a luta de uma classe profissional.
    4 – Assistimos, finalmente, à devoção com que é tratado o novo Deus, o Santo e Todo Poderoso Orçamento, que suporta o feudalismo financeiro, com que os “centenos” deste país nos brindam.

    Concluo dizendo que os três pontos que acima enunciei, de certo modo, estão ainda hoje vivos, gerando situações como a que aqui se relata.
    Vem-me à memória o sentimento de gratidão e elevação social que é devido aos professores, em países como o Japão.
    E deixo a frase que a actual Assembleia dos Deputados, hoje da República algumas vezes ouviu, pronunciada por Oliveira Martins:

    “(…) A história é sobretudo uma lição moral (…) “.

    A frase cá está, embora reconheça que falar de moralidade naquele meio e à forma como este povo vem sendo educado, é algo de estranho e complexo.

  3. Anonimus says:

    Três anos de Primária com dois anos por sala.
    Em Coimbra (cidade)
    Não, não é caso único nem exclusivo de aldeias.

  4. nuno says:

    Vem-me à memória o sentimento de gratidão e elevação social que é devido aos professores, em países como o Japão.

    Comparar Portugal com o Japão, é a mesma coisa que comparar cagalhões com marmelos!

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Nós comparamos as coisas da forma que a nossa educação o pemite. Fiquei elucidado.

    • POIS! says:

      Pois!

      Citando: “Comparar Portugal com o Japão, é a mesma coisa que comparar cagalhões com marmelos!”

      Que é uma coisa que se evita de fazer lá em sua casa, por razões de economia. Aproveita-se tudo para fazer compotas!

  5. José António Moreira Rodrigues says:

    Mas é uma verdadeira aplicação da educação inclusiva defendida por tantos como está entendida no DL 54.

  6. JgMenos says:

    A mentalidade contabilistóide é uma ameaça para o país.
    Contabilizam-se salários, subsídios, contribuições, ajudas, participações, carreiras…

    Para bem da nação passemos à troca directa!

    • abaixoapadralhada says:

      “Para bem da nação” ?????’

      Onde é que eu já vi isto ?

      Nunca me enganaste !

    • POIS! says:

      Pois!

      O contabilisteiro Menos pensa que a contabilidade só existe desde que ele nasceu. Pois que fique sabendo que nos tempos da troca direta e proto-monetária já havia contabilidade. É só procurar uma tasca frequentada por Fenícios – há muitas por essas costas adinate – que eles lá estão para confirmar.

      Não se admire que lhe proponham que alinhe num esquema no quarto dos fundos. Os fenícios são assim. Afinal trata-se também de uma forma de troca direta. No fim eles indicam-lhe a rubrica onde deve contabilizar a coisa, para memória futura.A bem da nação.


  7. .
    ..menos com menos dá mais ?

    se forem par, dá mais, mas se forem ímpar dá menos !
    Troca directa :
    par ou ímpar ? ….a bem da nação ! : )


    : )

    • E o burro sou eu ? says:

      “menos com menos dá mais ?

      se forem par, dá mais, mas se forem ímpar dá menos !
      Troca directa :
      par ou ímpar ? ”

      Que grande confusão que aí vai

      Há mais de 60 anos que aprendi

      x + = +
      x – = –
      x – = +
      x + = –

      É isto e nada mais que isto

      • E o burro sou eu ? says:

        ( + x + = + )
        ( + x – = – )
        ( – x – = + )
        ( – x + = – )


      • ….claro que a intenção do rigor matemático não assistia a esta piada para JgMenos contabilista !!

        ..,.não é caturrice , é p´á gente se rir !!!

        • E o burro sou eu ? says:

          Esse cromo não merece 2 segundos da minha atenção.

  8. Ana A. says:

    Não estavam a pensar pôr a Educação na alçada das autarquias?

    Será que já começou esse “movimento nacional de poupança”, em que as autarquias têm que gerir os seus parcos recursos e consequentemente amontoar os alunos, e não fomos avisados?!

  9. Luís Lavoura says:

    Mas qual é a novidade disto? Já há decénios que se junta meninos de diferentes anos em escolas primárias do interior.

    • António Fernando Nabais says:

      O facto de não ser uma novidade torna tudo ainda mais criticável. A mentalidade “contabilistóide” ajuda a proteger a “normalidade” daquilo que é, na realidade, uma perversão.

      • Linda Narciso says:

        O que interessa para o governo é que as estatísticas das retenções seja 0%.
        O resto é igual ao litro.
        Para fazer bonito lá fora não é preciso mais.

        • Paulo Marques says:

          E para a direita o que interessa é condenar muitos à caridadezinha cortando-lhes as oportunidades, para terem o respeitinho que a classe superior lhes devia dar.